Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

DUNAS

 

Mais do que destas casas e destas ruas, sou das dunas de Fão. (Fão é como chamo carinhosamente àquela extensão de areias e dunas altas – agora a praia, tão longe já da que foi minha, tem outro nome, um nome de hotel, ou de agência funerária, ou de bordel, um nome destinado a atrair gente, dinheiro, lixo: Ofir.) Quando, há muitos anos, o Eduardo, o Ernesto e eu deixámos as bicicletas no posto da Guarda-Fiscal e, passadas duas ou três barracas aonde os lavradores de Fonte Boa arrecadavam o sargaço, entrámos, ainda manhã cedo, pelas dunas desertas, e os pés já sem sandálias corriam na alegria da brisa ligeira, senti que pisava pela primeira vez a terra prometida. Durante alguns anos, a minha pátria foi estas dunas, o mar dos meus primeiros poemas foi este mar, e a eternidade, que Shakespeare diz ter morada nos lábios de António e Cleópatra, brincava comigo naquelas areias, corria à solta naquelas vagas.
 
*
O mar de Lisboa, melhor, as praias da Caparica ou da linha do Estoril, onde no verão aos domingos ia com a minha mãe, e mais tarde com amigos, nada têm de comum com as dunas de Fão. Nenhum Tamariz, nenhuma Granja levava ao deserto, e era exactamente ao deserto que levavam as dunas de Fão. Ali o espaço não fora ainda ferido; era por assim dizer um espaço sagrado, como todo o lugar onde nos sentimos inteiros.
 
*
Depois do primeiro banho, numa corrida em pêlo para a água, regressávamos às dunas, aos livros. Estendidos na areia, era sobre o nosso corpo que a manhã se levantava. Ao longe avistava-se às vezes um lavrador a espalhar o sargaço; mais raramente, e mais longe ainda, um barco. Só as gaivotas e os juncos e os cardos eram próximos e conviventes. E uns pequenos lírios brancos, que devem ter um nome latino, e uma família, e um país de origem, como o limoeiro, a alfazema.
 
*
 A Ilíada, Song of Myself, À la Recherche du Temps Perdu, Os Pescadores, A Morte em Veneza, são leituras desses dias – como esquecê-las? Também às dunas de Fão, como imagem sua mais delicada, ficaram ligados no meu espírito quatro versos de Pessoa, que são dos raros a manifestar a inquietante presença do filho de Afrodite:
 
Seus altos seios parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.
 
*
Sei doutras dunas, em Miramar, em Moledo, em Mira, no Guincho, que têm, em certas manhãs soalheiras e limpas de inverno (mas só de inverno), um ar íntimo de pátio meridional; mas agora chegou a vez de falar dessa aspereza salgada e tão avassaladora que poderia rebentar-nos as represas do próprio coração; é altura de falar das dunas de Narbonne (onde chegámos cansados da viagem numa tarde de Junho), com a sua vegetação cerradinha e rasteira, rompendo duma terra magra, abrasada e despovoada. A solidão descia pelas falésias, enquanto o rechinar das cigarras subia a prumo, tornando-se mais nítido à medida que a luz esmorece, antes de se despenhar, para morrer, no mais latino de todos os mares. Agora, toda a música da terra era em nós que se refugiava. “A vida seria insuportável sem momentos assim”, diz a Maria Agustina. Depois ficámos ambos para ali sentados, as mãos indolentes sobre os joelhos, sem barcos para contemplar porque nenhum passava, sem palavras para dizer porque nos sabíamos irmãos do silêncio, na esperança de que viesse a noite e nos tornasse de pedra.
 

Fão: também por lá andava, em 5 de Maio de 1973

 

*
Além de Fão e de Narbonne, há outras dunas de que vou falar com alguma nostalgia. Eu contava encontrá-las na costa do Pacífico (nunca dei por elas na Grécia, nem na Riviera, nem no Cantábrico), mas foi onde as não esperava que me surgiram: nas praias de Long Island, não muito longe de Manhattan, sobre esse oceano para o qual temos quase por condição o rosto virado e o coração aberto. Era outra vez inverno, era outra vez uma dessas manhãs lisas de lucidez total, e era pela mão do Alexis que ali chegava. Nunca ouvira falar destas praias, talvez porque raramente são procuradas em Novembro ou Dezembro, e só nesta época elas são assim: imensas, lavadas e desertas. A sua beleza começa antes de avistarmos o mar, a estrada vai-se metendo por terrenos arenosos donde emergem uns pinheiros crespos e atarracados. Aos poucos, as dunas começam a aparecer na sua glória, e depois o mar, que se afastara para deixar à vista um areal sem fim, pejado dessas coisas frágeis que, por toda a parte, as marés dão à costa. E longe, mas vindo ao nosso encontro, a silhueta duma mulher esgalgada enrolada num cachecol e um galgo mais elegante ainda à sua frente, caminham na orla da água e na minha memória. Aos nomes de Melville e de Whitman, cujas casas vinha de visitar em Arrowhead e Camden, à imagem de felicidade que são os esquilos por toda a parte onde, na América, há duas árvores com folha e uns metros de relvado, quero juntar o nome destas dunas, destas areias de Jones Beach, em Long Island, não muito longe de Nova York. Mas não esqueçam que só no inverno é possível vê-las estalar de beleza, como romãs maduras.
 
*
Vêm de longe, as cabras, dessa infância na Beira Baixa, e é sempre uma alegria voltar a encontrá-las. Ainda recentemente descobri uma, branca como alva de sacerdote, nos campos de Rio Tinto. De vez em quando vou vê-la, e embora não dê ainda pelo nome, chamo-lhe Maltesa, em homenagem a outra mais antiga e mais bárbara, que sustentou com as tetas macias os meus primeiros anos. Estas que vemos por aqui nas dunas de Merzouga, em pleno Sahara, são negras. Negras e magras, as tetas pouco fartas, ou mesmo secas. Secas são também as carnes do pastor que, embora tivesse dado abrigo ao sol escaldante e às estrelas glaciais, nunca conseguiu para si o apaziguador olhar das cabras, que apascentava desde garoto. Em redor não se vê folha verde, contudo um oásis breve, um simples dedo de sombra, insinua-se no ar.
A cabra é um animal solar, e nem todas são negras, como sabeis.
 
*
Há cidades que nos cativam pelo odor, Marraquexe é uma delas: cheira a cavalos e a hortelã. E depois, o ocre rosado dos muros, a respiração do deserto entrando com a aurora por janelas abertas sobre palmares, a que se junta a sinuosa voz do muezim, ajudam, e muito, à sedução. Se usássemos de liberdade nas nossas opções, talvez escolhesse esta cidade para viver, e esta gente sem metafísica nem hesitações para convívio, pesando por certo na escolha essa voz nupcial, que ressoa ainda nos meus ouvidos, que me chama para continuarmos a viagem interrompida, que de Meknés me levou a Beni Mellal e daqui ao limiar do mais fascinante dos labirintos, onde iria ser perseguido pelas palavras que Saint-John Perse ouviu a um monge mongol: “O homem nasce em casa, mas morre no deserto…”
 

Eugénio de Andrade, À Sombra da Memória

publicado por Elisabete às 15:38
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2 comentários:
De anvgp4qIbel a 6 de Fevereiro de 2009 às 22:11
Ontem escrevi um enorme comentário sobre este texto e, quando o submeti, evapoprou-se.Li-o com as lágrimas corridas, caminhando por essas dunas de Fão onde me lavei nas águas fascinantes desse areal imenso e onde vivi os momentos mais fantásticos de paixão de toda a minha vida.
Andei pelas dunas e pelo mar de fão e encontrei uma ninfa feliz à borda da água, em busca das suas ilhas encantadas.
Onde esse tempo? onde nós? Onde essa pureza inicial ?
De Elisabete a 7 de Fevereiro de 2009 às 16:43
Tudo isso está ainda dentro de nós, só que lhe pusemos tanta coisa inútil por cima que já não conseguimos enxergar.
Beijo

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