Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

No 170º aniversário do nascimento de Antero de Quental

 
TENTANDA VIA

I


Com que passo tremente se caminha
Em busca dos destinos encobertos!
Como se estão volvendo olhos incertos!
Como esta geração marcha sozinha!

Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro!
A noite, longa! o dia, duvidoso!
Vai o giro dos céus, vem vagaroso...
Vem longe ainda a praia do futuro...

É a grande incerteza, que se estende

Sobre os destinos dum porvir, que é treva...
É o escuro terror de quem nos leva...
O futuro horrível que das almas pende!

A tristeza do tempo! o espectro mudo
Que pela mão conduz... não sei aonde!
– Quanto pode sorrir, tudo se esconde...
Quanto pode pungir, mostra-se tudo. -

Não é a grande luta, braço a braço,
No chão da Pátria, à clara luz da História...
Nem o gládio de César, nem a glória...
É um misto de pavor e de cansaço!

Não é a luta dos trezentos bravos,
Que o solo amado beijam quando caem...
Crentes que traz um Deus, e à guerra saem,
Por não dormir no leito dos escravos...

É a luta sem glória! é ser vencido
Por uma oculta, súbita fraqueza!
Um desalento, uma íntima tristeza
Que à morte leva... sem se ter vivido!

Não há aí pelejar... não há combate...
Nem há já glória no ficar prostrado –
São os tristes suspiros do Passado
Que se erguem desse chão, por toda a parte...

É a saudade, que nos rói e mina
E gasta, como à pedra a gota d'água...
Depois, a compaixão, a íntima mágoa
De olhar essa tristíssima ruína...

Tristíssimas ruínas! Entristece
E causa dó olhá-las – a vontade
Amolece nas águas da piedade,
E, em meio do lutar, treme e falece.

Cada pedra, que cai dos muros lassos
Do trémulo castelo do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um coração aberto em dois pedaços!
 
Antero de Quental

[Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842-Ponta Delgada, 11 de Setembro de 1891]


 
publicado por Elisabete às 09:31
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Quarta-feira, 20 de Julho de 2011

POBRES

Gustave Doré.Empíreo da Divina Comédia

 

(a João de Deus)

 

I

 

Eu quisera saber, ricos, se quando

Sobre esses montes de ouro estais subidos,

Vedes mais perto o céu, ou mais um astro

Vos aparece, ou a fronte se vos banha

Com a luz do luar em mor dilúvio?

Se vos percebe o ouvido as harmonias

Vagas do espaço, à noite, mais distintas?

Se quando andais subidos nas grandezas

Sentis as brancas asas de algum anjo

Dar-vos sombra, ou vos roça pelos lábios

De outro mundo ideal místico beijo?

Se, através do prisma de brilhantes,

Vedes maior o Empíreo, e as grandes palmas

Sobre as mãos que as sustêm mais luminosas,

E as legiões fantásticas mais belas?

E, se quando passais por entre as glórias,

O carro de triunfo de ouro e sândalo,

Na carreira que o leva não sei onde

Sobre as urzes da terra, borrifadas

Com o orvalho de sangue, ó homens fortes!

Corre mais do que o vôo dos espíritos?

 

Ah! vós vedes o mundo todo baço...

Pálido, estreito e triste... o vosso prisma

Não é vivo cristal, que o brilho aumenta,

É o metal mais denso! e tão escuro,

Que ainda a luz que vê um pobre cego

Luzir-lhe em sua noite, e a fantasia

Em mundos ideais lhe anda acendendo...

Esse sol de quem já não espera dia...

 

Ah! vós nem tendes essa luz de cegos!

Que! subir tanto... e estar cheio de frio!

Erguer-se... e cada vez trevas maiores!

Homens! que monte é esse que não deixa

Ver a aurora nos céus? qual é a altura

Que vela o sol em vez de ir-lhe ao encontro?

Que asas são essas, com que andais voando,

Que só às nuvens negras vos levantam?

Certo que deve ser o vosso monte

Algum poço bem fundo... ou vossos olhos

Têm então bem estranha catarata!

 

II

 

Há às vezes no céu, caindo a tarde,

Certas nuvens que segue o olhar do triste

Vagamente a cismar... há nuvens destas

Que o vestem de poesia e de esperança,

E lhe tiram o frio deste inverno

E o enchem de esplendor e majestade...

Mais do que as vossas túnicas de púrpura!

Eu, às vezes, nas naves das igrejas

Lá quando desce a luz e a alma sobe...

E entre as sombras perpassam as saudades...

E no seio de pedra tem o triste

Mil seios maternais... eu tenho visto

Branquejar, nos desvãos da nave obscura,

Como as nuvens da tarde desmaiadas,

Uns brancos véus de linho em frontes belas

De umas pálidas virgens cismadoras,

Que, em verdade, não há para cobrir-nos

A alma de mistério e de saudade

Gaze nenhuma assim! Vede, opulentos,

Como Deus, com olhar de amor, as veste

A elas, de uma luz de aurora mística,

De poesia, de unção e mais beleza

Que o véu tecido com o velo de ouro!

 

Os vossos cofres têm tesouros, certo,

Que um rei os invejara... Mas eu tenho

Às vezes visto o infante, em seio amado

De mãe, dormir coberto de um sorriso,

Tão guardado do mundo como a pérola

No fundo do seu golfo... e sei, ó ricos,

Que aquele abrigo aonde a mãe o fecha

— Entre braços e seio — é precioso,

Cerra um tesouro de mais alto preço

Que os tesouros que encerram vossos cofres!

 

III

 

LEVITAS do MILHÃO! o vosso culto

Pode ter brilhos e esplendor de pompas...

Arrastar-se nas ruas da cidade

Como um manto de rei... e sob os arcos

De mármore passar, como em triunfo...

Ter colunas de pórfido luzente...

E ser o altar do vosso santuário

Como o templo do Sol... cegar de luzes...

O vosso Deus pode ser grande e altivo

Como Baal... o Deus que bebe sangue...

Mas o que nunca o vosso culto esplêndido

Há-de ter, como um véu para o sacrário,

A velar-lhe mistérios... é a poesia...

 

Esse mimo de amor... esses segredos...

O ingénuo sorriso da criança...

O olhar das mães, espelho de pureza...

A flor que medra na soidão das almas...

O branco lírio que, manhã e tarde,

Aos pés da Virgem, no oratório humilde,

Rega a donzela, em vaso pobrezinho!

Nunca a vossa cruz-de-ouro há-de dar sombra

Como a outra da Gólgota — o alívio,

Sombra que buscam almas magoadas —

Onde os citisos pálidos rebentam...

Consolações... saudade... e inda esperanças...

Podeis cavar... as minas são bem fundas...

Cavai mais fundo ainda... e já é o centro

Da terra, aí! Mas, onde, ó vós mineiros,

Por mais que profundeis não heis-de uma hora

Chegar mais... é ao coração...

 

                                           E, entanto,

É lá a única mina de ouro puro!

 

IV

 

O coração! Potosi misterioso!

O grande rio de areais auríferos,

Que vem de umas nascentes ignoradas

Arrastando safiras em cada onda,

E depondo no leito finas pérolas!

 

O coração! É aí, ricos, a mina

Única digna de enterrar-se a vida,

Cavando sempre ali... sem ver mais nada...

Foi lá, como na areia o diamante,

Que Deus deixou cair da mão paterna

As esmeraldas do diadema humano...

 

O Sentimento vivo... a Acção radiante...

E a Ideia, o brilhante de mil faces!

Foi lá que esse Mineiro dos futuros

Encobertos andou c’os braços ambos

Metidos a buscar — mas quando um dia

Do fundo as mãos ergueu... o mundo, em pasmo,

Viu-lhe brilhar nas mãos... o Evangelho!

 

1863

 

Antero de Quental, Odes Modernas

 

 

publicado por Elisabete às 18:10
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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

Antero de Quental

 

Quanta vez, debruçado na janela do quarto que me acolhia na portuense Casa da Pedra, onde vivera e escrevera Oliveira Martins e, depois, pertencera a minha irmã Maria Manuela; quarto onde Antero de Quental tinha a sua cama se, ido de Vila do Conde, resolvia ficar mais tempo com o amigo historiador; quanta vez, eu imaginava o poeta aspirando o aroma intenso do roseiral do jardim tão de compleição romântica que lhe ficava aos pés, ou a lançar o olhar para o alto, onde a igreja da Lapa ergue o vulto austero, recolhendo no seio o coração de Pedro I do Brasil, e badalando horas lentas, na melancolia do bronze!

Por esse tempo, Antero parecia feliz, procurando, como afirma numa carta a um velho amigo e conterrâneo, o equilíbrio moral indispensável para qualquer espécie de trabalho.

 

 

 

 

Não dava, então, notícias daquele poeta pessimista, embrenhado nas leituras sombrias de Shopenhauer e de Hartmann, angustiado pela doença que o levará até ao consultório parisiense de Charcot; essa psicose maníaco-depressiva, que uma vez ou outra lhe dava tréguas, lhe permitia o humor normal e, no dizer sábio do professor Miller Guerra, fases de actividade, energia, bem-estar, optimismo e entusiasmo criador.

Mas foi, decerto, num desses momentos depressivos que, a 11 de Setembro de 1891, ao regressar à terra açoriana de São Miguel, pôs fim à existência com dois tiros de revólver, num banco isolado junto ao muro de uma praça de Ponta Delgada, onde (trágica ironia!) uma âncora assinala o Convento da Esperança.

Ali me detive, em certa visita à ilha de Antero, precisamente 80 anos após a terrível ocorrência, sem me atrever sequer a murmurar o conforto destes dois versos do poeta:

 

Já sossega depois de tanta luta,

Já me descansa em paz o coração.

  

 

Ali, numa compungida meditação, evoquei o poeta que a Geração de 70, a sua geração, considerou, pela pena de Eça de Queiroz, um génio que era um santo.

Nascera em 1842, oriundo de uma família aristocrática, ligada à cultura e possuindo fartos cabedais. Quando por Coimbra se bacharelou, logo revelou a sua força criadora, o seu espírito insubmisso, as suas ocasionais convicções filosóficas e políticas.

Essa vida agitada do pensamento e acção permitia-lhe, no entanto, conceber a simplicidade lírica da quadra dita popular, num feixe de Cantigas dedicadas às águas do Mondego, que um coro ímpar de poetas celebraram:

 

Lindas águas do Mondego,

Por cima olivais do monte!

Quando as águas vão crescidas

Ninguém passa para além da ponte!

 

Musa cristalina, ainda não turvada por dúvidas e transes, ímpetos sociais e lucubrações filosóficas.

Mas antes deste tumulto que iria gerar alguns dos mais extraordinários sonetos da língua portuguesa, houve lugar para a divertida invenção de um poeta satanista, de parceria com o seu camarada Eça de Queiroz, que, mais tarde, lhe criou uma biografia e uma correspondência: Carlos Fradique Mendes.

Com efeito, a 29 de Agosto de 1869, o jornal A Revolução de Setembro publicava um folhetim de versos atribuído a esse poeta desconhecido e original, discípulo dos chamados satanistas do Norte, de nomes bárbaros e de difícil leitura, todos eles fruto da imaginação dos dois jovens escritores.

Antero, oculto pelo pseudónimo Fradique, insere, nesse folhetim, um soneto e um fragmento da ‘Guitarrilha de Satã’, subtraídos a uma obra que naturalmente nunca chegou a editar-se nem sequer a ser realizada: Poemas de Macadame.

Mas foram, no entanto, reunidos no livro póstumo de Antero, Raios de Extinta Luz.

A título de curiosidade, pois pouco maior valor têm as quadras da partida forjada à ignorância cultural portuguesa de então, cito o fragmento dedilhado na Guitarrilha de Satã:

 

Estranha aparição,

Que em minhas noites vejo,

Ó filha do desejo!

Ó filha da solidão!

 

Não sei qual é teu nome,

E donde vens, ignoro:

Sei só que tremo e choro

Como de frio e fome!

 

Que por fundir contigo

Suspiros, ais, rugidos,

Dera ideais queridos,

Deuses e fé que sigo.

 

Sim, dera as profecias

E os cultos salvadores,

E os Gólgotas, e as dores,

E as bíblias dos Messias!

 

Por ti, minh’alma clama,

Corre a meus braços, breve,

Sejas de fogo ou neve,

Sejas cristal ou lama!

 

Se és Beatriz, sou Dante;

Sou santo, se és divina,

Se és Lais ou Messalina,

Sou Nero, ó minha amante!

 

Breve, estas brincadeiras juvenis dão lugar à sisudez do pensador, como a irreverência ou a fogosidade do duelo motivadas pela Questão do Bom Senso e do Bom Gosto, cujo alvo principal era o pontificado literário do velho Castilho, dão lugar às convicções sócio-políticas das Conferências do Casino, em 1871, em que o escritor revolucionário proclamava, apontando soluções, as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. 

O poeta lírico que se sonhava rei, nalguma ilha / Muito longe, nos mares do Oriente e visionava a amada descansando debaixo das palmeiras / Tendo aos pés um leão familiar, despe-se de fantasias exóticas e pomposas e, de camisa arremangada, emprega-se na azáfama de uma tipografia, para o convívio mais estreito com o operariado, todo ele voltado à doutrina socialista, numa missão pedagógica que a poesia serve, submissa aos ditames da sua inspiração: é o nascer do Sol, o Sol ardente da vida à luz do qual quer trabalhar, combater por um futuro melhor para a pobre Humanidade; o Sol, o claro Sol amigo dos heróis.

Mas não tardam as pesadas nuvens do desengano, o espírito profundamente místico de Antero a voltar-se para a filosofia budista, mas entendendo um Budismo coroando o Helenismo, com a interpretação de um Nirvana muito pessoal que igualmente definiu num soneto:

 

Para além do Universo luminoso,

Cheio de formas, de rumor, de lida,

De forças, de desejos e de Vida,

Abre-se como um vácuo tenebroso.

 

A onda desse mar tumultuoso

Vem ali expirar, esmaecida...

Numa imobilidade indefinida

Termina ali o ser, inerte, ocioso...

 

E quando o pensamento, assim absorto,

Emerge a custo desse mundo morto

E torna a olhar as coisas naturais,

 

À bela luz da vida, ampla, infinita,

Só vê com tédio, em tudo quanto fita,

A ilusão e o vazio universais.

 

Com o galopar da doença que o tortura, galopa o seu espírito como um cavaleiro andante em busca do palácio encantado da Ventura, que súbito se lhe depara na sua pompa e etérea formosura; mas, aí, como os sepulcros caiados de tantos hipócritas que Cristo invectivou, ao abrirem-se as Portas d’ouro, com fragor, o Vagabundo, o Deserdado encontra dentro, unicamente, silêncio e escuridão – e nada mais.

Como é pungente o destruir de um alto ideal que se persegue vida fora, qual o brioso cavaleiro, formidável mas plácido no porte, dominando, pelo amor, o impulso da morte que o leva até à eternidade! Venha pois o refúgio no sonho que impede o poeta de enfrentar o horror da realidade mesquinha!

E a quem rogá-lo, esse refúgio, senão àquela Virgem Santíssima, cheia de graça, Mãe da Misericórdia?

 

Ó visão, visão triste e piedosa!

Fita-me assim calada, assim chorosa…

E deixa-me sonhar a vida inteira!

 

Quando, em 1890, a soberba Inglaterra afronta a dignidade portuguesa com um Ultimatum vexatório que aquece ao rubro o nosso patriotismo, os estudantes portuenses, encabeçados pelo jovem poeta Luís de Magalhães, correm ao remanso de Vila do Conde, a convidar Antero de Quental para a presidência de uma recém-criada Liga Patriótica do Norte. Mas, muito cedo o poeta reconhece que aquele sacrifício pelo altar da pátria por ele pedido a todos os portugueses fora, uma vez mais, inútil, pois, como escreve ao jovem Alberto Osório de Castro, Portugal é um país eunuco, que só vive dos interesses materiais e para a intriga cobarde que é o processo desses interesses. Doera-lhe agudamente que o valor patriótico de 1890 rapidamente fosse manietado pela astúcia política.

O seu pessimismo, ainda mais amargo, regressa-lhe ao espírito, já incapaz de compor um verso, e sabendo, agora, como afirma na referida carta, que a política nunca foi muito para poetas.

Antero volve à sua ilha de névoas. Sem esperança já, alma e corpo doentes, é sob o signo da esperança, de uma esperança divina, capaz de perdoar os desvairos do génio para receber o coração do santo, que se atreve ao acto desesperado dos suicidas.

O seu espírito atormentado descera, sim, passo a passo a escada estreita do palácio encantado da ilusão. Mas o coração, esse, dorme (quem pode duvidá-lo?), para sempre feliz, na mão de Deus, na sua mão direita.

(1991)

 

António Manuel Couto Viana, 12 Poetas Açorianos

publicado por Elisabete às 17:54
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Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Carta de Antero de Quental a Jaime Magalhães Lima

 

Vila do Conde, 20 de Janeiro de 1887
 
Meu caro Amigo:
 
Acabo de ler o seu livro[i] e, desde a primeira à última página, sempre com interesse e gosto. Há em todas elas pensamento e esse pensamento é conexo: há, além disso, uma maneira pessoal de ver as coisas e de se exprimir: vê-se finalmente que o autor não quis brilhar, mas simplesmente dizer alguma coisa que merecia ser dita. Por tudo isto não deve estar descontente com o seu livro e pode estar certo de que está muito longe de ser uma publicação inútil – compreendo entretanto essa espécie de dúvida e desgosto, que a sua carta acusa, mas não o aprovo. Convém mirar sempre à perfeição, mas nunca afligirmo-nos porque não a alcançámos, desde que trabalhámos com ânimo limpo de vaidade e que fizemos como melhor soubemos e pudemos. Nesta impaciência e desconsolação, que eu desaprovo, quando não entra inconscientemente um certo orgulho, entra uma certa inquietação parente dos “escrúpulos”, que são uma verdadeira doença moral. Não podemos exigir de nós mesmos mais do que é justo exigir-se da natureza humana: isto é, não devemos em coisa alguma exigir a perfeição, mas contentarmo-nos com a bondade e rectidão das intenções.
Banir a vaidade das nossas obras, isso é que está inteiramente na nossa mão; torná-las perfeita, não. Mas a obra concebida e executada sem vaidade tem já por isso mesmo uma espécie de perfeição. E a quem trabalha assim, muitos outros dons lhe serão dados sem que os procure.
Depois, deixe-me dizer-lhe uma coisa: e é que não está tudo em sermos caridosos com os outros: é necessário sê-lo também com nós mesmos. Deitar aos lombos do pobre jumento carga maior do que aquela com que ele pode, implica mais dum pecado: ou soberba, ou desarrazoada impaciência ou, pelo menos, o desconhecimento da harmonia e ponderação natural das coisas. A justiça perfeita para com os outros chama-se caridade; a justiça perfeita para com nós mesmos chama-se humildade. Aquele homem incomparável e maravilhoso que foi S. Francisco de Assis, quando, novo ainda, se achou quebrado, extenuado e quase cego, em virtude das muitas penitências e jejuns, reconheceu que tinha errado e disse esta frase notável: Reconheço que pequei muito contra meu pobre irmão corpo.
 
Do seu do coração
 
Antero de Q.


[i] Estudo sobre a Literatura Contemporânea, Porto, 1886
publicado por Elisabete às 18:59
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Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

A noite de S. Jorge para a poesia de Antero

                                                                                                              Foto de:fgamorim

 

  NOX
 
Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inútil tantos ásperos tormentos…
 
Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia…
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos…
 
Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,
 
E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!
 
                                               Antero de Quental
publicado por Elisabete às 11:27
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