Sexta-feira, 27 de Abril de 2007

HOJE: o desencanto?

Atrevo-me a transcrever as crónicas (a propósito do aniversário do 25 de Abril) de dois escritores que admiro e com quem estou, muitas vezes, de acordo. São eles, Manuel António Pina e Baptista-Bastos. Como diz o primeiro, mesmo que seja só pelas horas de esperança e de deslumbramento que o 25 de Abril nos proporcionou, valeu a pena ter vivido.

Alguma coisa ficou que, sem dúvida não queremos perder.

No entanto, como diz o segundo, a "via portuguesa para o socialismo" não se concretizou porque ninguém sabia o que era o socialismo, especialmente os socialistas.

Pelo que tem estado sempre à vista nestes 33 anos, e em especial nos dias que correm, os que se dizem "socialistas" continuam a não saber. Mais: são iguais aos que não se dizem. Eu até já nem estou à espera que eles sejam socialistas... Desejo apenas uma diferença: que o objectivo final das suas políticas seja o homem e não a economia. Que a obsessão do deficit seja substituída pela preocupação maior de proporcionar, a todos os portugueses, uma vida digna. E quando digo digna, não me refiro apenas a um nível de vida mais elevado. O que eu quero é "qualidade de vida" com tudo o que este conceito implica.

Como Pessoa, penso que Portugal ainda está por cumprir. 

  

 

 

 

       

     

 

 

 

 

 

 

 

 

   O que é nosso

 

Há 33 anos, de súbito, o mundo abriu-se, e o horror, que parecia irremediável e sempiterno, desmoronou-se de um momento para o outro sob os nossos olhos, deixando à vista o tamanho, desmesurado como nunca, da esperança. Foram breves e deslumbradas horas, e talvez tenha valido a pena ter vivido só por elas. Nunca, como nesse dia, estivemos tão próximos uns dos outros nem fomos tão frágeis e tão vulneráveis. Como sonâmbulos, tacteávamos convulsamente o mundo e a vida à nossa volta (o mesmo mundo de sempre, inesperadamente límpido e primeiro!), tropeçando nos nossos próprios sentimentos, sem percebermos se estávamos dentro se fora de nós. E só tínhamos uma palavra desconhecida para o que os nossos olhos viam e o nosso coração sobressaltadamente experimentava "liberdade". Murmurávamo-la para nós mesmos e gritávamo-la uns para as outros como quem revela um segredo longo tempo reprimido, descobrindo alvoroçadamente algo novo e espantoso: não tínhamos medo. Depressa, porém, a dúvida e a suspeita saíram da sombra e se interpuseram entre nós, apropriando-se da única coisa que tínhamos, uma imatura palavra, para no-la vender de novo, devidamente embrulhada e a prestações. 33 anos depois ainda estamos a pagar (e a quem!, e por que preço!) o que é nosso.

Manuel António Pina, in Jornal de Notícias


 

 


 

Na cartografia das nossas revoluções comemora-se, hoje, uma vitória imprescindível: a da liberdade; e uma derrota vital: a da esperança. A ambivalência deste círculo revela muito das históricas frustrações que nos perseguem. Tropeçamos, desde 1383, no paradoxo de iniciar processos excepcionais de alteração social, criamos um pouco de desassossego e, depois, estatelamo-nos nos escombros dos desaires.

Há trinta e três anos fomos movidos pela fé. Tudo estava ao nosso alcance e íamos subir, esfuziantes, a escada de Jacob porque o céu era ali mesmo. As religiões criam uma espécie de promessa eloquente de bem-aventurança. Como se pedaços do paraíso tombassem brandamente na terra. O espectáculo, iluminado pelo fervor da candura, alvoroçou-nos e sacudiu a mansuetude dos nossos hábitos. Vivemos, então, a miopia de dominar os destinos colectivos, qualquer que seja o turvo significado da entusiasmada expressão. As coisas iam pertencer-nos, a pátria seria feliz e confiada; haviam sido removidos o abandono, a indecisão, a dúvida; as ruas e os seus clamores líricos constituíam autobiografias transpostas.

O festim durou pouco. A singularidade da "via portuguesa para o socialismo" representava-se na modesta circunstância de ninguém saber, verdadeiramente, o que era o "socialismo" - em especial os "socialistas". Todos os partidos inscreveram nos seus textos sacrossantos a extraordinária palavra. A qual, inesperadamente também, desapareceu dos teores, das doutrinas, dos projectos e das convicções de quase todos os partidos.

A pátria voltou a ser o revés de si própria. Refém de um passado engravatado, cabisbaixo e deprimido, Portugal "portugalizou-se", e os portugueses deixaram de significar para tornarem a ser insignificantes. Roger Vailland, grande escritor francês, carimbou a expressão num romance, La Loi, no qual a personagem principal, um patriarca italiano, Don Cesare, viajado e culto, discreteia acerca de um país cujo povo se "desinteressara". Um país onde os escritores não escreviam, os jornalistas não faziam jornalismo, os homens de negócios viviam dos lucros, os políticos governavam para o estrangeiro. Lia-se: "Ele pensara que a pior das desgraças era a de nascer português." A frase será exagerada; mas contém muito daquilo que muitos de nós pensamos.

"Portugalizar" é uma metáfora feroz e irónica. Todavia, caracteriza a nossa taciturna aceitação ao que consideramos fatalidade. Há trinta e três anos alimentámos um sonho buliçoso, sentimental, ocasional e frágil. O despertar desfez a fábula de que as coisas devem pertencer a quem as ama. Talvez sejamos culpados, porque não soubemos defender com paixão o que, apaixonadamente, desejávamos nos pertencesse.

Baptista-Bastos, in Diário de Notícias

publicado por Elisabete às 11:43
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