Domingo, 21 de Junho de 2009

Com a acuidade do milhafre

  

Coimbra, 17 de Julho de 1953 – Tento compreender o meu caso, explicar a razão dos escrúpulos que me atormentam. Talvez porque me defendo mal e sou incapaz de transformar em oiro o latão das falências, necessito de fazer as coisas bem, o melhor que posso, de levar cada acto à bigorna do absoluto. Vejo os meus defeitos e erros com uma acuidade de milhafre que a mil metros de altura descobre uma minhoca num lameiro. Não importa que os outros ignorem isso, ou que eu, aparentemente, me contradiga. Por dentro é assim. Corrói-me uma tal crueldade de auto-análise, uma severidade tão desumana de juiz honrado em causa própria, que me condeno antes dos crimes, logo ao dealbar da consciência deles, embora depois não resista à tentação de os cometer. Por isso, numa precaução instintiva, espremo as poucas virtudes que possuo até elas me secarem nas mãos. Que não seja por falta de esforço e de sinceridade que a obra falhe e o homem deixe de ter dignidade. Infelizmente, a silha acaba por se marcar no corpo e na alma. E há qualquer coisa de penitente perpétuo na minha fisionomia quotidiana. Caminho ao encontro da vida não como o namorado que se dirige ao encontro da noiva, mas como um funcionário que vai prestar contas ao patrão.
Devo acrescentar, porém, que esse sentido da responsabilidade não esmoreceu nem azedou a força instintiva da esperança que sempre senti latejar no ânimo e no coração. Creio até que, pelo contrário, foi inabalável a confiança no futuro que, pondo-me na obrigação moral de o ajudar a construir, carregou de pânico os meus passos e de sombras o meu rosto. Como os méritos são poucos e os tempos não auxiliam, a pobre areia do meu concurso parece-me irrisória. Deponho-a, contudo, conscienciosamente, aos pés do edifício a erguer, e a tristeza com que o faço, que pode parecer apenas desespero, é, sobretudo, amargura por não ser capaz de mais.
 
Miguel Torga, Diário VII
 

 

publicado por Elisabete às 17:56
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De IBEL a 22 de Junho de 2009 às 11:16

ORFEU REBELDE - MIGUEL TORGA
Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que ha' gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

Miguel Torga
De Elisabete a 23 de Junho de 2009 às 11:43
A Torga responde-se com... Torga.
Adorei.
Beijinhos

Comentar post

*mais sobre mim

*links

*posts recentes

* QUINTA DE BONJÓIA [PORTO]

* POMPEIA: A vida petrifica...

* JOSÉ CARDOSO PIRES: UM ES...

* PELA VIA FRANCÍGENA, NO T...

* CHILE: O mundo dos índios...

* NUNCA MAIS LHE CHAMEM DRÁ...

* ARTUR SEMEDO: Actor, galã...

* COMO SE PÔDE DERRUBAR O I...

* DÉCIMO MANDAMENTO

* CRISE TRAZ CUNHALISMO DE ...

* O CÓDIGO SECRETO DA CAPEL...

* O VOO MELANCÓLICO DO MELR...

* Explicação do "Impeachmen...

* CAMILLE CLAUDEL

* OS PALACETES TORNAM-SE ÚT...

* Tudo o que queria era um ...

* 1974 - DIVÓRCIO JÁ! Exigi...

* Continuará a Terra a gira...

* SETEMBRO

* SEM CORAÇÃO

* A ESPIRAL REPRESSIVA

* 1967 FÉ DE PEDRA

* NUNCA MAIS CAIU

* Alfama é Linda

* Por entre os pingos da ch...

* DO OUTRO LADO DA ESTRADA

* Não há vacina para a memó...

* Um pobre e precioso segre...

* Nada para mim. Portugal.

* Seis anos de divinos torm...

*arquivos

* Maio 2017

* Abril 2017

* Março 2017

* Fevereiro 2017

* Janeiro 2017

* Setembro 2016

* Junho 2016

* Abril 2016

* Novembro 2015

* Setembro 2015

* Agosto 2015

* Julho 2015

* Junho 2015

* Maio 2015

* Março 2015

* Fevereiro 2015

* Janeiro 2015

* Dezembro 2014

* Fevereiro 2014

* Janeiro 2014

* Dezembro 2013

* Novembro 2013

* Setembro 2013

* Agosto 2013

* Julho 2013

* Junho 2013

* Maio 2013

* Abril 2013

* Março 2013

* Fevereiro 2013

* Janeiro 2013

* Dezembro 2012

* Novembro 2012

* Outubro 2012

* Setembro 2012

* Agosto 2012

* Julho 2012

* Maio 2012

* Abril 2012

* Março 2012

* Janeiro 2012

* Dezembro 2011

* Novembro 2011

* Outubro 2011

* Setembro 2011

* Julho 2011

* Maio 2011

* Abril 2011

* Março 2011

* Fevereiro 2011

* Janeiro 2011

* Dezembro 2010

* Novembro 2010

* Outubro 2010

* Agosto 2010

* Julho 2010

* Junho 2010

* Maio 2010

* Abril 2010

* Março 2010

* Fevereiro 2010

* Janeiro 2010

* Dezembro 2009

* Novembro 2009

* Outubro 2009

* Setembro 2009

* Julho 2009

* Junho 2009

* Maio 2009

* Abril 2009

* Março 2009

* Fevereiro 2009

* Janeiro 2009

* Dezembro 2008

* Novembro 2008

* Outubro 2008

* Setembro 2008

* Agosto 2008

* Julho 2008

* Junho 2008

* Maio 2008

* Abril 2008

* Março 2008

* Fevereiro 2008

* Janeiro 2008

* Dezembro 2007

* Novembro 2007

* Outubro 2007

* Setembro 2007

* Agosto 2007

* Julho 2007

* Junho 2007

* Maio 2007

* Abril 2007

* Março 2007

* Fevereiro 2007

*pesquisar