Inesperadamente, uma voz feminina se faz escutar, herética e imprevista:
- A caçada devia ser outra. Os inimigos de Kulumani estão aqui, estão nesta assembleia!
A intervenção alarma todos os presentes. Surpresos, os homens encaram a intrusa. É Naftalinda, a esposa do administrador. E ela está desafiando as mais antigas das interdições: as mulheres não entram na shitala. E muito menos estão autorizadas a emitir opinião sobre assuntos desta gravidade. O administrador acorre a rectificar o incidente:
- Camarada primeira-dama, por favor, este é um encontro privado…
- Privado? Não vejo nada de privado, aqui. E não me olhem assim que não tenho medo. Sou como os leões que nos atacam: perdi o medo dos homens.
- Naftalinda, por favor, estamos reunidos aqui segundo a tradição antiga - solicita Makwala.
- Uma mulher foi violada e quase morta, nesta aldeia. E não foram leões que o fizeram. Já não há lugar proibido para mim.
Evolui com arrogância entre os anciãos, sorri com desdém para o administrador e detém-se, por fim, à minha frente:
- Você voltou a Kulumani, Arcanjo Baleiro? Pois dê caça a estes violadores de mulheres.
- Mamã, há que pedir a palavra – adverte Florindo Makwala.
- A palavra é minha, não preciso pedir a ninguém. Estou a falar consigo, Arcanjo Baleiro. Aponte a sua arma para outros alvos.
- Que conversa é esta, esposa?
- Fingem que estão preocupados com os leões que nos tiram a vida. Eu, como mulher, pergunto: mas que vida há ainda para nos tirar?
- Mamã Naftalinda, por amor de Deus. Temos uma agenda para este evento.
- Sabe por que não deixam as mulheres falar? Porque elas já estão mortas. Esses aí, os poderosos do governo, esses ricos de agora, usam-nas para trabalhar nas suas machambas.
- Maliqueto, por favor, leve a primeira-dama. Está a perturbar o nosso workshop.
- Uns poucos ficam ricos. Há mortos que trabalham de noite para que uns poucos fiquem ricos.
Uma zaragata toma conta do lugar. De repente, já ninguém fala em português. Aquela zanga acontece num outro mundo. Num mundo onde, para se entenderem, mortos e vivos carecem de tradução.
Mia Couto, A Confissão da Leoa
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