Quinta-feira, 7 de Junho de 2018

ANTERO – ONTEM, HOJE E AMANHÃ

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Lido e admirado por Tolstoi, traduzidos nas principais línguas europeias, Antero de Quental foi um dos poetas portugueses de maior projecção e reconhecimento universal. Fernando Pessoa também não seria o que é se não tivesse recebido o impacto da aproximação profunda da obra de Antero

Por António Valdemar

 

Um ciclo se abre e outro se encerra com a publicação das Odes Modernas. Este primeiro livro de Antero de Quental motivou em várias dimensões, a controvérsia literária - o repúdio do sentimentalismo vazio e retórico; a controvérsia moral - a desmontagem do elogio mútuo e da corrupção intelectual: e, ainda, a controvérsia política - o incitamento à indignação e à revolta para instaurar a República, como regime político e o Socialismo, como estrutura social.

A poesia portuguesa vai ser outra e também outra será a acção política, a abordagem da questão social, a urgência da transformação da mentalidade. É o ímpeto seminal que se vai repercutir no primeiro ultimato para modernizar Portugal; a denúncia das Causas de Decadência dos Povos Peninsulares, apresentada nas Conferências Democráticas do Casino. Antero alertou para os efeitos calamitosos do estabelecimento da Inquisição, para os condicionalismos do catolicismo dogmático e repressivo imposto no Concílio de Trento e para as consequências irreparáveis da expulsão dos Judeus, três factores que acentuaram a intolerância, o isolamento e a impossibilidade de integração de Portugal na Europa.

A criação poética inicial de Antero permite avaliar a influência cultural e a militância cívica que exerceu. Foram de tal amplitude que transpuseram, entre os seus contemporâneos e numa perspectiva de futuro, a área da literatura para incidir noutros domínios da sociedade portuguesa. A primeira edição das “Odes Modernas” (1865) tem estado circunscrita a bibliógrafos. A segunda edição, de 1875, -que Antero considerou definitiva- não se reduziu, apenas, ao apuramento formal e à substituição de títulos de poemas. Antero retirou, por exemplo, dois textos essenciais e que reaparecem, na íntegra, na recente edição crítica organizada por Luiz Fagundes Duarte e edição de Abysmo, por iniciativa do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e integrada nas Obras Clássicas da Literatura Portuguesa. Trata-se da carta-dedicatória da Odes Modernas a Germano Meireles, um dos seus mais íntimos amigos; e do posfácio no qual desenvolve e propõe o entendimento da poesia como arma de combate e de expressão revolucionária.

A polémica desencadeada, em 1865, teve origem na primeira edição das “Odes Modernas”, nas interpelações enérgicas de Antero ao magistério de Castilho e incluídas nos dois textos agora recuperados. Neles se depara o rastilho da agitação que se estendeu através de todo o país, durante mais de um ano, em jornais e revistas e em panfletos virulentos e oriundos de dois sectores: dos adeptos da tradição intransigente personificada em Castilho; e da nova geração empenhada na revolução política e social e, ao mesmo tempo, em desenterrar a língua que jazia nos túmulos do vernaculismo. Tudo isto e muito mais elegeu Antero como a mais emblemática figura intelectual da Geração de 70.

Fez desmoronar a pontificação de Castilho e a irrelevância dos seus epígonos que tiveram em Pinheiro Chagas um dos paradigmas nacionais. O perfil deste e outros personagens será objecto das implacáveis caricaturas de Eça de Queirós: n’O Primo Basílio, do conselheiro Acácio; na Correspondência de Fradique Mendes, de Pacheco, ministro, conselheiro, um “imenso talento” elogiado por todos e que só a viúva, não deu por isso, quando, após a morte, recebia condolências nacionais…

Contudo, o renome nacional e universal de Antero tem derivado dos “Sonetos” (1861-1886) sistematizados em diversas fases. Condensam as indagações em torno da angústia metafísica e o desespero físico que o torturaram e conduziram, numa tarde cinzenta, húmida e opressiva de Setembro, e numa praça pública da sua ilha de S. Miguel, ao trágico encontro com a morte.

Antero de Quental (1842-1891) além de uma recolha de sonetos de juventude               -Coimbra, 1861- a chamada edição Sténio, pseudónimo literário do seu colega, amigo e também açoriano Alberto Teles (1840-1917) publicou, no Porto, em 1881, uma outra edição de Sonetos, numa altura em que já atingira o maior prestígio intelectual, e, cinco anoa mais tarde, em 1886, Os Sonetos Completos, acompanhados de um estudo introdutório de Oliveira Martins, incluíram com a anuência de Antero, cinco outras poesias a que chamou “lúgubres”: Os Cativos, Os Vencidos, Entre Sombras, Hino da Manhã e A Fada Negra

Em 1886, Antero acrescentou sonetos inéditos e dispersos e repartidos em cinco ciclos correspondentes à evolução intelectual e filosófica, às intervenções cívicas, aos combates políticos e às efusões sentimentais: 1860-1862, vinte; 1862-1866, vinte e oito; 1864-1874, dezassete; 1874-1880, vinte e três; e 1880-1884, vinte e um.

Desta compilação surgiu uma segunda edição (1890), ainda em vida do autor, sem alterações nos textos dos sonetos, mas incluindo 46 traduções de 32 sonetos para alemão (por Wilhelm Storck), espanhol (Curros Enriquez e Baldomero Escobar), italiano (Giuseppe Cellini, Marco Antonio Canini, Emilio Teza e Tommaso Cannizzaro) e francês (Fernando Leal).

O conjunto de cento e nove Sonetos de Antero teve sucessivas reedições, muitas das quais repetindo gralhas e outras incorrecções que afectaram a autenticidade do texto. Entretanto, António Sérgio organizou, no âmbito do centenário do nascimento de Antero, celebrado em 1942, uma edição anotada, mais tarde inserida nos Clássicos Sá da Costa, e que não só manteve lapsos tipográficos como, também, alterou por completo a sistematização preconizada por Antero e Oliveira Martins.

A edição crítica, realizada por Luiz Fagundes Duarte, apresenta as sucessivas variantes introduzidas pelo poeta, a partir dos manuscritos autografados, quando disponíveis, ou da última edição em vida.

Numa secção da Addenda, estão três sonetos apócrifos, um dos quais a propósito de Camões, no centenário de 1880 -ao qual Antero não se associou e assumiu atitude crítica – o soneto Ananké, que se provou não ser de Antero, mas sim de Joaquim de Araújo, pelo que desaparece do corpus anteriano. Mais ainda: dois sonetos atribuídos a Antero que circulavam, desde 1916, nos meios espíritas como sendo ditados por Antero através de um médium.

Na carta autobiográfica, Antero classificou os Sonetos como “a notação de um diário íntimo e sem mais preocupações do que a exactidão das notas de um diário; as fases sucessivas da minha vida intelectual e sentimental” (…) “uma autobiografia de um pensamento e como que as memórias de uma consciência”. E Oliveira Martins afirmou que os Sonetos de Antero “não são os quaisquer episódios particulares de uma vida de homem; são a refracção das agonias morais do nosso tempo, vividas, porém, na imaginação de um poeta”.

Antero optou quase sempre pelo soneto que imortalizara ”Dante, Miguel Ângelo, Shakespeare e Camões” para exprimir, conforme salientou, “a forma completa do lirismo puro”. Foi, portanto, na concisão lapidar do soneto, que Antero manifestou as crises de incerteza, as dúvidas pertinentes, os fantasmas interiores, as derrocadas sentimentais que exacerbaram o pessimismo em que mergulhara. O suicídio acabou por ser o desfecho para se libertar de uma vida insuportável.

A obra poética de Antero teve o maior impacto na sua geração e continuou a motivar, no século XIX e no século XX, as gerações seguintes. Marcada por Cesário Verde e Camilo Pessanha, a geração do Orpheu não ficou indiferente à poesia de Antero, em especial aos Sonetos.

Manuscritos existentes na Biblioteca Nacional revelam que Pessoa deixou traduções em inglês de muitos sonetos e projectou uma edição das Poesia de Antero, constituída por seis pequenos volumes, uma edição encadernada, de 370 páginas, do tipo da de Coleridge, por W. & Foyle. Existe um exemplar, na Casa Fernando Pessoa, com a sua assinatura, na sua biblioteca pessoal. Tal facto leva-nos a admitir que Fernando Pessoa não seria o que é se não tivesse havido a aproximação e a forte influência da obra poética de Antero de Quental.

Podemos ainda referir que os Sonetos de Antero -através de Wilhelm Storck- chegaram ao conhecimento do Tolstoi que registou a profunda emoção que lhe causaram. Antes da obra ortónima e heterónima de Fernando Pessoa -e o Livro do Desassossego de Bernardo Soares é um dos exemplos mais significativos- Antero de Quental foi um dos poetas portugueses de maior projecção e reconhecimento universal.

 “Tempo Livre” (INATEL)

 

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publicado por Elisabete às 20:45
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