Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

A Liberdade de Escolher…

 

Desde o armistício, já não era possível “ficar à margem”, isso equivaleria afinal de contas a tomar partido e a tomá-lo contra os seus: agora, portanto, combatia. Quando a fase actual terminar, quando se lutar de rosto descoberto, ele entrará no jogo, comprometer-se-á, empenhar-se-á.

 

- E se tudo falha? – perguntou de súbito.

- O quê? O desembarque?

- Não. O desembarque é apenas um pormenor. Mas a Revolução, a edificação do socialismo, tal como o queremos.

- Ora! – replica Rodrigo na risota -, sempre poderemos “morrer a combater”…

- Penso muitas vezes nisso. Nos momentos de depressão, lamento não me ter alistado nas Brigadas Internacionais… não ter sido morto, como Lorca, a lutar contra Franco… Parece-me que era o meu destino e que o gorei. Fiquei altamente impressionado no dia em que M.L. me contou ter visto, à beira de uma estrada, à saída de Madrid, o cadáver de um miliciano, um jovem intelectual, atingido por uma bala em cheio na testa, quando ia, lançando granadas, ao encontro dos tanques de Franco: este miliciano, dizia M.L., era tão espantosamente parecido comigo, que ele se surpreender imenso ao encontrar-se vivo em Paris. A guerra de Espanha não foi viciada pelas ambiguidades e os compromissos desta; não foi como em 40: cada um soube imediatamente de que lado devia pôr-se; foi a mais “pura” das guerras actuais, aquela onde era mais leve morrer… Mas supõe que, vencida a Alemanha, tudo recomeça como dantes: estabelece-se um regime democrático, mas os trusts gastam o dinheiro suficiente para nos derrotar nas eleições e a alta burguesia continua a controlar tanto os governos de esquerda como os da direita, a URSS tem demasiado trabalho com a reconstrução do socialismo no seu próprio território para se ocupar de nós, reedifica a barragem do Dnieprostroi, etc.; os operários franceses estão subalimentados há tempo demais para serem capazes de um desses despertares de que fala o cardeal de Retz, dão-lhes mais oito dias de férias pagas para ficarem sossegados e tornarem a fazer economias na mira de comprar uma horrenda casinhota nos arredores (perto dum caminho-de-ferro, para terem a certeza de ser bombardeados na próxima guerra); as vedetas de Hollywood reconquistam as parangonas dos grandes jornais, os que ganham algum dinheiro voltam a passar os fins-de-semana em Deauville, etc. A Revolução é adiada para a próxima guerra que se seguirá à próxima grande crise cíclica do sistema capitalista…

[…]

 

Esperavam da “vitória” não sabiam bem que libertação, que possibilidade de se dedicarem completamente, de darem toda a medida de si mesmas. Isto misturava-se confusamente com a esperança de ir para Paris, que representa aos olhos dos provincianos, agora como no tempo de Balzac, o sítio onde os talentos de qualquer espécie podem fazer carreira. Marat, ao mesmo tempo que as ouvia, temia por elas e por todos aqueles e aquelas que esperavam demasiado da “vitória”.

[…]

 

- Sim, porque a vida, não é verdade? na sua essência, no que ela tem de intrinsecamente angustiante, pode ser definida como a liberdade de escolher

 

Roger Vailland, Cabra-Cega
publicado por Elisabete às 21:35
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