E se os seus companheiros dos dias se coibiam de observações abstractas que pudessem despertar a ingenuidade das opiniões de Zoltan, também ele se abstinha de confessar a secreta, embora leve, simpatia que lhe causavam aqueles jovens capazes de rebentar o mundo por um ideal. Comparava-os com o seu próprio filho Cleonardo, de olhos sem chama, gestos sem propósito, vida sem alcance. E recordava os seus tempos de caixeiro, o entusiasmo com as notícias das barricadas de França, o zelo das reuniões secretas, defendidas por senhas e contra-senhas, as caminhadas à noite, rostos escondidos por estranhos chapéus de abas largas, rebuçados em capas de empréstimo, embalando os devaneios de um devir à medida de todos os caixeiros e artesãos do mundo. Aos seus companheiros de então, a vida ou os abatera, ou os traíra. A alguns, a intratável ceifeira já os tinha convidado para longe. Mas as sugestões de liberdade, igualdade e fraternidade haviam persistido no fundo das almas, como palhetas de ouro, ocultas por águas lamosas. A ideia da pena de morte era para Zoltan mais um lance sinistro do velho poder das trevas, sem cuja lembrança podia bem passar.
Mário de Carvalho, O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel

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