Sexta-feira, 30 de Março de 2007

A NOITE

Recordo aqui o álbum "A Noite" de José Mário Branco, gravado em Abril de 1985, com ternura e lágrima a rolar na face.

 

Versos: a) Antero de Quental (Tentanda Via)

               b) J. M. Branco (A Noite)

               c) J. M. Branco (Cantiga do Leite)

Música: José Mário Branco

 

                               

 

A NOITE

a)

Com que passo tremente se caminha

Em busca dos destinos encobertos!

Como se estão volvendo olhos incertos!

Como esta geração marcha sozinha!

 

Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro!

A noite, longa! o dia, duvidoso!

Vai o giro dos céus bem vagaroso...

Vem longe ainda a praia do futuro...

 

b)

Em tudo que já fomos está o que seremos

No fundo desta noite tocam-se os extremos

E se soubermos ver nos sonhos o processo

Os passos para trás não são um retrocesso

 

A noite é um sinal de tudo quanto fomos

Dos medos, dos mistérios, das fadas e dos gnomos

Da ignorância pura e da ciência irmã

Em que, sendo passado, já somos amanhã

 

A noite é o espaço vago, o tempo sem história

Em que as perguntas nascem dentro da memória

Em tudo que já fomos está o que seremos

Mas cabe perguntar: Foi isto que quisemos?

 

Em tudo que já fomos está o que deixamos

No ventre das marés, nos portos que tocamos

O rumo desvendado, o preço da bagagem

É tudo quanto resta para seguir viagem

 

A noite é parideira da contradição

Que existe em cada sim que nos parece não

Olhando para nós, os grandes dissidentes

No meio da luta entre lemes e correntes

 

Será esta viagem feita pelo vento

Será feita por nós, amor e pensamento

O sonho é sempre sonho se nos enganamos

Mas cabe perguntar: Como é que aqui chegamos? 

 

a)

Vem longe ainda a praia do futuro...

 

É a luta sem glória! é ser vencido

Por uma oculta, súbita fraqueza!

Um desalento, uma íntima trisreza

Que à morte leva... sem se ter vivido!

 

A estrada da vida anda alastrada

De folhas secas e mirradas flores...

Eu não vejo que os céus sejam maiores,

Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!

 

b)

Em tudo que já fomos estão os nossos mortos

E os vivos que ficaram entram nos seus corpos

Na noite do amor, na noite do sinal

Naufrágio de fantasmas na pia baptismal

 

A noite é o impreciso e escuro purgatório

Que alinha as nossas almas no seu dormitório

A culpa dos heróis é serem sempre poucos

Acaso somos mais? ou tão-somente loucos?

 

Temos que descasar a culpa e o prazer

Naquilo que fizemos ou deixamos de fazer

Para reconstruir os corações cativos

Mas cabe perguntar:

 

c)

Mama, meu menino, o leite é como um rio

 

b)

Acaso estamos vivos?

 

a)

Eu não vejo que os céus sejam maiores!

 

Irmãos! Irmãos! amemo-nos! é a hora...

É de noite que os tristes se procuram,

E paz e união entre si juram...

Irmãos! Irmãos! amemo-nos agora!

 

Vós que ledes na noite... vós, profetas...

Que sois os loucos... porque andais na frente...

Que sabeis o segredo da fremente

Palavra que dá fé - ó vós, poetas!

 

b)

Em tudo que já fomos há um sonho antigo

Conversa universal de cada um consigo

São sombras e brinquedos, tudo misturado

E o vago sentimento de nascer culpado

 

c)

Mama, meu menino, o leite é como um rio

 

b)

Será um sonho absurdo este olhar para dentro

E o nosso destino, só, servir de exemplo

Andamos a fugir à frente desta vida

Mas cabe perguntar: Existe uma saída?

 

a)

Irmãos! Irmãos! amemo-nos agora!

É de noite que os tristes se procuram!

 

Sim! que é preciso caminhar avante!

Andar! passar por cima dos soluços!

Como quem numa mina vai de bruços,

Olhar apenas uma luz distante!

 

Irmãos! Irmãos! amemo-nos agora!

É de noite que os tristes se procuram!

 

Heis-de então ver, ao descerrar do escuro,

Bem como o cumprimento de um agouro,

Abrir-se, como grandes portas de ouro,

As imensas auroras do futuro!

 

c)

Mama, meu menino, o leite é como um rio

Que nunca pára de correr

O leite branco

É o remédio santo

Com que tu vais crescer

 

Entre as duas margens quentes e fecundas

Mama, meu menino, sem parar

Rio sem fundo

Que corre devagar

 

Mama o leite, meu passarinho,

Mata a sede sem temor

Este rio é o teu caminho

O cordão do meu amor

 

Mama, meu menino, mais um poucochinho

Que eu páro o tempo só p'ra ti

Seiva de vida

Com que fui enchida

Quando te concebi

 

Um pequeno esforço, mete-te ao caminho

Duas colinas mais além

Asas de estrume

P'ra te dar o lume

Oh meu supremo bem

 

Mama o leite, meu passarinho,

Mata a sede sem temor

Este rio é o teu caminho

O cordão do meu amor

 

a)

Irmãos! Irmãos! amemo-nos agora!

É de noite que os tristes se procuram!

 

======================================

A gravação está fantástica. Vale a pena ouvir.

Luar de Janeiro

publicado por Elisabete às 20:59
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