Cada vez mais somos governados por pessoas que acham que governar é apenas administrar e gerir. Nomeadamente administrar e gerir um orçamento. Saídos de cursos de economia e gestão onde há muito se abandonou a dimensão social e política, acreditam mesmo que governar é gerir o estado, como quem gere uma empresa ou um orçamento doméstico.
Esta ausência aparente de ideologia é, obviamente, a forma mais perniciosa de ideologia. A que deixa o senso comum guiar as decisões, sendo que o senso comum – a “cultura”, vá, e nisso sou um antropólogo algo sui generis – é a ideologia dominante, defendendo os interesses dominantes.
Quando chegam ao governo, convencidos de que vai ser canja, são confrontados com dificuldades. Entram então em cena os camaradas de partido – ou simplesmente a gente de partido, já que a tendência é para contratar governantes-administradores fora dos mesmos – que os avisam de que “há também a política”.
Só que a política a que se referem é, na verdade, a “politiquice”, o jogo de equilíbrios, influências e favores das disputas por poder dentro dos partidos enquanto máquinas de carreiras.
Eventualmente fartos disso, os “técnicos” abandonam o barco, depois de muita destruição, e regressam às empresas ou ao ensino da economia e da gestão (dantes era mais o direito, mas na realidade a diferença não é muita) enquanto suposta neutralidade objetiva. Lá fica a gente de partido órfã, até à chegada de um novo messias da tecnicalidade.
O que nem os técnicos nem a gente de partido percebem é que em momento algum estiveram a fazer política. Só gestão ou politiquice. Fazer política é, desde logo, “fazer” ética, aplicar valores, implementar uma visão do mundo. Nunca ouvimos, nem ouviremos (salvo exceções freelance) dos tais técnicos ou da tal gente de partido, afirmações sobre ética, valores e visões.
Desde logo – e, se calhar, por fim – porque nem a filosofia, nem as humanidades, nem as ciências sociais (e, sobretudo, a economia enquanto ciência social) lhes foram ensinadas. Talvez por isso mesmo estas sejam desprezadas e progressivamente afastadas das prioridades educativas e de política científica – pois se não servem para nada, isto é, para a gestão do orçamento vista como tecnicalidade ou o exercício da política visto como profissão e carreira…
A check list de tarefas para a construção e gestão de um orçamento e para a construção e gestão da governação deveria começar com dois itens: que valores defendemos?; e que tipo de sociedade imaginamos ser justa? A política ou é ética (no sentido estrito da palavra, não apenas no sentido corriqueiro de “comportamento honesto) ou não é nada.

Era possível acabar com esta crise já. Se “eles” quisessem [Paul Krugman]
Os instrumentos económicos existem mas a opinião política dominante proíbe o fim da crise. Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia, apela ao fim dessa corrente austeritária, sacrificial e assassina de empregos. Ana Sá Lopes leu e gostava de assinar por baixo
Nestes últimos três anos caiu-nos uma depressão em cima da cabeça, e o que fizemos? Procurámos culpados. O “viver acima das nossas possibilidades” e “os malefícios do endividamento” são duas cantigas populares dos últimos anos. E, no entanto, antes de a crise ter rebentado na América e de se ter propagado à Europa, o nível de endividamento de alguns dos países do sul da Europa, como Portugal e Espanha, tinha vindo a reduzir-se. Os gráficos estão lá e mostram que sim (como mostram que o gigante alemão também está fortemente endividado). Mas porque é que as pessoas não querem acreditar nisto? Nem sequer apreender o facto de terem sido “praticamente todos os principais governos” que, “nos terríveis meses que se seguiram à queda do banco de investimento Lehman Brothers, concordaram em que o súbito colapso das despesas do sector privado teria de ser contrabalançado e viraram-se então para uma política orçamental e monetária expansionista num esforço para limitar os danos”? A Comissão Europeia e a Alemanha estavam “lá”. E, de repente, tudo mudou.
Uma das maiores dificuldades de lidar com esta crise é, em primeiro lugar, o facto natural de tanto o cidadão comum como Jesus Cristo não perceberem nada de finanças, a menos quando lhe vão ao seu próprio bolso (ou perde o emprego). A outra é o poder da narrativa do “vivemos acima das nossas possibilidades”, aquilo a que Krugman chama a “narrativa distorcida” europeia , “um relato falso sobre as causas da crise que impede verdadeiras soluções e conduz de facto a medidas políticas que só pioram a situação”. Krugman ataca “uma narrativa absolutamente errada”, consciente de que “as pessoas que apregoam esta doutrina estão tão relutantes como a direita americana em ouvir a evidência do contrário”.
Três quartos do livro-manifesto “Acabem com esta crise já” é dedicado aos Estados Unidos, pátria de Krugman. Mas tendo em conta o nosso “interesse nacional”, centremo-nos no que diz sobre a Europa.
Krugman refuta a explicação popular e maioritária sobre a situação actual na Europa – países sob tutela de troika e pedidos de resgate à média de dois por ano. “Eis, então, a Grande Ilusão da Europa: é a crença de que a crise da Europa foi essencialmente causada pela irresponsabilidade orçamental. Diz essa história que os países europeus incorreram em excessivos défices orçamentais e se endividaram demasiado – e o mais importante é impor regras que evitem que isto volte a acontecer”.
Krugman aceita que a Grécia (e Portugal, “embora não à mesma escala") incorreu em “irresponsabilidade orçamental”, mas recusa a “helenização” do problema europeu. “A Irlanda tinha um excedente orçamental e uma dívida pública reduzida na véspera do deflagrar da crise (...) A Espanha também tinha um excedente orçamental e uma dívida reduzida. A Itália tinha um alto nível de endividamento herdado das décadas de 1970 e 1980, quando a política era realmente irresponsável, mas estava a conseguir fazer baixar de forma progressiva o rácio do endividamento em relação ao PIB”. Ora um graficozinho do FMI demonstra que, enquanto grupo, “as nações europeias que se encontram actualmente a braços com problemas orçamentais conseguiram melhorar de forma progressiva a sua posição de endividamento até ao deflagrar da crise”. E foi só com a chegada da crise americana à Europa que a dívida pública disparou. Explicar isto aos “austeritários” é uma tarefa insana. Diz Krugman: “Muitos europeus em posições-chave – sobretudo políticos e dirigentes na Alemanha, mas também as lideranças do Banco Central Europeu e líderes de opinião espalhados pelo mundo das finanças e da banca – estão profundamente comprometidos com a Grande Ilusão e nada consegue abalá-los por mais provas que haja em contrário. Em consequência disso, o problema de responder à crise é muitas vezes formulado em termos morais: as nações estão com problemas porque pecaram e devem redimir-se por via do sofrimento”. Ora é esta exactamente a história que nos conta o governo e que é, segundo Paul Krugman, “um caminho muito mau para se abordar os problemas que a Europa enfrenta”.
Ao contrário do que muita gente possa pensar, Krugman não é um perigoso socialista. E, céus, até defende a austeridade (alguma, mas não esta). Vejam como ele explica a crise espanhola, que considera a crise emblemática da zona euro: “Durante os primeiros oito anos após a criação da zona euro a Espanha teve gigantescos influxos de dinheiro, que alimentaram uma enorme bolha imobiliária e conduziram a um grande aumento de salários e dos preços relativamente aos das economias do núcleo europeu [Alemanha, França e Benelux]. O problema essencial espanhol, do qual derivam todos os outros, é a necessidade de voltar a alinhar custos e preços. Como é que isso pode ser feito?”. O Nobel explica: “Poderia ser feito por via da inflação nas economias do núcleo europeu. Imagine-se que o BCE seguia uma política de dinheiro fácil enquanto o governo alemão se empenhava no estímulo orçamental; isto iria implicar pleno emprego na Alemanha mesmo que a alta taxa de desemprego persistisse em Espanha. Os salários espanhóis não iriam subir muito, se é que chegavam a subir, ao passo que os salários alemães iriam subir muito; os custos espanhóis iriam assim manter-se nivelados, ao passo que os custos alemães subiriam. E para a Espanha seria um ajustamento relativamente fácil de fazer: não seria fácil, seria relativamente fácil”.
Ora, esta maneira “relativamente fácil” de resolver a crise europeia tem estado condenada (vamos ver o que se segue ao novo programa de compra de dívida do BCE, criticado pelo presidente do Bundesbank) pela irredutibilidade alemã relativamente à inflação, “graças às memórias da grande inflação ocorrida no início da década de 1920”. Krugman lembra bem que estranhamente “estão muito mais esquecidas as memórias relativas às políticas deflacionárias do início da década de 1930, que foram na verdade aquilo que abriu caminho para a ascensão daquele ditador que todos sabemos quem é”.
O que trama as nações fracas do euro (como Espanha e Portugal) é, não tendo meios de desvalorizar a moeda – como fez a Islândia no rescaldo da crise com sucesso – estão sujeitas ao “pânico auto-realizável”. O facto de não poderem “imprimir dinheiro” torna esses países vulneráveis “à possibilidade de uma crise auto-realizável, na qual os receios dos investidores quanto a um incumprimento em resultado de escassez de dinheiro os levariam a evitar adquirir obrigações desse país, desencadeando assim a própria escassez de dinheiro que tanto receiam”. É este pânico que explica os juros loucos pagos por Portugal, Espanha e Itália, enquanto a Alemanha lucra a bom lucrar com a crise do euro – para fugir ao “pânico” os investidores emprestam dinheiro à Alemanha sem pedir juros e até dando bónus aos alemães por lhes deixarem ter o dinheirinho guardado em Frankfurt.
Se Krugman defende que “os países com défices orçamentais e problemas de endividamento terão de praticar uma considerável austeridade orçamental”, defende que para sair da crise seria necessário que “a curto prazo, os países com excedentes orçamentais precisam de ser uma fonte de forte procura pelas exportações dos países com défices orçamentais”.
Nada disto está a acontecer. “A troika tem fornecido pouquíssimo dinheiro e demasiado tardiamente” e, “em resultado desses empréstimos de emergência, tem-se exigido aos países deficitários que imponham programas imediatos e draconianos de cortes nos gastos e subidas de impostos, programas que os afundam em recessões ainda mais profundas e que são insuficientes, mesmo em termos puramente orçamentais, à medida que as economias encolhem e causam uma baixa de receitas fiscais”. Conhece esta história, não conhece?
Ana Sá Lopes [24 Set 2012]
O euro é um projecto insustentável, por duas razões principais. Em primeiro lugar, porque permitiu a acumulação de desequilíbrios muito superiores ao que existiriam com moeda própria. A Grécia jamais poderia acumular as dívidas que hoje tem, a Irlanda jamais assistiria a uma tão grande expansão do seu sistema bancário, Portugal jamais poderia ter uma dívida externa de 100% do PIB, Espanha nunca teria embarcado numa tão grande bolha imobiliária. Mas, mais grave do que permitir desequilíbrios maiores, o euro deixa os países com menos instrumentos para os corrigir, em particular o instrumento cambial, o que torna as correcções muitíssimo mais difíceis.
Em segundo lugar, com moeda própria, a variável que sinaliza os problemas – a taxa de câmbio – ajuda a resolver esses mesmos problemas. No euro, a variável que serve de alerta – a taxa de juro de longo prazo – agrava todos os desequilíbrios. Quando percebi este aspecto, nos finais de 2010, fiquei convencido de que os dias do euro estavam contados.
Há quem imagine que há soluções para os problemas do euro, mas se há soluções tecnicamente viáveis, elas são politicamente impossíveis.
Dado o melindre de escrever sobre o fim do euro, adiei ao máximo isso, mas em Dezembro do ano passado comecei a escrever um livro sobre isso, que deveria estar pronto em Abril. Vicissitudes várias fizeram com que o projecto se atrasasse e só este mês deverá estar disponível, com o título "O fim do euro em Portugal?", numa edição da Actual Editora, do Grupo Almedina.

Apesar do ponto de interrogação no título estou firmemente convencido, não só de que o euro deixará de ser a moeda em Portugal, como de que isso ocorrerá até ao final deste ano.
Os problemas estruturais do euro estão lá, mas as autoridades europeias têm-se esmerado em tornar as coisas ainda piores. Mario Draghi, tinha-nos pedido para acreditarmos nele, que o BCE tudo faria para preservar o euro. Afinal o BCE pondera voltar a comprar obrigações dos países em dificuldades, mas apenas DEPOIS de estes pedirem ajuda, que virá sob fortes restrições. Então a intervenção do BCE não era para evitar que estes Estados chegassem ao ponto de ter de pedir auxílio?
O ministro alemão da Economia e o presidente do Eurogrupo, Juncker, consideram que a saída da Grécia do euro é "gerível". Importam-se de repetir? Se a Grécia sair do euro, isso pode bem desencadear um processo de desintegração do euro. Mas, se isso não acontecer, e isto é que é um dos maiores dramas, há muitos mais acontecimentos que podem colocar em marcha a desagregação do euro: um pedido de resgate pleno de Espanha, para o qual não há fundos suficientes; subida vertiginosa das taxas de juro em Itália; na Holanda, nas eleições de 12 de Setembro, vitória do partido que defende a saída do país do euro; veto do Tribunal Constitucional alemão às condições de expansão das competências dos fundos europeus de resgate; etc., etc., etc.
08/Agosto/2012
Pedro Braz Teixeira [*]
[*] Investigador do NECEP da Católica Lisbon School of Business and Economics (as opiniões expressas no texto não vinculam o NECEP). Foi assistente na Faculdade de Economia da UNL, economista-chefe do Banco Santander Totta e adjunto da ex-ministra das Finanças Dra. Manuela Ferreira Leite. Actualmente é economista independente.
Tem o blog individual Abelhudo , e colabora no blog colectivo O Cachimbo de Magritte.
Email: pbteixeira3@gmail.com
O original encontra-se em
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=572565
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/
Portugal pelo olhar de Medina Carreira:
[...] a ideia que lhe martelava a cabeça era a da rentabilização do pessoal e a racionalização de recursos.
A forma eufemística de dizer que iam despedir pessoas. Criar desemprego para criar riqueza, criar pobreza para enriquecer, o sólido princípio da economia contemporânea.
João Aguiar, O Priorado do Cifrão
* Outros BLOGUES onde estou...
* MEMÓRIAS
* RECANTOS
* BLOGUES COM "EDUCAÇÃO"
* Ecos
* Movimento dos Professores Revoltados
* Movimento Mobilização e Unidade dos Professores
* Não calarei a minha voz... até que o teclado se rompa
* Paideia:reflectir sobre Educação
* Sem Rede
* IMPRENSA
* Expresso
* Público
* Visão
* OUTROS BLOGUES
* Murcon
* SÍTIOS
* Arquivo Maria de Lourdes Pintasilgo
* G.A.I.A.
* Era possível acabar com e...
* Apertar o cinto... PARA Q...
* Falar politicamente incor...