Quarta-feira, 25 de Abril de 2007

25 de Abril de 1974

        

 

25 DE ABRIL DE 1974

o dia em que todas as portas se abriram

 

 

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.

 

Sophia de Mello Breyner 

 

 

 

 

Considerando que, ao fim de treze anos de luta em terras do Ultramar, o sistema político vigente não conseguiu definir, concreta e objectivamente, uma política ultramarina que conduza à paz entre os Portugueses (...); considerando o crescente clima de total afastamento dos Portugueses em relação às responsabilidades políticas que lhes cabem como cidadãos (...); considerando a necessidade de sanear as instituições, eliminando do nosso sistema de vida todas as ilegitimidades que o abuso do poder tem vindo a legalizar; (...)

O Movimento das Forças Armadas, que acaba de cumprir com êxito a mais importante das missões cívicas dos últimos anos da nossa História, proclama à Nação a sua intenção de levar a cabo, até à sua completa realização, um programa de salvação do país e de restituição ao povo português das liberdades cívicas de que vem sendo privado.

 

Proclamação do MFA, lida às 11 h. de 25 de Abril de 1974,

através da Rádio

 

 

 

 

 

Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher: - O Fafe telefonou de Cascais... Lisboa está cercada por tropas. (...) Outro comunicado na Rádio! Vem depressa. Corro e ouço: “Aqui o posto de comando do Movimento das Forças Armadas, que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!” (...) Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas. Ainda assisti, ainda assisti à morte deste maldito meio século de opressão (...) Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! (...) Antes de morrer, a Televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias. (...)

E o telefone toca, toca, toca... Juntámos as vozes na mesma alegria. Só é pena que os mortos não nos possam também telefonar: o Bento de Jesus Caraça, o Manuel Mendes, o Casais Monteiro, o Redol (...) e outros, muitos, tantos...

Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos. Revolução.

 

José Gomes Ferreira, “Poeta Militante”

 

 

 

     

  

 

EU SOU PORTUGUÊS AQUI

 

Eu sou português

aqui

em terra e fome talhado

feito de barro e carvão

rasgado pelo vento norte

amante certo da morte

no silêncio da agressão.

 

Eu sou português

aqui

mas nascido deste lado

do lado de cá da vida

do lado do sofrimento

da miséria repetida

do pé descalço

do vento

 

Nasci

deste lado da cidade

nesta margem

no meio da tempestade

durante o reino do medo.

Sempre a apostar na viagem

quando os frutos amargavam

e o luar sabia a azedo.

 

Eu sou português

aqui

no teatro mentiroso

mas afinal verdadeiro

na finta fácil

no gozo

no sorriso doloroso

no gingar dum marinheiro.

 

Nasci

deste lado da ternura

do coração esfarrapado

eu sou filho da aventura

da anedota

do acaso

campeão do improviso,

trago as mãos sujas do sangue

que empapa a terra que piso.

Eu sou português

aqui

na brilhantina em que embrulho

do alto da minha esquina

a conversa e a borrasca

eu sou filho do sarilho

no gesto desmesurado

nos cordéis do desenrasca.

 

Nasci

aqui

no mês de Abril

quando esqueci

toda a saudade

e comecei a inventar

em cada gesto

a liberdade.

 

Nasci

aqui

ao pé do mar

duma garganta magoada no cantar.

Eu sou a festa

inacabada

quase ausente

eu sou a briga

a luta antiga

renovada

ainda urgente.

 

Eu sou português

aqui

o português sem mestre

mas com jeito.

Eu sou português

aqui

e trago

o mês de Abril

a voar

dentro do peito.

 

                        José Fanha

 

 

 

 

EU VIM DE LONGE...

 

 

 

Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de Maio começou
Eu olhei para ti
Então  eu entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha noutra mão
E tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

[Refrão]


Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p'ra aqui chegar
Eu vou p'ra longe
P'ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p'ra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos cantei
Foram frutos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei p'ra ti
E então eu entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
E tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi p'ra esta força que apontou.

Quando finalmente eu quis saber
Se ainda vale a pena tanto querer
Eu olhei p'ra ti
E então eu entendi
É um lindo sonho p'ra viver
Quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
Tenho minha vida na outra mão
E tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel prò ajudar

E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar à solta
Que já não hesito
E os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer

 

 

 

       José Mário Branco

 

 

 

 

 

        

Salgueiro Maia                   Zeca Afonso                    Adriano C. de Oliveira 

 

      

Sophia M. Breyner          Vasco Gonçalves          José Cardoso Pires

 

A TODOS VÓS,

e a tantos outros, agradeço o exemplo, a palavra , a acção,os sonhos. A minha vida, sem qualquer de vós, não teria sido a mesma. Teria sido infinitamente mais pobre, mais cinzenta. Obrigada!

 

QUE O ESPÍRITO DE ABRIL VIVA EM NÓS

PARA SEMPRE!!!

 

publicado por Elisabete às 12:21
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