Terça-feira, 28 de Maio de 2013

Ilha Grande Fechada

 


Não foi preciso chamar Diana, que, ao vê-lo pegar no sacho, lhe correu à volta a sacudir o rabo. Irene perguntou: “aonde vais?”… e ele: “vou despedir-me da terra.” O sacho para isso?... Que sim, não bastava ficar olhando, queria senti-la como quem abraça uma pessoa quando lhe diz adeus. A cadela ia na frente. Encontros breves pelo caminho, alguns os últimos sabia Deus por quantos anos, talvez os derradeiros na vida. “Sempre vais amanhã?” “Isso é que é, até que enfim está chegando o dia, João…” “Lá, tens tudo quanto precisas, aquilo é que são terras fartas. Se eu fosse novo…” “Logo que possa, também me vou embora. Aqui não dá nada.” E ele triste, como se levasse a morte sobre os ombros. Começava a perceber o que lhe disse um dia o furriel enfermeiro – que tinha o costume de acamaradar com os pretos e só tocava as pretas nas suas partes doentes -, ao vê-lo uma noite chorar agarrado a meia garrafa de whisky: “Saudades da família? Hás-de habituar-te. Quando isto tiver passado, verás que não é assim tanto tempo.” Não eram só da família, as saudades. Das suas coisas também, dos bichos, do mar… Tinham-lhe metido na cabeça aquela de que o mar dá saudades, que um homem das ilhas não pode viver sem ele. Era capaz de passar dias e meses sem o olhar com atenção, anos sem comer lapas ou polvo guisado. Mas chegara a sentir falta de tudo isso como se não desejasse mais nada na vida. “Não é só da família, meu furriel. É da ilha também.” Se a sua terra fosse um deserto, seria o mesmo. Havia quem se sentisse por coisas bem diferentes tanto como ele se sentia pelas suas. O furriel sorrira, num jeito de resignação trocista. “Da ilha, João?... A ilha é um bom lugar de saudade. Nem mais nem menos. Vai deitar-te, que amanhã estás melhor.” A ilha, um bom lugar de saudade?... Mais nada?... E já se sentia longe, tudo era como se não lhe pertencesse, era como se, mal desaparecidas aquelas caras, não as visse havia tempos sem fim, como se, dado um passo, o caminho para trás não fosse seu desde as carreiras da infância.Conseguira finalmente o passaporte, o visto e a passagem que o libertavam da ilha, mas que maldição há sobre ela que, mesmo quando se tem tudo o que se quer, ela nos deixa infelizes?

Parou na taberna do costume. Queria um copo sem fundo para a sua pena sem fim, num dia que sempre imaginara o seu dia de estar feliz. Apetecia-lhe beber até que o pensamento não soubesse de nada, até que os sentidos esmorecessem na última noção do entendimento. Um copo de vinho: como o fel e o vinagre para abrandar as dores dos condenados às grandes mortes. Bebeu com dois amigos que discutiam o preço de onze vacas e cinquenta e seis alqueires de pasto, e lhe invejaram a sorte. Tinham grandes carteiras cheias de notas de mil, mas nada se compara à abundância dos dólares. Suspenderam o negócio – ficaria para depois continuar aquela sessão de exageros -, estava ali o João para dizer-lhes adeus. E um grande adeus, como uma grande chegada, fica melhor com vinho para aquecer as palavras.
- Pareces triste, João...                                                                                         

- Não sei o que tenho… Um homem sabe lá para onde vai… - Para pior do que isto não pode ser. Aqui o Mário dava-te as vacas e o pasto que me quer vender pelo teu passaporte. Não davas, Mário? - E ainda tornava dinheiro, rapaz. O entusiasmo deles não lhe buliu com a alma. Eram três companheiros, tiveram de ser três as rodadas. Deu-lhe um torpor quase bom no corpo, mas o resto ficou igual. Antes se mudasse o resto, onde lhe estava a tristeza. Saiu depois de uns abraços apertados, os dos outros dois pegaram-se-lhe ao corpo, pararam-lhe na cintura, hálitos cheirando a vinho, respingos de saliva de quem já tinha lastro abundante lá dentro onde tombaram os três copos da despedida. Meteu-se à canada, que conhecia desde os tempos dos ninhos e das laranjas, das brigas sem o motivo e das tapadas sangrentas, de outros gostos proibidos e alguns trabalhos penosos. Por ali andaram com ele o Carlos, que foi padre e depois casou, o Pedro, que estudou para professor, um José que emigrou e outro José que era dono de trinta vacas de leite e um tractor, o Luís, o Mariano, o Manuel, todos emigrados também, o Alberto seu companheiro de carteira na quarta classe, que talvez estivesse à espera dele, no aeroporto de Toronto, dali a dois dias. As voltas que o Mundo dá… Não havia cigana que fosse capaz de atinar com a confusão de tantos destinos diferentes. E eram todos tão iguais: é verdade que o Carlos sempre foi de saber reis e batalhas como ninguém e o Pedro fazia problemas como se já fosse professor, mas, dali do canto para cima, por essa canada a dentro ou empoleirados nas árvores a roubar laranjas verdes, era tudo a mesma louça. Nesse tempo, doía-lhe a alma só de pensar na América e no Canadá. A América tem cheiro diferente, vinha nas caixas de roupa, tão grandes que era preciso desmanchá-las na rua para caberem em casa. Parece que aquela gente apostava em que as caixas que uns mandavam fossem maiores que as dos outros, uns coitados que saíram daqui quase sem jeito para nada e nem o bem faziam bem feito. Mas, se não fosse isso, um homem tinha andado em couro, que o ganho do dia não dava para meia missa. E brigas que havia ao dividir a roupa, se as melhores peças não vinham com o nome de cada um marcado… Bocas de fome… Ir ao armário e nem miolo de pão! A fome chegava sempre antes da hora, a mesa nunca estava posta quando a vontade apertava, uma doençazinha que não fosse de consumir muito era um regalo, dava direito a outro sustento, o ovinho estrelado, o leite com cacau, o queijo de peso, o chazinho com açúcar, ou um caldo de galinha para fraquezas mais teimosas que era coisa mesmo descida do Céu. Nem um lorde… Haveria muitas terras no Mundo onde as pessoas gostassem de estar doentes? E agora? É cada pedaço de pão com manteiga deitado fora pelos rapazes, que nem os cães querem saber. E manteiga, isso era dia de festa quando havia alguma! A fartura faz mal, o fastio é uma coisa moderna, nunca vi disso no meu tempo. Não sei como não morreu metade. Se tivessem morrido todos os que passaram fome, não era preciso emigrar… Um homem é uma desgraça… Isto é lá terra que dê saudades a alguém. Mas dá, eu sei que dá. Não dá mais nada, mas dá saudades. Quando eu me apanhar com uns dólares, volto para trás, arranjo uma casa, compro vacas, e acabou-se. O pior é o futuro dos meus filhos. Eles, quando vão pequeninos para aquelas terras, nunca mais querem saber disto para nada. E um homem lá não tem mão neles, se dá uma bofetada num vem logo a polícia, e ainda estamos sujeitos a malhar com os ossos na cadeia. Só o diabo é que pode sofrer uma coisa destas, mas dizem que é assim mesmo, que é que se pode fazer? Não vou mudar as leis daqueles excomungados, que não passaram fome, não sabem o que custa a vida. É que a fome ensina muita coisa. Havia respeito no meu tempo de rapaz. O pobre respeitava o rico, porque o rico era quem lhe dava trabalho. Os pobres respeitavam-se uns aos outros, porque precisavam de toda a gente. Agora andam de barriga cheia, e a fartura é má conselheira. É isto, naquele tempo não eram melhores do que são hoje, tinham era mais necessidade. Fome negra, morriam da primeira doença que não fosse a gripe de Abril ou Novembro, porque mesmo que alguém quisesse acudir não tinha com quê, só o Doutor Simas, de Vila Franca, era um santo, que até dava remédios e tudo, mas os ricos e o governo não se importavam com a gente, era tudo pior que os cães. A terra está do mesmo tamanho, mas já se vive melhor, não tem comparação. O dinheiro ia todo para eles, grandes ladrões, que metiam uma pessoa na cadeia por dá cá aquela palha, bastava o regedor dizer que um homem era comunista, mesmo que nunca tivesse ouvido falar nisso, mas era a fama que pregavam em qualquer um a quem quisessem fazer mal, como ao Júlio, que atravessou a rua enfeitada para a procissão, e ao Roberto e ao João Ferreira, que fizeram um barco de canas no Carnaval como se fosse o “Santa Maria” e, um deles, o Henrique Galvão. É verdade que, se não fosse a emigração, comiam-se uns aos outros que isto era gente que já não cabia aqui. Mas se uma mulher não fizer contas à vida e se um homem deixar metade na taberna, a fome ainda é mais negra. Só para os mais gastadores, bem se sabe, que os outros lá vão vivendo com chicharros, que antes nem sequer havia pão, juro pela felicidade dos meus filhos, que Deus não os castigue com metade do que eu passei. No Canadá é tudo fartura, do mau e do bom, mas são outros costumes, sei lá como vai ser comigo. Mas talvez acabe por acostumar-me, não sou melhor que os outros. O José Pereira levou alguns dois anos a chorar, e depois criou o gosto por aquela terra que nunca mais se importou com a nossa. Quis vir morrer aqui, quando os médicos o desenganaram, como se o céu fosse mais perto da gente. E é capaz de ser, que se um homem leva esta vida com paciência não há demónio que lhe pegue na alma. Não deixo para trás nada que me faça falta, a não seres tu, Diana. Vais andar por aí ganindo, esfomeada e tonta, pois tens esse mau feitio de não comer a jeito quando não estou. E eu vou ficar por lá apalermado, com saudades duma cadela, louvado seja Deus! Hei-de escrever cartas a perguntar por ti, minha mãe lê-as para ouvires como se fosses gente, tu tens mais tino do que muitos que andam em cima de dois pés. Se calhar o meu cheiro chega ainda na carta, hás-de farejá-la e ficar doida, à minha procura, minha mãe diz: “Olha, Diana, é do teu dono, é do João”, e tu corres a casa toda, esqueces essa tristeza de rabo murcho e começas a sacudi-lo, vais à porta da rua, talvez ladres a chamar por mim, e voltas para dentro com uns olhos cheios de lágrimas que não se vêem mas que custam tanto como as outras ou mais ainda. Ou sentas-te à porta da minha casa fechada, cismando, a olhar para cima e para baixo, a ganir e a rapar na madeira, vens aqui à terra, entras na taberna a perguntar por mim só porque entras, vais ao pasto, vês as vacas todas mas não me vês a mim, é o Manuel da Emília que há-de estar lá, ficas sem perceber nada, ainda acabas por te finar de tristeza como a cadela do José Sousa, quando o dono morreu. O resto, Diana, são saudades de fome, de suor, de trabalhar como um negro desde os seis anos, e, vamos lá com Deus, de algum copo de vinho com uns amigos, que só tornam a pensar em mim quando eu vier de visita ou lhes mandar um postal de Boas-Festas com um dolarzinho, para beberem pela minha saúde.

 


 

Mas, então, por que raio estou tão triste, com uma tristeza que, se eu soubesse que isto era assim, nunca me tinha posto a passar papéis para emigrar e ainda por cima meu cunhado pensa que lhe fico devendo as gadelhas só porque me fez a carta de chamada? Não é pela nica de terra, um raio a parta. Deus me perdoe, que umas vezes dava muito, para vender a preço de nada, e, outras, mal lhe arrancava umas batatas e uns feijões para as sopas de meio ano. Nem é pelas vacas, que nem sequer são minhas, e me tiraram anos de vida, sempre a correr, quando estavam mais perto vinha como um doido, entre o leite da manhã e o da tarde, atirar uma sachadela à terra, a ver se adiantava serviço, ou ficava lá até não ver nada, era pelo tino, e no fim, sempre pobre, que Deus já não dá vinha e gado a quem tem paciência como Job, mas manda a verdade dizer que eu excomunguei mais vezes o trabalho do que dei graças a Deus pela saúde e pela força que nunca me faltaram. Ah! mas assim não me faltem no Canadá, e estou aqui estou rico, porque os remediados de lá são mais ricos do que os ricos da nossa ilha. Se eu pudesse levar-te, Diana, não me ficava pena nenhuma do que deixo atrás. Só minha mãe e meu pai, coitados, já se vão pondo velhos, mas esses, mais dias menos dias, de certeza que estão lá caídos. Têm aquele feitio de não querer incomodar os filhos, dizem que vão viver a favor e aqui ainda se terminam, mas não aguentam, vais ver que não aguentam aquela casa vazia, sem a alegria de ninguém, só eles a olhar um para o outro como duas árvores sem ninhos. E um homem quando casa, mete logo na cabeça que os pais já não têm nada com ele, e depressa se esquecem as sopinhas da mamã, que até se for preciso ir para o fim do Mundo vai-se mesmo sem pensar no desgosto deles. A vida é assim, não se pode mudar a vida, ela é que manda na gente. Olha, Diana, se te passasse um camião por cima, estava tudo resolvido. Desculpa que eu pense nisto, mas é verdade, ia-me custar ver-te morta, mas enterrava-te, ficava acabado, havia de me acostumar à tua falta, porque não se espera nada de quem vai para o outro mundo. Um homem habitua-se sempre ao que não tem remédio. Mas, assim, eu tão longe e a saber-te morrer aos poucos, de desgosto, e não poder valer-te… Ah! maldita terra, Diana! Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela! E, depois, aquilo lá é tudo tão diferente… Uma língua que para mim é chinês, casas maiores do que o Pico da Vigia, lojas onde dizem que cabe a nossa freguesia inteira, ruas com mais povo do que a cidade pela festa do Santo Cristo, carros que nunca param de passar, um homem não pode andar descansado, ou a conversar num canto, não se vai para lado nenhum, é penar para ver os amigos, que às vezes estão mais longe do que daqui para lá, não há horas certas de trabalho, o marido e a mulher passam a vida sem se ver a jeito, os filhos aos terramotos para a escola, comem à pressa, nem sequer há domingos com vagar para ir à missa ou jogar uma sueca. Um inferno, um inferno cheio de dólares, é o que aquilo é.

Olha-me esta terra! Nunca deu tanto como vai dar este ano, juro. Que linda batata! Quatrocentas arrobas seguras, e o Manuel da Emília ficou-me com ela por duzentas e cinquenta. Mas chega às quatrocentas ou anda lá perto, isso não falha. Ele tira-a daqui a três semanas, foi um belo negócio, mas não faz mal, Nosso Senhor lhe dê sorte de vender tudo por bom preço. E o milho!... Um louvar adeus. Olha-me aquele feijão, vai ter que se lhe diga, nunca tive disto, palavra de honra que nunca tive. Parece que a terra quis despedir-se de mim fazendo-me negaças, uma fartura destas e não vou comer uma batata escoada que seja, não provo um molhinho de feijão nem uma maçaroca de milho cozido… Espera, deixa-me tocar na terra, é a última vez que a vejo minha, se eu voltar, tenho de pedir licença para pôr os pés aqui dentro, apetecia-me pegar nela ao colo, é uma tolice, olha que não é do vinho, estou sério, muito mais sério do que gostava de estar, maldita a hora em que resolvi dar este passo, mau fogo abrase a tantos trabalhos em que um homem se mete só para ter que comer e que vestir. E nunca vi ninguém ser feliz por causa do dinheiro. O que importa é a saúde e a graça de Deus. Estás para aí pasmada por me ver sachar batata deste tamanho, não é?... Quero é matar já as saudades que vou sentir. Anda aqui, Diana, chega ao pé de mim, cadela dum raio que és a minha perdição. Dá cá um beijo ao teu dono, dá cá, que, se calhar, nunca mais te vejo. Ah! bicho dum corisco, e eu que não te queria porque eras fêmea, mas ninguém pegou em ti, e não fui capaz de te matar. Ainda abri uma covinha para te meter lá dentro, mas o sacho nunca me pegou tanto como nesse dia. Sabes? sinto remorsos de ter querido matar-te, só tu nunca me enganaste, se Nosso Senhor fez um Céu para os cães, vais direitinha lá parar, minha santa. Olha, se meu pai for para o Canadá, deixa-te com alguém, mas tu nunca mais prestas para nada. E eu, quando voltar, se ainda te apanhar viva, já nem sequer és minha. Mas tu morres antes, de certeza que morres. Um raio parta a minha cabeça, para que me fui meter nesta aventura do inferno, eu que não tinha outra ideia senão embarcar e, agora, estou para aqui feito tolo, por causa de ti, se não fosses tu, era outra coisa qualquer, um homem nunca está satisfeito, é um bicho triste, que até nasce chorando. Não vês, Diana, a gente aprende a rir mas ninguém nos ensina a chorar, e meu pai, algum dia, ainda é capaz de te pôr a ladrar ao telefone, para eu te sentir no Canadá, e ele se calhar a tocar contrabaixo ao mesmo tempo, que já uma vez tocou também para meu cunhado ouvir e matar saudades.

 

*   *   *

 

João simulou todos os gestos com que ajudara a terra a prometer fartura. Depois sentou-se no chão e chamou a cadela para junto de si. Diana lambeu-lhe as mãos e a cara, ganiu alegremente, e deitou-se ao lado dele com a cabeça apoiada na sua perna direita, olhando-o com piscadelas que pareciam sorrisos. João levantou-se, desviando-lhe a cabeça docemente, e pediu: - Beija-me, Diana. Ele baixou-se um pouco, e a cadela esticou-se e lambeu-lhe a cara novamente. - Tira-me o chapéu, vamos. Diana saltou duas vezes e, à segunda, ficou com o chapéu entre os dentes. Deu uma volta ao redor de João, que se ajoelhou. - Põe-me o chapéu na cabeça, sua velhaca. Obedeceu, divertida e desajeitada no acto de cobrir o dono, que facilitou a tarefa com uma torção do pescoço. - Dá cá um aperto de mão. Diana levantou a pata direita para a mão estendida. João sacudiu-a como se fosse um cumprimento a sério. - Morre, Diana. A cadela deitou-se, imitando a morte sem saber o que imitava. João pegou no sacho, ergueu-o e apontou-lho à cabeça. A pancada caiu certeira e fulminante. Diana estremeceu por momentos, agitada por uma morte de que não se apercebeu. João tentou aguentar as lágrimas dentro dos olhos, como criança fazendo-se homem, mas acabou por chorar em silêncio. Havia de recordar aquela cena toda a vida, fingindo acreditar que estava bêbedo, e lutaria, em pesadelos de agonia, com um fantasma ensanguentado e imortal que tinha a aparência deformada de Diana. Abriu uma cova o mais fundo que pôde. Bateram as trindades, as últimas que iria ouvir por muito tempo. Descobriu a cabeça e rezou, coisa que nunca fizera ao som dos sinos da tarde. Depois, atirou Diana para dentro da cova e fechou a ilha sobre ela.

 

Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada

publicado por Elisabete às 14:27
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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

A pedido...

Por gentileza do autor, posso satisfazer os vossos pedidos. Aqui fica um capítulo, que não chegou a ser, de O Pastor das Casas Mortas.

 

 

O queijo
 
A casa da Zélia! A cozinha da Zélia, onde as suas mãos faziam feitiços! Estava ainda ali toda a parafernália do encantamento que tornava o seu queijo o mais famoso em feiras e mercados, em lojas de migalhas e mercearias de vender aos quilos. Nas feiras, era a primeira a despachar a venda, e os fregueses esperavam por ela quando ia atrasada.
No entanto, Manuel não lhe imaginava nenhum gesto diferente dos da mãe ou das irmãs. Recompunha a cena na memória, dava-lhe uns retoques de adulto a vasculhar nos trastes do passado e via-a, na leveza volátil do seu corpo, a cirandar como abelha em voos de libelinha.
Levantava-se antes de o Sol nascer para ajudar na ordenha. Depois acendia o lume de giesta e pinho, deitava na panela o cardo esmagado que servia de coalho, e vazava o leite da ferrada coando-o através do pano branco com sal, posto na boca da panela. Talvez nunca tocasse no leite, para saber se a quentura estava no ponto certo, antes de o tirar da lareira. Pronta a coalhada, começaria então a arte do feitiço, quando a sua mão direita a desfazia, continuando a seguir ao passá-la para o cincho na francela. E os apertos para dessorar seriam como os da mãe, e o pano com que envolvia o queijo, o tempo que este demorava a reimar, a água tépida com que era lavado todos os dias e o pano novo que substituía o de cada véspera. Se ela nunca se enganava na quantidade do coalho e do sal, se calculava bem as duas, três ou quatro semanas da cura, conforme era mais ou menos o calor, ou menos ou mais o frio, a mãe tão-pouco. Por isso tinha de haver feitiço nas mãos da Zélia.
O irmão mais novo de Manuel quis uma vez tirar a limpo, na feira, se o queijo dela era mesmo melhor que o seu ou se o principal do sabor entrava primeiro pelos olhos, e nesse caso não por virtude do leite nem dos seus tratos na cozinha, não por ser melhor a madeira da francela nem os cuidados da cura, nem sequer devido às mãos que o faziam, enquanto o faziam, mas durante a venda.
Apanhando-a distraída, trocou um dos seus queijos por um dela e foi dando este a provar aos fregueses que passavam, direitos ao sorriso da Zélia ou vindos de lá já satisfeitos com o sorriso e a compra.
O primeiro freguês meteu à boca o pedacito que lhe fora oferecido, esmagou-o lentamente, distribuiu-o pela parte posterior dos lobos da língua, deteve-se em profunda contemplação interior, engoliu, meditou durante uns momentos, e deu a decisão: “É um bom queijo também, mas o da Zélia é melhor.” E ainda acrescentou, para que não houvesse dúvidas quanto à segurança da opinião: “Basta tocar na ponta da língua, que logo se vê a diferença.”
Desde esse até ao último provador o que não houve mesmo foi diferença na opinião e nas falas que valesse a pena referir ao contar o episódio.
 
Que longe estava agora a Zélia!... Que longe daquela casa e de si mesma, enrolada nas rugas do tempo. Enjaulada numa língua estrangeira na qual até os netos lhe repetiriam todos os dias o ditado da sentença de exilada. Corpo de gazela abaulado pela proibição do salto. Metamorfose inversa de borboleta, da liberdade do voo à asfixia do casulo. Beija-flor num jardim de pedras.
A Zélia partiu, e morreu metade da aldeia. Porque a alma da aldeia não era feita segundo a fórmula matemática da soma das partes. Só nas cidades não se sente a falta ou o ganho de mais ou menos um. Quando alguém deixava a aldeia, ela parecia ficar quase despovoada.
Mais que uma ausência, a despovoação é um sentimento.
Ela voltou lá algumas vezes. Mas voltou apenas enquanto houve gente naquela casa que pudesse sentir a tristeza da chegada. (A chegada que não é de ficar é quase tão triste como a partida. )
No último ano em que estivera na aldeia, prevenira Manuel de que os seus pés decerto não tocariam outra vez tais pedras nem tais atalhos. Vir tão longe para ver tão poucas pessoas, por mais que lhe custasse por elas e pelo cenário dos seus melhores anos, não valia a pena. E chorara, sem lágrimas, o tempo antigo. Ele corrigira-a: “Não tens saudades desse tempo. Tens saudades é da idade que tinhas nesse tempo.”
Zélia concordara. Ela nunca discordara dele, apesar de ser mais velha, o que, pelas normas, queria dizer mais sábia. Mas ainda a emocionava aquela paisagem imensa que fazia a Aldeia Nova da Serra parecer muito maior do que Lisboa ou Paris. E pediu que lhe dissesse o poema do príncipe. Ele fez-lhe a vontade.
 
“Era uma vez
um príncipe valente.
Vivia em seu castelo
numa alta montanha.
Dali via-se o mundo,
o mundo muito longe.
E o mundo visto assim
parecia-lhe bom.
Desceu a conquistá-lo
no seu cavalo branco.
E essa parte do mundo
que os seus olhos não viam
matou-lhe o seu cavalo,
o seu cavalo branco
que era uma cana verde.”
 
Também ela perdera o seu cavalo branco. Já não podia regressar.
 
                                                                                 Daniel de Sá

 

publicado por Elisabete às 14:54
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Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

DANIEL DE SÁ condecorado a 10 de Junho

O escritor açoriano Daniel de Sá foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Infante D. Henrique, a 10 de Junho, em Angra do Heroísmo. As cerimónias de entrega das condecorações realizaram-se, pela primeira vez em separado nas Regiões Autónomas, num sinal de "reconhecimento e respeito por estas terras e por estas gentes", como explicou o Representante da República, José António Mesquita.

Congratulando-me com este merecido reconhecimento da obra de Daniel de Sá, por parte da República Portuguesa, deixo aqui um dos seus belíssimos textos e um abraço de parabéns.


 

 

O TEAR
No tear abandonado, só as aranhas voltaram a tecer. E elas mesmas tinham abandonado também as suas mantas de fios como redes de pescar na praia de um mar sem peixe.
Madalena tecera mantas e fama até muito longe. Na freguesia, era conhecida como a Tecedeira da Serra, longe, era a Tecedeira de Quintais. Não gostava de que a chamassem assim, mas não protestava porque não servia de nada. A fama valia-lhe o proveito de ter as mantas sempre de encomenda, às vezes de lugares de que nem soubera o nome antes. Depois dessa fama, viveu com outra, muito má. Não por razões semelhantes às da santa do Evangelho, porque ela mal tinha tempo para os deveres conjugais e suas consequências regulares. Chegou a trabalhar de lua a lua, que de sol a sol havia a casa para cuidar, o queijo para fazer, os filhos e o marido para alimentar. Tanto mais que o destino lhe pregara uma pirraça. Nem de propósito, enquanto a maior parte dos casais esperava, por vezes em vão, filhos machos para os trabalhos duros da serra e das courelas, ela teve três rapazes antes de que Deus lhe desse uma menina.
Manuel Cordovão lembrava-se vagamente. Andaria ele pelos cinco ou seis anos, passou um ministro em Quintais a levar cumprimentos de Lisboa. Haveria de parar na Aldeia Nova do Vale, para receber os desta aldeia e dos pastores da serra. O presidente da junta quis que fosse oferecido ao senhor ministro o melhor que na sua freguesia era produzido. Não faltaram alguns com excelentes queijos, mas isso era coisas de se comer e esquecer depressa. Uma manta, que aquecesse sua excelência no Inverno e lhe enfeitasse a cama no Estio, seria a recordação ideal de um povo trabalhador e artista, para que ele soubesse até onde Portugal podia contar com a sua gente, se bem que a sua gente, ali, não pudesse contar muito com Portugal. Só era lembrada, e no caso dos homens, para o serviço do rei ou da república, quando chegava o tempo da tropa. Depois de aprenderem a dar uns tiros, os moços eram despejados de novo nos seus aposentos de pedra tosca.
O presidente da junta pediu a Madalena para oferecer uma manta ao senhor ministro. “Como ele vai ficar agradecido ao saber que houve quem pensasse nele! Pode ser até que faça um caminho melhor para a gente andar de uma aldeia a outra. Ou pelo menos um fontanário, se calhar, quem sabe, luz eléctrica…” Madalena ouvira o pedido com espanto, dizia-se. E perguntou: “Quanto ganha o senhor ministro?” O presidente da junta não sabia ao certo, mas arriscou: “Talvez uns três contos por mês.” Ela voltou os olhos para a manta que tinha no tear, e respondeu com ar de desprezo, em vez da admiração talvez esperada por uma quantia tão grande: “Eu não ganho isso num ano!...”
Ficou a amaldiçoada. Patrioticamente amaldiçoada. Fuinha, avarenta. Para provar que o não era, não aceitou encomenda para a manta que haveria de começar a seguir. Ofereceu-a à Maria dos Anjos, que era pobre e ia casar daí a um mês.
A maior parte das suas mantas passou a ser vendida sem origem definida. E não viveu o suficiente para saber que também os cravos podem ser tecidos.
 
Daniel de Sá, capítulo XXVI da novela
O Pastor das Casas Mortas

 

publicado por Elisabete às 22:30
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