Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

A pedido...

Por gentileza do autor, posso satisfazer os vossos pedidos. Aqui fica um capítulo, que não chegou a ser, de O Pastor das Casas Mortas.

 

 

O queijo
 
A casa da Zélia! A cozinha da Zélia, onde as suas mãos faziam feitiços! Estava ainda ali toda a parafernália do encantamento que tornava o seu queijo o mais famoso em feiras e mercados, em lojas de migalhas e mercearias de vender aos quilos. Nas feiras, era a primeira a despachar a venda, e os fregueses esperavam por ela quando ia atrasada.
No entanto, Manuel não lhe imaginava nenhum gesto diferente dos da mãe ou das irmãs. Recompunha a cena na memória, dava-lhe uns retoques de adulto a vasculhar nos trastes do passado e via-a, na leveza volátil do seu corpo, a cirandar como abelha em voos de libelinha.
Levantava-se antes de o Sol nascer para ajudar na ordenha. Depois acendia o lume de giesta e pinho, deitava na panela o cardo esmagado que servia de coalho, e vazava o leite da ferrada coando-o através do pano branco com sal, posto na boca da panela. Talvez nunca tocasse no leite, para saber se a quentura estava no ponto certo, antes de o tirar da lareira. Pronta a coalhada, começaria então a arte do feitiço, quando a sua mão direita a desfazia, continuando a seguir ao passá-la para o cincho na francela. E os apertos para dessorar seriam como os da mãe, e o pano com que envolvia o queijo, o tempo que este demorava a reimar, a água tépida com que era lavado todos os dias e o pano novo que substituía o de cada véspera. Se ela nunca se enganava na quantidade do coalho e do sal, se calculava bem as duas, três ou quatro semanas da cura, conforme era mais ou menos o calor, ou menos ou mais o frio, a mãe tão-pouco. Por isso tinha de haver feitiço nas mãos da Zélia.
O irmão mais novo de Manuel quis uma vez tirar a limpo, na feira, se o queijo dela era mesmo melhor que o seu ou se o principal do sabor entrava primeiro pelos olhos, e nesse caso não por virtude do leite nem dos seus tratos na cozinha, não por ser melhor a madeira da francela nem os cuidados da cura, nem sequer devido às mãos que o faziam, enquanto o faziam, mas durante a venda.
Apanhando-a distraída, trocou um dos seus queijos por um dela e foi dando este a provar aos fregueses que passavam, direitos ao sorriso da Zélia ou vindos de lá já satisfeitos com o sorriso e a compra.
O primeiro freguês meteu à boca o pedacito que lhe fora oferecido, esmagou-o lentamente, distribuiu-o pela parte posterior dos lobos da língua, deteve-se em profunda contemplação interior, engoliu, meditou durante uns momentos, e deu a decisão: “É um bom queijo também, mas o da Zélia é melhor.” E ainda acrescentou, para que não houvesse dúvidas quanto à segurança da opinião: “Basta tocar na ponta da língua, que logo se vê a diferença.”
Desde esse até ao último provador o que não houve mesmo foi diferença na opinião e nas falas que valesse a pena referir ao contar o episódio.
 
Que longe estava agora a Zélia!... Que longe daquela casa e de si mesma, enrolada nas rugas do tempo. Enjaulada numa língua estrangeira na qual até os netos lhe repetiriam todos os dias o ditado da sentença de exilada. Corpo de gazela abaulado pela proibição do salto. Metamorfose inversa de borboleta, da liberdade do voo à asfixia do casulo. Beija-flor num jardim de pedras.
A Zélia partiu, e morreu metade da aldeia. Porque a alma da aldeia não era feita segundo a fórmula matemática da soma das partes. Só nas cidades não se sente a falta ou o ganho de mais ou menos um. Quando alguém deixava a aldeia, ela parecia ficar quase despovoada.
Mais que uma ausência, a despovoação é um sentimento.
Ela voltou lá algumas vezes. Mas voltou apenas enquanto houve gente naquela casa que pudesse sentir a tristeza da chegada. (A chegada que não é de ficar é quase tão triste como a partida. )
No último ano em que estivera na aldeia, prevenira Manuel de que os seus pés decerto não tocariam outra vez tais pedras nem tais atalhos. Vir tão longe para ver tão poucas pessoas, por mais que lhe custasse por elas e pelo cenário dos seus melhores anos, não valia a pena. E chorara, sem lágrimas, o tempo antigo. Ele corrigira-a: “Não tens saudades desse tempo. Tens saudades é da idade que tinhas nesse tempo.”
Zélia concordara. Ela nunca discordara dele, apesar de ser mais velha, o que, pelas normas, queria dizer mais sábia. Mas ainda a emocionava aquela paisagem imensa que fazia a Aldeia Nova da Serra parecer muito maior do que Lisboa ou Paris. E pediu que lhe dissesse o poema do príncipe. Ele fez-lhe a vontade.
 
“Era uma vez
um príncipe valente.
Vivia em seu castelo
numa alta montanha.
Dali via-se o mundo,
o mundo muito longe.
E o mundo visto assim
parecia-lhe bom.
Desceu a conquistá-lo
no seu cavalo branco.
E essa parte do mundo
que os seus olhos não viam
matou-lhe o seu cavalo,
o seu cavalo branco
que era uma cana verde.”
 
Também ela perdera o seu cavalo branco. Já não podia regressar.
 
                                                                                 Daniel de Sá

 

publicado por Elisabete às 14:54
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12 comentários:
De Ibel a 4 de Julho de 2008 às 23:55
Que espanto e que susto! Não é só a lingugem, é o conhecimento dos termos, é a sabedoria do fazer e como fazer, é a dimensão humana que é emprestada às palavras.As metáforas cracterizdoras da personagem desterrada do ninho são esmgadoras."corpo de gazela abaulada pela proibição do salto.....beija-flor em jardim de pedras".
É preciso muito de tudo para uma coisa assim.
De Elisabete a 5 de Julho de 2008 às 00:26
Exactamente, Ibel.
E sempre comovente, não é?
De João Veiga a 5 de Julho de 2008 às 02:44
Ora como esse queijo me abriu o apetite.Na Guarda o queijo da ti maria do airó era famoso e julgo que a filha ainda os faz.O texto é outro queijo!
De Berto a 5 de Julho de 2008 às 15:09
Há quem tenha grandes dotes par fazer queijos e para os contar.Eu cá só sei provar.Os dois, claro.
De Tiago a 6 de Julho de 2008 às 00:41
Quando a professora Ibel aconselha o aluno obedece apesar de ser ex-aluno, infelizmente.O nome e alguns textos do escritor já são do meu conhecimento, mas é sempre gratificante ler bons textos e por isso vim sciar a curiosidade porque gosto muito de ler e apesar de não ser apreciador de queijos gostei e não fiquei enjoado.
De Elisabete a 6 de Julho de 2008 às 01:08
João Veiga, obrigada pela informação. Quando for à Guarda vou procurar a filha da ti Maria do Airó.
O Tiago não sabe o que perde por não gostar de queijo. Alguns são de chorar por mais.
Obrigada a todos por virem até aqui.
De mar de bem a 8 de Julho de 2008 às 00:20
Daniel:

O meu cavalo branco talvez não tenha sido uma caninha verde, mas sem dúvida foi qualquer coisa que se perdeu, qualquer coisa entre a inocência e a busca da sabedoria... Nesse deambular, perdi-me e voltei a encontrar-me, em diferente criatura, vezes sem conta, porque lhes perdi a conta da conta e sem conta não há conta. É por isso que passei da conta e...estou mais velha!!!

Daniel, estou passando da conta!!!

(Sabes, Daniel, não me deixavam fazer queijo porque tinha as mãos muito quentes e isso fazia o queijo lêvedo!...)
De Anónimo a 8 de Julho de 2008 às 02:34
hi-çkjçk
De Anónimo a 8 de Julho de 2008 às 02:41
Daniel,porque nos abres o apetite com ESTE delicioso queijo?Provavelmente ainda haverá mágicas mãos a perpetuar o feitiço desta arte de saber fazer,dizendo,contando...
Abraço,Eduarda
De Daniel de Sá a 13 de Julho de 2008 às 01:22
Minhas amigas e meus amigos
Desculpai-me não ter aparecido ainda por aqui a agradecer a vossa simpatia. Já estou arrependido de não ter posto este capítulo no livro. Pois se até o Tiago, que não gosta de queijo, diz que gostou deste...
Ó meu Bem, ou minha Bem, e não tinhas um alguidar de água fria para lavares as mãos antes de fazer o queijo?
De mar de bem a 14 de Julho de 2008 às 01:31
OH, DANIEL, eu acho que só atrapalhava. Era pequena demais e aquilo p'ra mim era brincadeira...
Um abraço, com as mãos lavadas...e o soro já foi todo p'ra ferver!!!
De Elisabete a 15 de Julho de 2008 às 16:19
Realmente, não percebo a razão do "corte". Ficava lá muito bem, meu amigo.
Sorte, sorte... teve o Luar de Janeiro.
Muito obrigada por permitir a publicação neste espaço.
Um abraço
Elisabete

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