Segunda-feira, 3 de Abril de 2017

CHILE: O mundo dos índios Mapuche

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Fotógrafo ambulante: Temuco [Chile, 1972]

Os mapuches -Gente da Terra-, são depositários duma civilização antiga que persistiu até aos nossos dias. Povo orgulhoso da sua história de luta pela sobrevivência da sua cultura, vivia nos vales férteis do sul do Chile, ao tempo da chegada dos espanhóis. O conflito entre eles durou cerca de 300 anos, tendo ficado conhecido por Guerra de Arauco, nome por que era designada, pelos espanhóis, a terra que habitavam.

Separados de outras civilizações da América do Sul, os mapuches viviam da caça e das colheitas, organizados em clãs, tendo esta dispersão em pequenos grupos separados tornado mais difícil a conquista espanhola e o seu total domínio nos territórios a Sul do rio Biobío.

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Mercado indígena [Temuco, 1973]

Conquistada a independência do Chile, os mapuches foram sobrevivendo como cultura, constituindo actualmente 4% da população chilena. Vivem, sobretudo, na região de Temuco, no Sul do Chile, se bem que, na procura de uma melhor situação económica, alguns se tenham integrado nas grandes cidades.

As imagens incluídas neste portefólio – seleccionado de uma exposição que esteve patente na Fundação Mário Soares, em Lisboa, e no Fórum Romeu Correia, em Almada – referem-se ao início dos Anos 70, ao tempo do Governo da Unidade Popular, tempo em que o orgulho dum povo foi encorajado e respeitado, e processo no qual o autor destas linhas e destas imagens entusiasticamente participou. Nestas fotografias, agora recuperadas, presenciámos reuniões e celebrações próprias deste povo. Encontros de homens sábios que debatem o seu destino, preparação de rituais das “machi” e simples gestos do quotidiano.

As suas “machi” – curandeiras espirituais de uma comunidade – são portadoras duma sabedoria antiga, que através das gerações foi passando de velhas a novas o conhecimento das ervas medicinais, mas não se limitam à cura de doenças físicas, sabem afastar o mal, prever o tempo e até interpretar os sonhos.

Os rituais de cura e outros cerimoniais mágicos estão vedados a estranhos. Possível foi apenas fotografar momentos de convívio com a “machi” e a sua família e os vários objectos sagrados: entre estes, máscaras, o “rehue” – escadas de sete degraus de onde a “machi” executava os seus rituais, os “metahue”, cântaros também sagrados. Entre o mero convívio nos campos e a ida aos mercados, onde tentavam vender os seus produtos, olhámos o rosto de um povo e o que nele habitava de antigo e perdurara através do tempo.

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 Rehue de sete degraus onde os “mochi” (curandeiras) executavam os rituais sagrados [Nueva Imperial, Temuco, 1972]

1970-1973

A minha visão do Chile

Foram pouco mais de três anos em que tanta coisa mudou, mas, ao mesmo tempo, foi tudo tão rápido! Em Setembro de 1970, Salvador Allende e a Unidade Popular venciam as eleições chilenas com um programa político – as 40 medidas que incluíam desde a nacionalização do cobre, principal riqueza e fonte de divisas, até ao fornecimento gratuito de leite a todas as crianças. O programa da Unidade Popular expressava as aspirações da maioria do país e reunia as suas energias mais profundas para o cumprimento dos objectivos revolucionários. A coluna central dessa marcha histórica era a classe operária; ao seu redor, camponeses pobres e médios, pequenos e médios empresários, largos sectores dos funcionários públicos e dos intelectuais.

o mundos dos índios mapuche4.jpg Machi (curandeira) na sua botica [Nueva Imperial, Temuco, 1971]

A plataforma política abrangia marxistas e cristãos, maçons e agnósticos, reformistas e revolucionários, organizados em sete partidos e movimentos.

Na crista dessa vasta movimentação, o Presidente Allende, médico, político e revolucionário, ídolo dos trabalhadores que se recordavam do juramento que fizera, ainda muito jovem, de dedicar a vida às lutas sociais.

Em 1970, o Chile começa a procurar a sua identidade, e nessa procura tudo aquilo que estava no fundo, escondido ou sufocado, vem à superfície, gera tensão: o número de desempregados que já não é escondido, manipulado; saber se há desnutrição, que há falta de leite para as crianças nas escolas e nos hospitais. Que nos campos reinam os caciques latifundiários e que, com a exploração do cobre por estrangeiros, se vai a riqueza do país. De repente, a nação dá-se conta do que existe para além “barrio alto”, de belas vivendas e ruas ajardinadas, e descobre o outro lado da face. Até os índios Mapuche, conhecidos como “Gente da Terra”, que resistiram e sobreviveram aos conquistadores espanhóis, saem dos campos do Sul para entrarem na cidade contemporânea, sob o espanto dos “caballeros” da retórica que só os conheciam de fotografias, moldura de uma chilenidade que escondia as costas partidas dos índios nas sementeiras. E a roupagem nacional estoura com a chegada dessas súbitas multidões, cujos passos ressoam no país dos terramotos.

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Mapuches reunidos numa escola [Nueva Imperial, Temuco, 1972] 

De agora em diante, mudará a linguagem, os gestos, as aspirações, a rua será tumulto e a palavra “señor” dará lugar a “compañero”. O primeiro ano foi uma festa e descobrimento. Descobrir que há um motor, uma pulsação desconhecida, um sonho, dentro de mim, de ti, e descobrimo-nos juntos nesta alameda, cantando canções de Violeta Parra. 

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 Família Mapuche [Nueva Imperial, Temuco, 1972]

Para que o Chile deixe de ser o “centro da injustiça” e para que as aspirações dos vales, da Patagónia, dos salitreiros, cristalizem uma nova identidade nacional. O programa da UP passa a ser cumprido desde o primeiro dia: nacionalização do cobre, da Banca, dos grandes monopólios privados e a reforma agrária.

Mas a burguesia, perplexa num primeiro momento, começa a reagir, fortificada no outro Chile, cujas fronteiras começam na Praça de Itália e terminam no sopé da cordilheira. Ela utilizará todos os processos para juntar ódio e medo. Cobrará indevidamente os seus dólares e não se deterá até que o projecto de transformação social seja letra-morta, queimado pelas bombas.

o mundos dos índios mapuche 8 001.jpgIndígenas a cavalo [Temuco, 1972]

Três anos pouco dizem do Chile popular: foi tudo muito intenso, profundo, um outro sentimento do tempo, dias condensando anos, décadas.

Nas avenidas, multidões indescritíveis davam apoio ao Companheiro Presidente: tempo em que as lutas de classe podiam ser fotografadas quotidianamente nas esquinas da cidade.

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 Índios reunidos para tratar de assuntos da terra, à qual lhes voltara a ser reconhecido direito [[Nueva Imperial, Temuco, 1972]

Mas os ricos, os mais abastados de sempre, não podem aceitar a ofensa dos “rotos”, dos chilenos de segunda e, dispondo de maioria no Parlamento, dos Tribunais de Justiça e de Contas, dos dólares da CIA e das multinacionais, mobilizam a maioria das camadas médias, cujo padrão de vida era comparável ao dos países industrializados, para assaltar o Governo com o ódio mais espantoso. Nesse cerco tudo foi permitido: bombas, assassinatos, açambarcamentos, greves, manipulação da informação; “juntem raiva, chilenos” era o lema da burguesia sublevada que, acusando o Governo de violar a Constituição, instigava os militares ao golpe.

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 À fogueira [Aldeia de Osorno, 1973]

A 11 de Setembro de 1973, por fim, uma junta militar toma o poder, culminando a sedição iniciada logo após o anúncio da vitória eleitoral de Allende, três anos antes. O objectivo era derrubar o Governo e vencer a Unidade Popular, reinstalando um regime de fachada democrática, mas autoritário por dentro, favorável aos monopólios privados, nacionais e estrangeiros.

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Jovem com máscara tradicional [Colon, Nueva Imperial, 1972]

Contudo, o que desmoronou sob os foguetes da aviação não foram apenas as paredes do palácio – com a morte de Allende e dos defensores que lá estavam – nem a Unidade Popular; com os escombros ruíram as instituições democráticas levantadas ao longo de século e meio de vida republicana.

E, no lugar de La Moneda, surge – para o espanto de muitos do “barrio alto” – um imenso campo de concentração por onde irão passar milhares de chilenos.

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 Colares em prata para rituais [Nueva Imperial, Temuco, 1972]

Estas fotografias devolvem-nos, aqui e agora, o Chile daqueles anos que, tão profundamente vividos, não deixarão de existir. A História faz uma pausa.

 

ARMINDO CARDOSO (autor de fotos e textos) trabalhou,

no Governo de Unidade Popular de Salvador Allende,

entre 1970 e o golpe militar de Pinochet de 11 de Setembro de 1973.

Perseguido pelos golpistas, saiu do Chile sob protecção da

Embaixada Francesa e conseguiu salvar muito do seu espólio fotográfico.

 

Publicado no COURRIER INTERNACIONAL, Dezembro 2013

 

 

 

publicado por Elisabete às 11:08
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