Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

GUARDA: imagens de hoje... memórias de outrora

 

Na sagrada Beira
 
A Guarda contaria então (finais de 40, princípios de 50) uns dez mil habitantes: o liceu, o seminário, o colégio dos padres (o Rocha), o quartel, o sanatório, o tribunal. Ultra-conservadora,fechada, atenta à correcção dos desvios, à rotina cinzenta, caiu-me em cima e apertou-me. “De pequenino se torce o pepino”, diz o povo. Talvez; mas há pepinos que custam a torcer e há-os os que nunca se deixam torcer… Na Guarda daquele tempo, a cultura limitava-se à Biblioteca Municipal e à papelaria do Sr. Casimiro. Graças a ele, tive acesso, sem que ninguém me aconselhasse, às primeiras leituras de Thomas Mann, Proust, Steinbeck, Gogol, Somerset Maugham, Romain Rolland; e de André Gide, para escândalo dos meus professores do Rocha. Li-os nas saudosas colecções “Miniatura” e “Os Livros das Três Abelhas”, nos “Livre de Poche”.
O “escândalo” de privar com Gide, que não chegou a dar-se, merece um aparte simpático: ia eu a sair da papelaria do Casimiro, todo ufano, numa tarde do Inverno de 1953, com La Symphonie Pastorale, debaixo do braço, na capa uma linda Michèle Morgan, e esbarro com o meu professor de francês, o Padre Manuel Cabral, que arregalou os olhos para o livro. Sorriu, embaraçado, e não comentou; nem ali, nem na escola, apesar da Opera omnia Andreae Gide constar, desde 24 de Maio de 1952, (decisão muito recente…), do tenebroso Index librorum prohibitorum do Vaticano. Devo-lhe essa cumplicidade – e devo-a, com certeza, à sua inteligência e sensibilidade, qualidades raras no tal colégio.
Museu
 
Na Biblioteca Municipal, uma outra figura singular, extraordinária naquele meio estreito, o Padre Pôpo, o director, ajudou-me, deixando-me levar para casa os autores que eu queria, não cuidando da minha idade – descuido precioso -, fechando os olhos e, até mesmo, estimulando a minha curiosidade e a minha sede de entrar no mundo mítico da literatura. Quanto me apoiou a sua compreensão! Li Tolstoi, Feodor Sologub (A Loucura de Peredonov, na Inquérito), Raúl Brandão, Alexandre Dumas (A Rainha Margot, que me pai me escolheu, para ajudar a passar a convalescença de uma pequena intervenção cirúrgica), os primeiros romances de Dostoievski.
Anos mais tarde, reformado o Padre Pôpo, nomearam um ex-universitário coimbrão, da fina flor ultramontana, arranjadinho, esterilizado, de risca ao lado e óculos, esticadinho, cor de mortalha, que me proibiu de levar para casa O Contrato Social,de Rousseau. Onde terá ido parar esse idiota?
Casas da Praça Luís Vaz de Camões
(também Largo da Sé ou Praça Velha)
 
Havia, ainda, o Cine-Teatro. Ali pude ver, entre outras obras, Europa 51, de Rossellini, Luzes da Ribalta, de Chaplin, O Terceiro Homem, de Carol Reed, La Carrozza d’Oro, de Jean Renoir, no meio dos dramalhões com a bela e doce Maria Schell, que punha em pranto a plateia e me encheu os primeiros sonhos da adolescência, ou dos melodramas com o galã de serviço, Amadeo Nazzari a apostrofar a filha apaixonada: “Vatene donna, questa casa non è più la tua!” (a primeira frase que aprendi a dizer em italiano).
A obra-prima de Renoir merece, também, um aparte, que ajude a compreender o mundo em que vivia: ao intervalo – os filmes tinham um intervalo -, eu saí alvoroçado, entusiasmado, certo de assistir a um espectáculo superior. Certo? Desconfiado – porque tudo aquilo ia contra a mentalidade da cidade, contra os princípios que tentavam impor-me – de solidariedade. Qual apoio, qual solidariedade! Os comentários eram negativos e de troça. Tive de arranjar força para não desistir da minha admiração. E fui começando a aprender a ter opiniões próprias, a arriscar-me a não compartilhar as dos outros. Gide, ao longo da vida, reforçaria a minha ideia de que o “consenso” é, sempre, perigoso e redutor – e, as mais das vezes, é consentimento e desistência, medo e covardia.
Na Praça Velha, a Lareira dos Pobres
 
No Cine-Teatro ri, com Vasco Santana, no Daqui fala o morto e ouviosmonólogos intermináveis de Alves da Cunha, numa peça triste. Lembro-me de um casal, na primeira fila, desconhecido e deslocado, provavelmente vindos de fora, ela de vestido preto e colar de pérolas, ele de fato azul escuro e gravata vermelha de seda, que se levantavam para aplaudir freneticamente cada tirada. E olhavam à roda, com ar de desafio, exibindo a sua superioridade intelectual perante uma plateia pasmada e incrédula. Continuo a vê-los, obsoletos, como me pareciam Alves da Cunha e a peça. Impressionaram-me – apesar do anacronismo a que já me habituara e ao qual reagia como podia. Devo reconhecer, no entanto, que a programação do Cine-Teatro não era nada má. O proprietário, Júlio Xavier, distinguia-se, aliás, naquele mundo insípido (e, no entanto, cheio de subterrâneos onde fervia a vida), pelo carácter original e irreverente.
Não quero ser injusto: nem o meio era insípido, nem a solidariedade faltava. Não encontraria, com certeza, um adolescente rebelde o sal e o apoio junto daqueles que ali mandavam. Esses viviam num círculo interdito aos jovens ainda jovens: ainda capazes de contestarem a vida surda, parda, resignada. Mas encontrava-os – e encontrei-os – em camaradas da mesma luta, do mesmo inconformismo. E valeu a pena – agradeço ao monte perdido da sagrada Beira o combate a que me obrigou e quanto me deu.
 
Manuel Poppe, Memórias, José Régio e Outros Escritores
publicado por Elisabete às 21:31
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4 comentários:
De Cristina a 28 de Outubro de 2008 às 00:18
Ah minha querida que doce presente me destes!
Que delícia chegar aqui e encontrar esta história.
Como sempre ficou ótima.
Um abraço bem apertado,e muitos beijos no coração.
De Elisabete a 29 de Outubro de 2008 às 16:54
Querida Cris,

Hei-de falar mais da terra do seu avô.
Obrigada por ter gostado.
Beijinhos... muitos!
De Ibel a 30 de Outubro de 2008 às 22:35
Muito tem viajado, querida amiga! Que bom!
E que belo presente para a nossa querida Cris!
Um dia destes vou para esses lados.Tenho uma grande amiga da Guarda a viver na Bracara Augusta, mas a família continua toda lá.
Parabéns por este texto do Manuel Poppe.
BEIJINHOS!!!!!
De Elisabete a 31 de Outubro de 2008 às 12:42
Querida Ibel,
Estive apenas uns dias no Piódão e em Manteigas, aproveitando para ver algumas coisas pelos arredores.
Gosto da Guarda e o Manuel Poppe tem-me fornecido material precioso sobre a cidade.
Beijinhos

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