Desobedecer e resistir – Aristides de Sousa Mendes
Relembrar o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial, fruto da imposição de uma ideologia, assente no terror e no racismo, e cujas consequências – sofrimento, destruição, violência e morte – dinheiro algum pagará, é uma exigência ética, sobretudo num momento em que se amplia a voz dos que tentam branquear o sucedido, designando-o por “criação de mitos”.
O mentor do nazismo, Adolfo Hitler (1889-1945), não foi figura indiferente a Fernando Pessoa (1888-1935), que, denunciando o seu carácter e a sua forma de actuar, determinante na sua ascensão ao poder, sobre ele escreveu: “Hitler, depois de se ter apoiado nas três Grandes Lojas cristãs da Prússia, procedeu segundo o seu admirável costume ariano de morder a mão que lhe dera de comer”. Perspicaz na sua análise crítica, descreveu ainda Pessoa, acentuando a sua intemporalidade, um outro esbirro nazi, Hermann Goering, adepto alienado da “supremacia ariana” e incondicional voz do dono: “[...] aos Goerings diz-se sempre que sim [...]“.
Felizmente haverá sempre também quem ouse dizer “Não!”, rejeitando o medo e abdicando da sua tranquilidade e do seu bem-estar quotidianos, privilegiando assim a sua consciência e “o dever de elementar humanidade” perante a aflição e a dor dos outros. Foi o que aconteceu com o cônsul de Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, de Novembro de 1939 a finais de Junho de 1940, antes, pois, da decisão final de extermínio massivo dos judeus (Holocausto), a partir de 1941.
O exemplo de Aristides de Sousa Mendes repousa no seu acto de desobediência e de resistência, imperdoáveis à luz da estafada e esfarrapada justificação do papel do funcionário público, a quem se exige que se dispa da sua humanidade e cumpra ordens, mesmo que estas colidam com a natural compaixão pelos outros seres humanos em situações de sofrimento que, aliás, poderiam ser vividas por qualquer um de nós. O cinismo dos argumentos repete-se no tempo: “Está mal, mude-se!”, e nesse sentido vem o relatório do conde de Tovar no processo disciplinar instaurado a Sousa Mendes, então com “55 anos de idade e 30 anos de carreira”: ” [...] se na consciência do Arguido se deram de facto tão repetidos conflitos de deveres [o de salvar toda aquela gente, e o seu dever de funcionário que o obrigava a não conceder vistos] seria natural que [tivesse procurado] induzir o Ministério a conceder-lhe uma transferência para um posto em que não estivesse sujeito a essa tortura moral.” A invocação a Nossa Senhora de Fátima também não faltou, neste caso quando Sousa Mendes, ao recorrer ao cardeal Cerejeira, face à difícil situação em que se encontrava, após castigo de Salazar, recebeu como resposta o conselho de rezar com a família à Senhora de Fátima.
Em reclamação apresentada à Assembleia Nacional, em 1945, Aristides de Sousa Mendes afirma peremptório que, “se [...] não obedeceu à ordem recebida do Ministério, não fez mais do que resistir [...] a uma ordem que infringia manifestamente as garantias individuais, não legalmente suspensas nessa ocasião.” E foi esse acto grandioso que fez dele não um herói, mas um Justo, que o jovem arquitecto norte-americano Eric Moed, pretendeu celebrar com WTF! (Work Towards Fairness) (Trabalho Pela Justiça), obra premiada pela Benetton e cuja inauguração será em Cabanas de Viriato, junto à Casa do Passal, hoje, 20 de Junho, Dia Mundial do Refugiado, exposição que permanecerá aberta ao público durante um mês.
Para quem mantém a ideia de que a desobediência de Aristides de Sousa Mendes é um mau exemplo para todo o funcionário público, lembra-se que a sua assinatura significou a vida para a família Moed, constituída por pais e três filhos, um dos quais Leon Moed, com nove anos de idade à altura, e avô de Eric, que estará igualmente presente em Cabanas de Viriato, bem como para outras tantas famílias cujos descendentes (cerca de 40) estarão igualmente em Cabanas de Viriato hoje, dia 20 de Junho. Na verdade, o exemplo para os funcionários públicos é precisamente esse: há momentos em que é imperioso desobedecer e resistir, não vendendo a alma.
Integra-se esta iniciativa no plano de actividades da Fundação Aristides de Sousa Mendes (FASM), que, contactada pelo jovem arquitecto, de imediato anuiu em apoiar a concretização do seu trabalho, juntamente com a Câmara de Carregal do Sal. O facto de este trabalho se aliar fisicamente à emblemática Casa do Passal, residência do cônsul Sousa Mendes, constituiu mais uma forma de chamar a atenção para a urgência da sua recuperação, o que, finalmente, e depois de insistente trabalho e empenho de todos, com realce para a Direcção Regional da Cultura Centro, poderá ser hoje oficialmente anunciado.
MARIA DO CARMO VIEIRA
Membro da comissão executiva da FASM
(Fundação Aristides de Sousa Mendes)

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