Domingo, 8 de Agosto de 2010

Estranho tempo este!

O autor é um fantasma

 

...ou a morte do artista, enquanto demiurgo. Alguém desabafava na velha Hollywood: “Os actores foram à vida! Já não são precisos, porque os efeitos especiais os substituíram...!” E falava certo: o actor, hoje, é um comparsa, mais um “efeito”, parte acessória dum grande puzzle: a sua importância não ultrapassa a do pássaro fantástico ou da caverna tenebrosa, constituintes da história projectada no ecrã. Ninguém lhe pede inteligência, nem sensibilidade, nem talento para encarnar personagens variadas e emprestar-lhes complexidade –pedem-lhe aspecto. E mesmo esse depende da aparência em voga. O filme não passa de um produto, na grande praça da sociedade consumidora. Auscultado o mercado, o “produto” e, consequentemente, o perfil do comediante, ajusta-se às preferências, impositivas, tal qual, em televisão, as audiências.

 Tudo isso se estende a todas as mercadorias –e ao livro, também. O livro não é uma criação individual: é um objecto que se quer atraente o bastante para comercializar. Os grandes grupos editoriais funcionam à maneira de qualquer outra empresa cuja meta desconhece o Espírito e aponta ao lucro. Dizem especialistas que o computador é capaz de sonhar: de combinar dados e oferecer textos. Ora aí está! Os editores podem prescindir dos autores: metem no computador os dados necessários e a máquina trata de combiná-los, e sai “coisa” capaz de satisfazer apetites. Escolhidos e calculados os fundamentos, o computador organiza-os de modo a garantir o efeito. Depois, aluga-se um nome; ou vai-se mais longe: usa-se o nome de ninguém, sendo o autor um nado-morto: inexistente.

 

Manuel Poppe, O Outro Lado

Jornal de Notícias [08.Agosto.2010]

 

publicado por Elisabete às 23:18
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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Ver para lá do imediato

 

 

O problema do clima  
 
1....é, antes de mais, o problema do clima social em que vivemos. Nós todos somos responsáveis? Certamente. Talvez, acima de tudo, por havermos permitido que se formasse e desenvolvesse -e de que maneira se desenvolve!- esta sociedade mercantil e consumista- Ela é só isso e mais nada: produzir, colocar no mercado, fazer com que o produto se venda. O produto é mais importante do que o homem. O crime em curso -a destruição da Terra- está intimamente ligado ao novo Bezerro de Ouro: o produto. Abraçado a ele, gira o lucro, ferve a concorrência, alarga-se a globalização da monopolização. Eis as palavras, os chavões (mercado, concorrência, produto, lucro) que me repugnam (revoltam) e matraqueiam o cidadão comum e o convertem num suicida inconsciente, saqueador do ambiente. O cidadão comum alimenta o mercado –e alimenta-o convicto de comprar a felicidade. Para o conseguir, aceita a nova escravatura: o emprego a prazo, o horário sufocante, os gritos do capataz que lhe exige que... produza. De homem não tem nada; de neo-objecto tem tudo. Alguma vez, para arejar o mundo, quem nos explora sacrificará algum negócio?
 
2.Andrea Zanzotto, poeta italiano, amante do espaço livre e da paz dos arredores de Treviso, ouvido acerca de Copenhaga e das habituais cimeiras que tratam o ambiente, comentou: “Hoje todos parecem dominados pelo fascínio do auto-engano”. E acertou em cheio: o modo do cidadão sobreviver ao massacre quotidiano é iludir-se, convencer-se de que a vida começa e acaba no produto: carro, telemóvel, internet, resorts, sexo fast food. Enterra-se a si próprio, esquece dignidade, individualidade, alma.
 
Manuel Poppe, O Outro Lado

Jornal de Notícias [13.Dezembro.2009]

publicado por Elisabete às 16:35
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Domingo, 13 de Setembro de 2009

Deixar em mãos alheias...

 

Recusar Velhos do Restelo

1.Em 1949, quando a voz tinha de ser só uma, certo grande poeta, José Régio, professor em Portalegre, arriscando-se às consequências, ergueu a sua, a denunciar a ditadura e o medo. Havia eleições para a presidência da República e Norton de Matos era o candidato da oposição. Régio apoiou-o. Num caderno da Seara Nova, acerca do medo, escreveu: “inimigo da alma: porque é o medo que tolhe até os impulsos mais generosos, faz desistir até das aspirações mais justas, afoga até o grito mais espontâneo, corrompe e assombra até a mais clara visão da vida.” O medo de quê? De nos arriscarmos e reclamarmos a justiça social? 60 anos passados, o virar de costas à realidade, que é, sobretudo, virarmos as costas a nós próprios e desrespeitar-nos, continua na raiz da resignação portuguesa. Evitamos o risco: o incómodo de nos manifestarmos, e tendemos a ir atrás dos outros indiferentes.

2.Indiferentes a quê? Ao futuro. Encolhemos os ombros (encolhemos a alma) e pensamos: que venha ele, futuro, como vier! E das duas uma: ou nos chegamos aos que parecem garantir a paz podre ou abstemo-nos de nos manifestar. Em eleições, isso descamba no seguinte: ou preferimos aqueles que se mostram dispostos a não melhorar nada (e, afinal, continuam a tirar partido do que está mal ou péssimo) e elegemos os ultraconservadores em vez dos que prometem caminhos renovados, mais justos – ou, razoando para esconder o medo, pura e simplesmente, nos abstemos de votar. Lá está o medo, “inimigo da alma”. Lá está o homem a rebaixar-se. Lá está o homem a não querer saber que é responsável pela sociedade em que vive – e a deixar a própria vida por mãos alheias.
 
Manuel Poppe, O Outro Lado
Jornal de Notícias [13.Setembroo.2009]
publicado por Elisabete às 19:13
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Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Clint Eastwood sem idade...

 

Gran Torino

1. Não custa nada apontar as fraquezas de “Gran Torino”. O que talvez custe é suportar a denúncia de Walt Kowalski, o personagem central de “Gran Torino”. Clint Eastwood realizou um filme esquemático, com figuras-tipo e com enredo previsível, por isso, superficial? Em muitas passagens sentimentalonas, a chegar-se ao melodrama? Fugiu-lhe a mão? Patinou? Já disse quanto tinha a dizer? Ver “Gran Torino” desde esse ângulo significa perder a oportunidade de reconsiderar o nosso quotidiano doente, em vias de apodrecimento (ou já apodrecido?). Clint Eastwood quis que o filme fosse directo, essencial e suficientemente dramático para que abalasse, emocionasse e prendesse os espectadores. Julgo que o conseguiu. Oxalá as lágrimas, que as houve de certeza, não tenham sido de crocodilo.
 
2. A história de Walt Kowalski é a de um homem ferido. Cresceu numa sociedade desumana e absurda que espezinhou, dentro dele, os sentimentos e o atirou para o egoísmo, a recusa do outro e a solidão. Cresceu na sociedade do mercado, da prepotência, da indiferença e do racismo. Kowalski apercebeu-se do logro e isolou-se. Endureceu. Agora, tenta recusar a vida, a bater-lhe à porta: os vizinhos, uma família de imigrantes asiáticos. Deve considerá-los inferiores e recusar o que lhe confiam: aquilo que foi perdendo: humanidade, amizade. O resto, o leitor há-de sabê-lo, quando for ver “Gran Torino”. Mas acrescento o seguinte: Kowalski reconsidera o que o rodeia: um mundo vazio, assente em nada. Compara-o com o que lhe oferecem e decide aceitar e sacrificar tudo. No sacrifício, recupera o sentido da vida. A escolha devolve-lhe a alma.
 
Manuel Poppe, O Outro Lado
Jornal de Notícias [22.Março.2009]
publicado por Elisabete às 11:36
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Quarta-feira, 11 de Março de 2009

SACRIFÍCIO E ABNEGAÇÃO

 

1.Convidaram-me para falar de livros, numa escola secundária. De literatura e de teatro, espelhos de vida, que reflectem a luz de mil e uma estradas, interrogam, sugerem caminhos. Durante mais de noventa minutos, tive à minha volta jovens cujo futuro se joga em cada instante. Até naquela simples conversa. Porque nenhuma conversa é pacífica, inconsequente, quando sincera: sempre alguma coisa fica. A turma reunia estudantes de ciências naturais, economia, matemática e uma aluna de artes. Companheiros, afinal, de um mesmo combate: a conquista da personalidade própria, que se esboça, experimenta, tacteia, afirma. Difícil era agarrar duas coisas: a confiança e a atenção. Havia, neles, porém, curiosidade e vontade de encontrar respostas. Não lhas dei eu: discutimo-las juntos, em boa fé. Os professores fazem isso todos os dias, com três blocos de noventa minutos seguidos. Apaixonante mas arrasador.         
 
2.E concluí que o problema da avaliação dos professores esconde (e ao poder serve que esconda) outros não menos graves: carência de pessoal docente, que assoberba de trabalho os que ainda existem (e resistem); acumulação de funções administrativas, que lhes não cabem (matrículas, pautas); impossibilidade cronométrica (falta de tempo) de se actualizarem. Leitor: o professor não é um funcionário público igual aos mais. Para lá do ensino, é psicólogo, assistente social, empregado de secretaria. Como conseguiu a professora que me convidou obter os resultados que obteve: alunos informados, disponíveis, interessados? Certamente, graças ao sacrifício e à abnegação, timbre dos verdadeiros mestres.    
 
Manuel Poppe, O Outro Lado
Jornal de Notícias [8.Março.2009]
publicado por Elisabete às 22:25
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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Paulo Moreira

Exposição I Walk the Line, no Teatro Municipal da Guarda

 

   

 

 

OS OLHOS PERPLEXOS
 
No tempo do espectáculo superficial e inconsequente, Paulo Moreira fixa o frenesi do circo. Grava os cómicos, no movimento gelado. Porque a lúcida arte de Moreira surpreende a mímica dos mudos e combina-a, admiravelmente: amarra-a ao que, logo à partida, os amarrara –a vacuidade.
 
O universo deste artista é um universo de almas mortas ou de figuras adormecidas? De inocentes sacrificados? Correm, à beira do desastre, tentam escapar-lhe. Autómatos ou mártires? Fugitivos? Suicidas? Qual a razão, qual o caminho?
 
Monta-se a grande festa da aflição. Mas, quando se esconde o medo, acontece, sempre, a poesia. Os órfãos são amáveis. A ironia impiedosa e fraterna de Paulo Moreira (as contradições) desmascara-nos. Eis-nos todos, no teatro da vida. Devolve-nos as imagens da comédia.
 
Ou as imagens do Paraíso Perdido? Abraçadas na solidão, as personagens do pintor reclamam felicidade. Esbracejam e, às vezes, muitas, magoam-se e não conseguem ir além de onde estavam. Vibram, no entanto. Os desorientados consumistas é assim que se consumem. Dançam entre canibais e autofagia –que é o mal dos desesperados.
 
A candura dos actores desse drama quotidiano engendra a perplexidade. Aquelas pessoas, desassossegadas criaturas de Deus, tentam sobreviver e, afinal, entregam-se ao abismo de onde nunca se volta? Aceitam entrar na barca em festa de Caronte ou na Disneylândia, ansiosos e cansados de si?
 
Manuel Poppe
publicado por Elisabete às 17:49
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Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

HERBERTO HELDER

 

 

 

 Sobre um poema

 

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
 
                                                        Herberto Hélder
                                             

*****

 
 O Artesão Herberto
 
1. “O trabalhador é digno do seu alimento”; e, noutro lugar: “aquele que toma o arado e olha para trás não serve para o reino de Deus”. Isto disse o Menino Jesus quando cresceu e vem, por esta ordem, nos evangelhos de Mateus e Lucas. “Será que Deus não consegue compreender a linguagem do artesão?”, interroga, porém, Herberto Helder, no primeiro dos poemas que acompanham “Lapinha do Caseiro” (Assírio & Alvim). O belo livro reproduz obras de um artista encantador, Francisco Ferreira, madeirense do século XIX, cuja criatividade o manteve miraculosamente vivo. Nasceu em 1848 e faleceu no ano de 1931. A obra legada salvou-o da infausta morte: ele regressa e impõe-se, graças aos barros pintados, que Ricardo Jardim fotografou. “...A substância de um homem e de uma estrela; a mesma./ O poder de criar a canção, isso”, continua Helder e aponta “a terra que se mistura com o sangue sob as unhas”. Discursa sobre os estupendos trabalhos de Francisco Ferreira, afinal, seu bisavô. E, alertados pelo poeta, sucede levarem-nos, luminosos e frágeis, à interrogação: Deus ouve-nos, de facto? Vê-nos? Interessamo-lo, sequer? 
 
2. “... crua artesania, e ouço na rádio Bach, meu Deus, e Haendel (...) o mundo é um caos sumptuoso –este é o segredo:/ música, e eu estou bêbado e é tão amargo o tempo,/ tão irrevocável” –sempre Helder, o artesão genial, que procura, como o bisavô, outra maneira. Acompanho a sua poesia, desde “O Amor em Visita” (1958); de “Os Passos em Volta” (1963), onde li: “Precisamos é de ser simples; partir, beber, arranjar companheiros na Malásia, na Turquia, na China.” O que fez o poeta, na esperança de surpreender os deuses.
 
Manuel Poppe, O Outro Lado

 Jornal de Notícias [11.Jan.2009]

  

publicado por Elisabete às 22:52
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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

OS SEM FUTURO

1. O homem não é peça de máquina. É muitíssimo mais do que isso. Não gira, ao sabor de caprichos de capatazes. O homem, em suma, é um homem! Com inteligência, sensibilidade e afectividade próprias. Não é feito de betão ou ferro forjado. Sonha, deseja, ambiciona. Tem uma alminha dentro. Quer dizer: o homem é humano. Não o atraem as Artes e a Filosofia, o estudo da lição clássica (grega, latina), por mero movimento de evasão –assim ao modo dos que se encharcam de imbecilidades telenovelísticas ou vivem (sofrem) as aventuras das estrelas do jet set. O homem não é um produto nem se destina a assegurar -novo escravo- rendimentos alheios. Em Cambridge, um estudante de economia pode estudar filosofia. Em França, os ministérios da cultura e do ensino superior criaram uma bolsa de 100 000 euros, destinada a premiar trabalhos sobre ciências humanas e sociais. Obama promove a ecologia. Para que se saiba, uma vez que, entre nós, tosquiaram a Cultura e as humanidades –indecentemente.

 
2. Atentemos na Grécia e na impaciência da juventude grega. Não se trata de excesso juvenil ou de imitação de Maio de 68; trata-se de revolta contra a desumanidade. Maio de 68 era teoria, pressentimento; Dezembro de 2009 é experiência sofrida. Manifestam-se os condenados ao desemprego e ao não-futuro. Não suportam uma sociedade e um sistema corruptos –rejeitam a imoralidade do neoliberalismo. O fenómeno, mais tarde ou mais cedo, vai alargar-se. Em 2009? Os jovens perceberam que a competitividade imposta é isca envenenada: ensina canibalismo. Na vida, o único critério justo é descobrirmos a nossa vocação e realizá-la, livremente, em diálogo criador, com os mais.
 
Manuel Poppe, O Outro Lado
Jornal de Notícias [28Dez2008]
publicado por Elisabete às 22:06
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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

Reflectindo os nossos actos...

 

A Morte das Baleias
 
1. Esta semana, impressionou-me, especialmente, a notícia transmitida por televisões (sempre atentas à desgraça espectacular o bastante para garantir audiências), de mais onze baleias que apareceram mortas, numa praia australiana. Ninguém conhece a razão. Velhice, doença, suicídio? Não há resposta certa. É um fenómeno cada vez mais frequente. Desta vez, não a primeira, os cetáceos escolheram morrer numa praia, à vista dos homens. Se tivessem desaparecido nas profundezas do mar, num lugar desabitado, nenhures, discretamente – eu e milhões de outras pessoas nunca teríamos dado por isso. E a verdade é que me senti envolvido, nos sentimos envolvidos, eu e milhões de outras pessoas. As baleias tinham-nos procurado, na agonia. Atiravam-nos à cara a sua morte. E os especialistas não excluem a hipótese de as haver levado àquele gesto a revolta contra quem, dia a dia, destrói o mar e o torna inabitável: nós, os homens: os predadores, os gananciosos, os desumanos.
 
2. Pergunta o jovem inquieto, angustiado, perplexo – ainda não anquilosado e formatado: “como pode ser o homem desumano?” A pergunta repete a das baleias (irmãs no sofrimento) e tem resposta: a sociedade desumaniza o homem. A sociedade do lucro, do consumo, do egoísmo, da indiferença, que torce o pepino e faz do adolescente mais uma rosca da grande máquina neo-capitalista. Ao jovem, eu diria, ainda: “Hoje, nas aulas de formação de professores os formadores explicam que os alunos são matéria bruta que se mete na máquina capaz de os transformar em produto rentável”. Especulo? Minto? Talvez não. O mal das baleias é o nosso: a nostalgia da liberdade livre.
 
Manuel Poppe, O Outro Lado
Jornal de Notícias [30.Nov.2008]

 

publicado por Elisabete às 20:37
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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

GUARDA: imagens de hoje... memórias de outrora

 

Na sagrada Beira
 
A Guarda contaria então (finais de 40, princípios de 50) uns dez mil habitantes: o liceu, o seminário, o colégio dos padres (o Rocha), o quartel, o sanatório, o tribunal. Ultra-conservadora,fechada, atenta à correcção dos desvios, à rotina cinzenta, caiu-me em cima e apertou-me. “De pequenino se torce o pepino”, diz o povo. Talvez; mas há pepinos que custam a torcer e há-os os que nunca se deixam torcer… Na Guarda daquele tempo, a cultura limitava-se à Biblioteca Municipal e à papelaria do Sr. Casimiro. Graças a ele, tive acesso, sem que ninguém me aconselhasse, às primeiras leituras de Thomas Mann, Proust, Steinbeck, Gogol, Somerset Maugham, Romain Rolland; e de André Gide, para escândalo dos meus professores do Rocha. Li-os nas saudosas colecções “Miniatura” e “Os Livros das Três Abelhas”, nos “Livre de Poche”.
O “escândalo” de privar com Gide, que não chegou a dar-se, merece um aparte simpático: ia eu a sair da papelaria do Casimiro, todo ufano, numa tarde do Inverno de 1953, com La Symphonie Pastorale, debaixo do braço, na capa uma linda Michèle Morgan, e esbarro com o meu professor de francês, o Padre Manuel Cabral, que arregalou os olhos para o livro. Sorriu, embaraçado, e não comentou; nem ali, nem na escola, apesar da Opera omnia Andreae Gide constar, desde 24 de Maio de 1952, (decisão muito recente…), do tenebroso Index librorum prohibitorum do Vaticano. Devo-lhe essa cumplicidade – e devo-a, com certeza, à sua inteligência e sensibilidade, qualidades raras no tal colégio.
Museu
 
Na Biblioteca Municipal, uma outra figura singular, extraordinária naquele meio estreito, o Padre Pôpo, o director, ajudou-me, deixando-me levar para casa os autores que eu queria, não cuidando da minha idade – descuido precioso -, fechando os olhos e, até mesmo, estimulando a minha curiosidade e a minha sede de entrar no mundo mítico da literatura. Quanto me apoiou a sua compreensão! Li Tolstoi, Feodor Sologub (A Loucura de Peredonov, na Inquérito), Raúl Brandão, Alexandre Dumas (A Rainha Margot, que me pai me escolheu, para ajudar a passar a convalescença de uma pequena intervenção cirúrgica), os primeiros romances de Dostoievski.
Anos mais tarde, reformado o Padre Pôpo, nomearam um ex-universitário coimbrão, da fina flor ultramontana, arranjadinho, esterilizado, de risca ao lado e óculos, esticadinho, cor de mortalha, que me proibiu de levar para casa O Contrato Social,de Rousseau. Onde terá ido parar esse idiota?
Casas da Praça Luís Vaz de Camões
(também Largo da Sé ou Praça Velha)
 
Havia, ainda, o Cine-Teatro. Ali pude ver, entre outras obras, Europa 51, de Rossellini, Luzes da Ribalta, de Chaplin, O Terceiro Homem, de Carol Reed, La Carrozza d’Oro, de Jean Renoir, no meio dos dramalhões com a bela e doce Maria Schell, que punha em pranto a plateia e me encheu os primeiros sonhos da adolescência, ou dos melodramas com o galã de serviço, Amadeo Nazzari a apostrofar a filha apaixonada: “Vatene donna, questa casa non è più la tua!” (a primeira frase que aprendi a dizer em italiano).
A obra-prima de Renoir merece, também, um aparte, que ajude a compreender o mundo em que vivia: ao intervalo – os filmes tinham um intervalo -, eu saí alvoroçado, entusiasmado, certo de assistir a um espectáculo superior. Certo? Desconfiado – porque tudo aquilo ia contra a mentalidade da cidade, contra os princípios que tentavam impor-me – de solidariedade. Qual apoio, qual solidariedade! Os comentários eram negativos e de troça. Tive de arranjar força para não desistir da minha admiração. E fui começando a aprender a ter opiniões próprias, a arriscar-me a não compartilhar as dos outros. Gide, ao longo da vida, reforçaria a minha ideia de que o “consenso” é, sempre, perigoso e redutor – e, as mais das vezes, é consentimento e desistência, medo e covardia.
Na Praça Velha, a Lareira dos Pobres
 
No Cine-Teatro ri, com Vasco Santana, no Daqui fala o morto e ouviosmonólogos intermináveis de Alves da Cunha, numa peça triste. Lembro-me de um casal, na primeira fila, desconhecido e deslocado, provavelmente vindos de fora, ela de vestido preto e colar de pérolas, ele de fato azul escuro e gravata vermelha de seda, que se levantavam para aplaudir freneticamente cada tirada. E olhavam à roda, com ar de desafio, exibindo a sua superioridade intelectual perante uma plateia pasmada e incrédula. Continuo a vê-los, obsoletos, como me pareciam Alves da Cunha e a peça. Impressionaram-me – apesar do anacronismo a que já me habituara e ao qual reagia como podia. Devo reconhecer, no entanto, que a programação do Cine-Teatro não era nada má. O proprietário, Júlio Xavier, distinguia-se, aliás, naquele mundo insípido (e, no entanto, cheio de subterrâneos onde fervia a vida), pelo carácter original e irreverente.
Não quero ser injusto: nem o meio era insípido, nem a solidariedade faltava. Não encontraria, com certeza, um adolescente rebelde o sal e o apoio junto daqueles que ali mandavam. Esses viviam num círculo interdito aos jovens ainda jovens: ainda capazes de contestarem a vida surda, parda, resignada. Mas encontrava-os – e encontrei-os – em camaradas da mesma luta, do mesmo inconformismo. E valeu a pena – agradeço ao monte perdido da sagrada Beira o combate a que me obrigou e quanto me deu.
 
Manuel Poppe, Memórias, José Régio e Outros Escritores
publicado por Elisabete às 21:31
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Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

Um bom exemplo do... interior desprezado

 

 

GUARDA CIDADE VIVA
 
1. O aparecimento do livro “Para sempre... talvez não”, escrito por seis raparigas, ex-finalistas do ensino secundário, em terra do Interior desconsiderado, representa sinal positivo e honra a cidade. Contra esquecimento, indiferença e egoísmo que, menosprezando parte essencial de um país, cavam a sepultura desse país, levantam-se vozes, não exactamente no deserto. Alguém as ouviu: a novelinha foi editada (pelo TMG, casa milagreira). E o gesto do TMG e o desafio das autoras merecem muita admiração e muito respeito. Simbolizam a vitória sobre os adversários e o desgosto de julgarmos que combatemos moinhos. Não é assim. Nunca andamos sozinhos: o que se atinge decorre de diálogo. As acções consequentes recuperam e transmitem a confiança na vida.
 
2. O valor do livro está na sinceridade, coragem e qualidade literária das seis estudantes. Creio haver percebido o talento de escritoras de mérito. É obra importante, que urge ler. Conheço a Guarda há cinco décadas e agrada-me verificar o seu avanço e a fidelidade à autenticidade de raiz. “Para sempre... talvez não” seria, certamente, impossível, nos anos 50, 60. O gelo anterior ao 25 de Abril cortou-se – e que nada volte atrás reclamam as autoras, descrevendo a sociedade actual e confessando as próprias dúvidas. Eu não duvido: nem delas, nem da cidade. Há páginas emocionantes; há poesia e inteligência superiores. Que mais podemos querer? Eu sei: que o sonho puro dessas jovens não se perca nem cesse o movimento de repensar a vida, a que nos obrigaram.
 
Manuel Poppe, in "O Outro Lado"
Jornal de Notícias, 28.09.2008
publicado por Elisabete às 15:48
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Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Palavras que façam pensar

 

 
Ainda antes de Cristo, na Grécia, Eurípides aconselhou: “Fala se tens palavras mais fortes do que o silêncio, ou então guarda silêncio”. Numa sociedade cada vez mais calada e indiferente, impera perguntar o que foi feito destas palavras fortes como as muralhas, que deixavam quem as ouvia a pensar. Em emoção, em fúria, apaixonados, em desacordo ou em acordo. Mas a pensar.
O mundo calou-se e não foi para meditar. O mundo silenciou a voz porque o que é importante custa dizer. Calar-se é sempre mais fácil. Afinal, já criticava Cervantes, esse amante das palavras: “Contra quem cala não castigo nem resposta.
Falar é uma questão de coragem. E essa, já se sabe, vai escasseando. Os Que Falam, falam sempre dos mesmos perigos: a crise do petróleo, a crise sistémica global, a “especial” crise na banca internacional. Ninguém fala da generalizada crise da coragem. A coragem humana e a coragem cívica, declaradamente em risco de extinção.
A ausência das palavras “desculpa”, “obrigada”, “parabéns pelo teu trabalho” ou “amo-te” não parece preocupar ninguém. E quando Os Que Falam se reúnem, ninguém manda parar as armas. Ninguém manda matar a fome e não os homens. Ninguém assume que o mundo se está a suicidar em morte lenta e que esse é o legado que vamos deixar.
Os discursos do Governo são ora ocos, ora incoerentes. Num dia mandam-nos marcar mais golos e ser competitivos, que a vida moderna a isso obriga; no dia seguinte mandam os pais acompanharem os filhos, para não delegarem nos professores um papel que só à família pertence. Mandam-nos acelerar e mandam-nos manter um estilo de vida saudável. Porque o país precisa de nós. E quando se cansam de tanta incoerência, simplesmente não comentam ou voltam às “velhas” crises, essas de que se pode falar porque falar delas é quase o mesmo que não dizer nada.
A importância destas crises é, evidentemente, indiscutível. Mas a gravidade que o silêncio está a assumir numa sociedade em que ninguém fala com os vizinhos com os quais partilham o mesmo prédio há anos, e só uma minoria dos clientes responde ao “bom dia” dos comerciantes (e vice-versa) é igualmente assustadora.
Quando penso nisto lembro-me sempre das descrições que os vizinhos fazem do serial killer, depois de descobertos os crimes. Ele parece sempre, aos que estão habituados a vê-lo, ao longe, boa pessoa, pacato, respeitável. “Quase não metia conversa com ninguém”, descrevem muitas vezes. O problema é esse mesmo. É que, como dizia Heinrich Heine, o poeta alemão, “não há nada mais silencioso do que um canhão carregado”.
 
Martha Mendes [estudante da Universidade de Coimbra]
Jornal de Notícias [7.Set.2008]
 
 
Este texto, escrito pela jovem Martha, mereceu a atenção de Manuel Poppe que lhe dedicou a sua crónica de domingo e que reproduzo a seguir. As suas palavras, mais do que dizem, sugerem o mal-estar latente na sociedade actual. Uma sociedade em que as pessoas se refugiam no silêncio interior dos muros que erguem em redor de si, por medo, por hipocrisia, por comodismo, por interesses vários. Daí a necessidade de palavras fortes, corajosas, também elas como muralhas, que os derrubem, dando passagem à fraternidade e ao amor.
Obrigada, Martha! Enquanto houver jovens críticos e comprometidos, haverá esperança.
 
O silêncio e a morte
 
1. Não podia deixar passar em claro o notável, reconfortante, oportuno texto de Martha Mendes, aluna da Universidade de Coimbra, que li, neste jornal, há oito dias, na excelente secção “Universidade Pública”, onde têm aparecido páginas muito boas. Desde logo, arriscando oratória barata, direi que Martha Mendes honra a escola cujas tradições humanísticas e culturais contam séculos; e honra, também, a sua geração, porque não nasceu sozinha, entalada no tempo da mentira e do cinismo, jovem descontente e, ainda, indignada (apesar do sorriso perverso dos “adultos” arregimentados, eternos vendilhões do templo e mercadores da própria alma). “Numa sociedade cada vez mais calada e indiferente, impera perguntar o que foi feito dessas palavras fortes como as muralhas, deixavam quem as ouvia pensar”, escreve Martha. A resposta dá-a de seguida: “Falar é uma questão de coragem”. É isso que falta? Com certeza; mas como encontrá-la numa sociedade que vem transformando o homem em objecto castrado, anulado - silenciado?
 
2. Quando os escritores falavam (queriam ir além do confusionismo, do malabarismo formal e do piroso suave), José Marmelo e Silva deu-nos duas novelas excepcionais: “Adolescente Agrilhoado” e “Anquilose”; antes, Régio lançara, na revista “presença” (disponível em fac-símile, editora Contexto), “A lição inútil ou carta a um juvenil individualista”. Há muitos anos? Os suficientes para que avançasse e se consolidasse o processo de desumanização em curso: a agonia e morte do Homem. A crise está aí (o cancro neoliberalista); e está aí o apaixonado grito de Martha Mendes, que é uma lição. E nenhuma lição é inútil.
 
Manuel Poppe, in O Outro Lado
Jornal de Notícias [14.Set.2008]
 
 
PORQUE PENSAR É PRECISO…
publicado por Elisabete às 15:23
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Domingo, 27 de Julho de 2008

REMAR CONTRA A MARÉ

 

 A marcha do caranguejo
 
1.José Régio publicou, no número 14/15, de “Presença” (há 80 anos!), “A Lição Inútil ou Carta a um Juvenil Individualista”, que o leitor poderá encontrar na preciosa edição fac-similada compacta da revista (Contexto) ou em “Páginas de Doutrina e Crítica da Presença” (Brasília Editora). Convinha relê-la e, especialmente, introduzi-la no programa de leituras dos alunos do ensino secundário, cuja pobreza e desconchavo ofendem o bom gosto. O texto de Régio é actual e interveniente: obriga quem lê a pensar e a impor-se a coragem da liberdade individual – e exige, aos outros, que a deixem afirmar-se. Destaco – entre tantas importantes – a seguinte frase: “ser de determinada maneira pessoal e fatal – qualquer coisa que se seja!” Isto é: lutar e descobrir e assumir cada um o seu caminho. Descobrir-se, em diálogo franco e amigo, com os mestres que o ajudarão a escolher-se, oferecendo-lhe ou proporcionando-lhe o mais vasto leque de opções. De ambas as partes, a alegria e a confiança. Fazer-se, pois, o jovem um homem verdadeiro: livre, consciente e habilitado a sempre alargar o aprendido.
 
2.Não creio que a lição de Régio interesse àqueles que, entre nós, decidem da “educação”. Durante o ano escolar que termina, o leque de opções dos alunos reduziu-se: descartaram-se as humanidades e simplificou-se e facilitou-se o que se deveria aprofundar. E aos mestres, espicaçados, rebaixados, desconsiderados, feriu-se, mortalmente, não apenas a auto-estima mas também o amor à profissão. As consequências desastrosas estão à vista dos que percebem o cinismo (e a perniciosidade) de certas “estatísticas”. Em suma: a mentalidade a andar para trás…
 
Manuel Poppe,
 Jornal de Notícias [27.07.2008]
publicado por Elisabete às 22:24
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