Uma cadela enquanto espera
A minha cadela nada sabe de metafísica,
nem dos mistérios que a palavra encerra
enquanto corre atrás dos pássaros e das sombras
dos arbustos projectados sobre a terra batida.
A minha cadela escolhe os recantos
mais frescos do soalho para dormir
e sabe que os dias se repetem iguais e previsíveis,
sensível às ausências e à rudeza das vozes.
Com ela, a casa parece maior
Porque há um fio de afecto a ligar os quartos,
A unir os gestos, a adoçar os chamamentos.
A minha cadela nada sabe de livros
nem dos mistérios que os povoam,
ignorando até os títulos daqueles que roeu
enquanto mudava a dentição.
A minha cadela foi precedida por mortes
de outras cadelas que a doença não poupou
e que eu chorei, como quem chora sangue do seu sangue.
Sei que espera por mim à porta, todos os dias,
focinho rente ao chão, porque sabe
que eu não falto, mesmo que me atrase.
Amanhã, vou ler-lhe o que escrevi a seu respeito
e sei que ela chorará de comoção, embora
nada saiba de poesia e muito menos de metafísica.
Há dias em que o cão, neste caso a cadela,
é o melhor amigo da poesia, porque sabe que ela
tem o tamanho do seu coração quando me espera.
José Jorge Letria, in Produto Interno Lírico
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