Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

A FORÇA DA RAZÃO

 

 

Nunca se esqueça de que se encontra sempre algo de muito especial em fazer uma coisa que tem algum significado. O que tira a genica a um homem é fazer um trabalho que não conduz a nada. O nosso é lento, mas é todo feito numa direcção.

 

John Steinbeck, Batalha Incerta

 

 

 

Acabo de ler estas palavras. Sem qualquer esforço, regressou à minha consciência a luta que, hoje, travam os Professores.
Quando comecei a dar aulas, estava cheia de ilusões. Achava que o meu trabalho, completando o de outros, perseguia o objectivo mais nobre de todos: acender as luzes da razão nas cabecinhas dos jovens do meu país e contribuir, assim, para a sua formação como cidadãos e indivíduos capazes de gerir conscientemente a sua vida e de contribuir para o desenvolvimento do país, conquistando assim um pouco mais de felicidade.
À medida que foram surgindo reformas e mais reformas do Ensino; papéis e mais papéis para preencher (o trabalho lectivo foi sufocado por trabalho burocrático, de secretaria); estatísticas forçadas de sucesso; indisciplina e desrespeito pela função docente; teorias, sem pés nem cabeça, fabricadas por iluminados que não gostam de dar aulas; etc., etc., etc., comecei a sentir que o meu trabalho não conduzia a nada, ou a muito pouco, o que fazia de mim uma profissional insatisfeita, desiludida, infeliz. A ausência de significado tira a genica
Tentei, sempre e de todas as formas ao meu dispor, contribuir para alterar este estado de coisas. Infelizmente, a cada mudança de Ministro, as coisas quase sempre pioravam. Os interesses instalados à volta Ministério são demasiado fortes: muita gente que, não querendo voltar às Escolas, tem de “mostrar serviço” e, então, é só produzir despachos e decretos, teorias (muitas vezes, mal copiadas do estrangeiro) e experiências que não são devidamente avaliadas e que, portanto, não servem para nada. Melhor, servem para contribuir para a ruína.
Cheguei a um ponto em que só tinha um objectivo: a reforma. É essa a situação em que me encontro e nunca me arrependi de me vir embora, apesar de muito penalizada pelas medidas das últimas ministras.
Hoje, face à luta travada nas Escolas, tenho pena de não me encontrar no activo. Pela primeira vez, vejo os Professores unidos e determinados a fazer ouvir a sua voz. Uma voz que exige condições de trabalho e o reconhecimento da dignidade da função docente, mas também uma Escola Pública de qualidade.

Estou orgulhosa dos meus colegas e solidária com a sua luta. Tudo faz sentido quando se caminha na mesma direcção. Não há nada capaz de vencer quem se mantém unido na certeza de ter razão.

 

 

publicado por Elisabete às 12:09
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2 comentários:
De IBEL a 15 de Janeiro de 2009 às 19:41
Obrigada pela solidariedade incondicional e pelo belo texto.
Beijo+inho
De Elisabete a 15 de Janeiro de 2009 às 21:16
Eu é que tenho de agradecer a tua (vossa) coragem e sacrifício. Por mim, pelo meu neto(s), pelo país. Como já tenho dito, esta luta é, também, um acto de patriotismo.
Beijinho

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