Ouvi há pouco umas declarações na rádio de Freitas do Amaral sobre o OE. Muito impressionante. Tive a sensação de que estava a ouvir aquilo que querem fazer passar pela opinião apenas da 'esquerda radical': "[o OE] não é proporcional, nem é progressivo. É regressivo. É tempo de dizer basta! Se não ainda vem aí uma ditadura". Sobre isto falarei em baixo. Ontem a entrevista de Jorge Miranda no Público mostrava igualmente a total incompreensão do governo do que é um estado de direito e um tribunal constitucional.
De outro modo, as análises sobre a diminuição dos manifestantes, as dez hipóteses colocadas pelo editorial do mesmo jornal na edição de hoje, sublinham a crescente dificuldade daqueles que continuam a protestar nas ruas em juntar multidões. Não sei se estão certas ou erradas as tais dez hipóteses. Mas uma coisa é certa: a resistência nas ruas tem limites - o cansado, o desânimo, a fadiga natural após dois anos e meio de tortura - face aos reduzidos efeitos produzidos.
O que é pior é que as declarações que referi, correm a meu ver o mesmo risco: serem quase inúteis, do mesmo modo que este texto que escrevo será (quase) inútil. E podemos regressar ao tema da ditadura. A ditadura não vem aí. A ditadura já cá está. Quando escrevi há um mês e tal que Passos Coelho não se demitiria nem com um canhão de um Chaimite de Salgueiro Maia apontado à cabeça, usei uma linguagem "inapropriada", tal como Soares quando disse que este governo tinha "delinquentes" - sendo uma evidência que tem alguns. Trata-se de um novo tipo de ditadura. Primeiro tem um suporte institucional-bancário da UE que estará para durar. Segundo, traduz um aprisionamento do aparelho de estado pela quadrilha chefiada por Passos e Portas, com o padrinho Cavaco por trás a assegurar "o bom funcionamento das instituições" tendo os bolsos com o rendimento das acções por convite do BPN. Só por si isto é uma vergonha. O PR. Como se não chegasse, agora lá está Machete - outra vez tudo legal - para nos mostrar de que forma a delinquência financeira está no topo do estado. Por isso é que lançam ferocidade contra o Tribunal Constitucional - o único órgão que ainda não demoliram - com o miserável apoio da Sra Lagarde, do Sr. Barroso, e doutros senhores dos bancos ex-fugitivos ao fisco. Mesmo contra a letra dos tratados europeus que os suportam. Não se acredita nesta conjugação tenebrosa de factores.
Mas não podemos esquecer os outros países (tendência que temos em larga escala). Em que país é que as manifestações de facto gigantescas produziram resultados? Na Grécia? Em Espanha? Parece-me que não produziram. Exprimiram repúdio e revolta, por vezes com violência, é certo, mas não conseguiram inverter as políticas comandadas de Bruxelas. Quando as expectativas eram grandes e os resultados foram reduzidos ou nulos é compreensível que haja alguma desmobilização. Por isso é normal que isso ocorra. Desculpem mas é normal. Não é preciso analisar muito, excepto na medida em que possa ajudar a reflectir sobre os momentos das suas convocatórias, em lugar de lançar acusações "a quem não está". Uma coisa é ser "revolucionário profissional" - conheci alguns - outra coisa é ter um emprego, um trabalho, uma casa, tudo aquilo que sempre foi duro e difícil para muitos e ainda por cima reservar energia suficiente para ir para as ruas muitas vezes com resultados que podem encher a alma de alguns mas que não se traduzem em mudanças reais. Se se traduzissem julgo que muito mais gente iria. É uma questão simples de avaliação intuitiva das consequências das acções. Para que é que serve? será a pergunta que muitos farão. É sábio não responder com acusações, porque se poderia devolver outra pergunta: E se tivesse estado um milhão de pessoas? Seria diferente?
A quadrilha que está no poder, que até enfurece mesmo gente da direita clássica, não tem escrúpulos, nem valores, nem vergonha. Tudo que diga respeito a dinheiro lhes é suficiente como argumento. A mentira e a demagogia é-lhes constitutiva. Não sei o que irá acontecer a curto prazo. Suspeito que o "Basta" de Freitas do Amaral terá as mesmas consequências do "Basta" de Arménio Carlos e muitos outros. Nenhumas. Reparem: eu também acho que Basta, já há muito tempo. Mas os nossos vários Basta não derrubam quadrilhas no poder que, legitimadas pelo voto em tempos de mentiras, se julgam legitimadas para tudo. E o tempo das revoluções clássicas já lá vai, até ver. Até ver. Historicamente, se nos colocarmos na União Soviética dos anos 30, no Chile de Pinochet, na Argentina dos coronéis, na Itália de Mussolini, ou na Espanha de Franco, saberemos o horror que deve ter sido ter de continuar a viver naqueles locais - apesar das suas diferenças - nesses longos anos. Uns morreram, fuzilados, outros fugiram e exilaram-se, outros, talvez com menos sorte, ficaram e tiveram de sobreviver como puderam. E alguns aproveitaram para enriquecer. Como agora por toda essa Europa fora. Se não for antes em 2015 iremos correr com esta quadrilha, seja como for e para o que for.
O problema é aquilo que de criminoso fizeram entretanto. Uma vez cortada, é impossível recolocar a cabeça de Luís XVI no seu antigo lugar.
Fica o lastro do irreconstituível.
Tenho de confessar que estou cansado desta dupla epopeia que domina a vida política portuguesa nos media: primeiro, o confronto interminável entre Sócrates, Cavaco e Passos Coelho - que diabo, decidam-se por uma vez, se sim, se não - e o seu correlativo europeu, ajuda/não ajuda, os mercados "não reagem positivamente", o juro desce, o juro sobe, a "Europa" - actualmente uma ficção em implosão lenta e discreta - gosta das medidas, a "Europa" quer mais austeridade... Quando é que acaba esta outra história que já chateia toda a gente, menos os que dela vivem, ou dela se alimentam, ou com ela enriquecem?
Escrevi há poucos dias que uma boa designação para este tempo seria A Grande Desorientação. Julgo que a Grande Desorientação deriva em grande parte do que alguns autores chamam "o actual período pós-político". Consiste no facto de a luta política ter como que desaparecido - na sua verdadeira acepção - face à dominação do económico que reduziu a política à administração do Estado e da sociedade em geral de acordo com as directivas - sempre as mesmas - que emanam dos países ricos: "a necessidade de reformas estruturais" eufemismo para a transformação do Estado em servidor dos interesses económicos e financeiros globais, as medidas "necessárias" o controle do défice externo, o PIB - indicador parcial que não traduz de modo nenhum o que de facto é "viver em sociedade", como é que realmente se vive, e menos ainda qual é o seu sentido, etc, etc, etc.
Gostava de conhecer os mercados pessoalmente. Não é possível. É uma entidade hiper-real, um quadro de acção virtual no qual circula o capital financeiro global, dotado de uma racionalidade (acumular mais capital) que realiza (aqui Marx teve razão) o lado auto-destrutivo e feérico do capitalismo. Os "mercados", agora à solta depois de três décadas em que os Estados legislaram a sua própria impotência - a famosa desregulação - e finalmente fazem o que lhes apetece com base em grande parte em mecanismos de especulação financeira.
O mercado não depende de ninguém, não é ninguém e, no entanto, milhares de pessoas no mundo inteiro são os agentes - indivíduos - que o fazem funcionar quotidianamente.
A luta política devia voltar a ocupar o seu lugar original: disputas entre diferentes modos de organizar a sociedade, entre visões do mundo muito ligadas à existência de classes sociais e aos seus lugares diversos nos aparelhos produtivos dos países - ao contrário de algumas notícias, as classes não acabaram e para ver isso basta sair à rua e olhar à volta. Vejo carros de luxo e outros a desfazerem-se, vejo trolhas e administradores ou gestores de empresas, vejo carpinteiros, garagistas, cabeleiras e top-models (sobretudo em cartazes), vejo cabo-verdianos e ucranianos nas obras, vejo gente de gravata e camisa às riscas - normalmente ao volante - vejo loiras esplendorosas - normalmente no lugar ao lado - e mulheres negras com frio, às 5 da manhã, quando chegam dos subúrbios para fazerem a limpeza das salas das empresas, vejo muitos sem-abrigo a dormir embrulhados em jornais encostados ao D. Maria, onde no interior tem lugar a grande arte - cada documento de cultura é também um documento de barbárie, dizia Walter Benjamin - e vejo ainda a antiga classe média a proletarizar-se progressivamente para sustentar com impostos os estados e o seu apoio às grandes empresas dos salários fabulosos e a banca (em crise) e os seus lucros (também fabulosos).
Posso aceitar que já não existe proletariado no sentido marxista do século XIX mas a existência de classes sociais atinge-me a retina violentamente todos os dias. Há classes sociais. Só não existe ainda uma teoria que nos permita compreender o estado do mundo. Daí nasce A Grande Desorientação.
António Pinho Vargas
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