Sexta-feira, 23 de Março de 2007

A ALQUIMIA DA DOR (II)

 

            Por mais longa que seja a vida, ninguém até hoje descobriu a fórmula da felicidade. É inegável que todos temos, em certos momento das nossas vidas, um vislumbre daquilo a que poderemos chamar felicidade. Em contrapartida, o sofrimento, sob as mais variadas formas, está quase sempre presente.

            Então... se não podemos alcançar uma felicidade duradoura, talvez possamos aprender a conviver com o sofrimento, de modo a transformá-lo e a transcendê-lo.

            Não perfilho qualquer religião e defino-me como agnóstica, uma vez que considero inacessível ao entendimento o humano a compreensão de problemas metafísicos como a existência de Deus ou o sentido da vida e do Universo. Tal não significa, no entanto, que não me interesse por esses problemas.

Faço a minha própria busca e devo de confessar que encontrei no Budismo, que considero uma filosofia de vida, uma forma diferente de encarar o sofrimento que, para mim, faz muito sentido e que me tem ajudado a ser um pouco mais feliz.

Tendo como base a obra “A ALQUIMIA DA DOR”, de Tsering Paldrön (Emília Marques Rosa, vice-presidente da União Budista Portuguesa e presidente da AMARA – Associação pela Dignidade na Vida e na Morte), vou tentar fazer um apanhado de conceitos e de procedimentos, que considero da maior importância para compreendermos a inutilidade (e, muitas vezes, da utilidade) do sofrimento.

 

             O primeiro passo, perante o sofrimento, deve ser aceitá-lo. Rejeitá-lo automaticamente, negá-lo como se não existisse, não é a melhor maneira de combatê-lo.  Estaremos mais preparados para enfrentar o sofrimento se, à partida, soubermos que ele existe, que não somos imunes a ele, que é mesmo inevitável em qualquer vida.

              Para gerir e minimizar o sofrimento, temos de conhecer, primeiro, as suas causas.

 

A negação do movimento e da impermanência. É natural querermos tornar eterno aquilo que nos faz feliz ou nos dá prazer. Mas, no Universo, tudo é movimento, transformação e mudança. Por isso, tudo o que nos dá prazer pode causar-nos dor. Nada, nem a felicidade nem o sofrimento, é imutável e para sempre. O sofrimento da impermanência é bem conhecido de todos nós. O mundo não é fiável. Tudo muda e nós não queremos a mudança. O mundo não é fiável porque a sua natureza é movimento – o movimento frenético dos átomos e das partículas. O mundo não é fiável porque os fenómenos não existem da forma como os projectamos. Conscientes da instabilidade do mundo, procuramos desesperadamente a estabilidade. Para tal, apoiamo-nos no trabalho, na vida familiar e até nos pequenos gestos de todos os dias, sejam eles fumar um cigarro, tomar um café ou ler o jornal. Mas, como tudo a que nos agarramos é igualmente instável, qualquer ponto de equilíbrio é sempre de curta duração. Tudo está constantemente a mudar e nós sentimos essa mudança como uma ameaça permanente. A impermanência subtil dos fenómenos é a causa profunda das mudanças visíveis que nos fazem sofrer e também do sentimento de instabilidade e insegurança, que está sempre presente.

 

            Por outro lado, se nada neste Mundo é permanente, todas as situações, por mais terríveis que sejam, têm uma certa duração. Pensar que uma circunstância negativa vai durar muito tempo cria um sofrimento desnecessário. Já não basta sofrer por vivermos uma situação difícil, aumentamos ainda mais o sofrimento com a convicção de que vai durar muito tempo. (Será que o maior prazer do mundo, durando muito tempo, não acabaria por provocar sofrimento?)

            Muitas vezes, basta mudar a nossa perspectiva das coisas para que a situação se altere. Em vez de aceitar que somos vítimas, temos sempre a possibilidade de intervir, nem que seja através duma mudança de atitude interior. Muitas vezes é a nossa própria reacção que impede a situação de evoluir e faz com que se arraste durante muito mais tempo. Ficamos tão obcecados por ela, e presos a uma determinada visão das coisas que, no limite, quase somos nós a cultivá-la.

            Devemos lembrar-nos que nada é definitivo, que não existe o “nunca mais”. O que hoje nos parece muito importante, pode não ter qualquer importância amanhã; a pessoa sem a qual nos parece impossível viver hoje, torna-se-nos indiferente daqui a uns meses a uns anos; cada dia é um novo desafio e um virá em que, de repente, entendemos que a dor passou e podemos, de novo, seguir em frente. Pensando que o mau nunca mais acaba, perdemos a coragem de continuar, deixando-nos vencer pelo desânimo. “Pensar a longo prazo é um acto de auto-sabotagem.”

             Muitas situações difíceis por que passámos acabaram por se tornar momentos de grande crescimento interior ou de oportunidades inesperadas. E, para isso, bastou simplesmente “um novo olhar”, uma perspectiva diferente do problema que antes nos parecia sem solução e destruidor de todas as nossas esperanças.

publicado por Elisabete às 22:43
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