Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017

CRISE TRAZ CUNHALISMO DE VOLTA

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PCP regressa às origens e recentra discurso na defesa do patriotismo

Ana Paula Correia

apc@jn.pt

 

A crise e a troika trouxeram de volta ao PCP o reforço do discurso do patriotismo, num regresso às origens e ao “cunhalismo”. Uma orientação que coincide com o centenário de Álvaro Cunhal, que hoje se comemora.

Historiadores e antigos dirigentes ouvidos pelo JN convergem na ideia de que a situação de dependência em que se encontra o país é o terreno fértil para que a actual direcção do PCP aproveite o centenário do líder histórico para “voltar às origens” e consolidar a identidade partidária.

É nesse contexto que o discurso político comunista se recentrou na defesa do patriotismo, ilustrada no slogan “Por uma política patriótica e de Esquerda”.

O historiador José Neves, antigo militante do PCP, sublinha que foi essa linha de identidade nacional que “Cunhal garantiu a resistência do partido à queda da União Soviética e é com a mesma orientação que Jerónimo tenta polarizar à Esquerda, num quadro de intervenção externa no país”.

Se é verdade que “o patriotismo teve sempre uma presença no partido com ou sem Cunhal”, como lembra Octávio Teixeira, antigo líder parlamentar no consulado de Carlos Carvalhas, a conjuntura era outra. É que não era preciso cerrar fileiras contra a agressão externa”.

 

DIRIGENTES //CUNHALISTAS

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Também Carlos Brito, o histórico dirigente que se afastou do partido em 2002, considera que esta aproximação pública ao “cunhalismo” por parte da direcção de Jerónimo é circunstancial. Brito não subscreve a tese de que há um regresso ao legado ideológico de Cunhal. Pelo contrário, lamenta que “não se retire o melhor do pensamento” do líder histórico, o que “reflecte um vazio ideológico”. E acusa os dirigentes de usarem “de forma incompleta e fora do contexto” alguns pensamentos de Cunhal. Ou seja, “num culto da personalidade usado para capitalizar o descontentamento nacional pela crise e a ingerência da troika”.

Na mesma linha de pensamento, o historiador João Madeira, que já militou no PCP, duvida que a aproximação a Cunhal seja ideológica. “É instrumental numa tentativa de consolidação da identidade partidária para polarizar o descontentamento em relação à crise”.

A ideia de que há culto da personalidade na comemoração do centenário de Cunhal é rejeitada por Manuel Loff, historiador próximo do PCP, que assume, no entanto, existir “estratégia e empenho particular na gestão da comemoração” como forma de “reforçar a identidade do partido”.

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O rapaz sem medo que sempre quis ser comunista

Uma das inúmeras palestras que Álvaro Cunhal deu em universidades e escolas nos anos 1990, foi perturbada por uma ameaça de bomba. Encarou a provocação com um sorriso quase displicente.

“Nunca tive medo. Essa é a palavra que não vejo que me possa ser aplicada”, diria num colóquio, em 1997.

Que poderia temer, ao cabo de tantos anos de vida, décadas de exílio e clandestinidade, 12 anos de prisão – oito em isolamento – três prisões e torturas?

Nascido em Coimbra a 10 de Novembro de 1913, Álvaro Cunhal – cujo centenário o Partido Comunismo Português (PCP) assinala hoje com um Comício no Campo Pequeno, em Lisboa – enfrentou o risco desde muito cedo.

Aderindo ao PCP aos 17 anos, através da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas, da qual será secretário-geral em 1935, apresenta neste ano, no Senado da Universidade de Lisboa (em cuja Faculdade de Direito entrara em 31), uma proposta para a extinção da organização fascista Acção Escolar Vanguarda. E é delegado ao VI Congresso da Internacional Comunista Juvenil, em Moscovo.

Em 1936, vai a Espanha tratar da libertação de camaradas presos em Cáceres e envolve-se durante meses na resistência ao levantamento franquista. No regresso clandestino, com apenas 23 anos, é preso e torturado. Libertado em 1938, é forçado, no ano seguinte, a cumprir o serviço militar na Companhia Correccional de Penamacor.

Preso novamente em 1940, prepara a tese de licenciatura na Penitenciária de Lisboa, mas recusa defendê-la noutro local que não seja a sua faculdade. Embora comprometidos com o regime, professores como Marcelo Caetano aprovam com 16 valores a tese sobre o aborto.

A partir daqui, o trabalho político intensifica-se. Mergulha na clandestinidade e participa activamente na organização do PCP, especialmente no Norte do país, a partir de 1942. Mas a organização sofre um rude golpe, com a captura de Cunhal, Militão Ribeiro e outros quadros, em assaltos da PIDE a casas clandestinas do partido em 1949.

Julgado em 2 e 9 de Maio de 1950, faz a sua própria defesa e reverte o libelo: “o nosso povo pensa que, se alguém deve ser julgado (…), que se sentem os fascistas no banco dos réus”.

Na prisão, que cumpre na Penitenciária de Lisboa, até 1956, e no forte de Peniche, sofre o isolamento durante oito anos, tratamentos médicos insuficientes e alimentação deficiente. Mas resiste. Estuda, reflecte, escreve, pinta e prepara meticulosamente a fuga com outros camaradas. A 3 de Janeiro de 1960, dez quadros do PCP realizam a mais espectacular e humilhante evasão.

Álvaro Cunhal e outros quadros vivem clandestinamente no país até 1961, mas acaba por exilar-se para dirigir o partido a partir do exterior, embora tivesse regressado secretamente várias vezes.

A 30 de Abril de 1974, é recebido em festa por milhares de pessoas no aeroporto de Lisboa. Na sua primeira alocução, saudou “todos aqueles que sofreram perseguições”.

Morreu a 13 de Junho de 2005, comunista como sempre quisera ser. ALFREDO MAIA

 

UMA CARTA DA PRISÃO

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A Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto vai lançar o livro “Cunhal/Cem Anos/100 palavras”.

Com pequenos textos sobre palavras-chave, abre com uma carta inédita do dirigente e intelectual comunista ao pai e à irmã Eugénia. Oferecida ao investigador Victor Pinho e pertencendo ao espólio da Biblioteca de Barcelos, o documento, datado de 23 de Agosto de 1951, na Penitenciária de Lisboa, é uma singular carta familiar de prisão. Num registo carinhoso, alude às preocupações de saúde. Mas a menção ao incómodo do vento “soprando do Norte” pode referir-se à arriscada candidatura de Ruy Luís Gomes à Presidência e à violenta repressão da PIDE sobre ela.

Partilhando elementos dos estudos sobre questões agrárias, a pretexto de uma pretensa visita da família à feira de Barcelos, alerta: “Conheço essa boniteza pitoresca de bilhete postal (…) Mas sei também que esse Minho é o Minho dos caseiros e dos terços e dos `quintos’ e das hipotecas”, explorados pelos grandes proprietários. A.M.

 

[ESCRITOR E PINTOR]

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 Manuel Tiago

Seguiu o exemplo do pai muito para lá da faceta de resistente ao fascismo. Tal como Avelino da Costa Cunhal, licenciou-se em Direito e destacou-se nas Artes, principalmente como escritor e sob o pseudónimo de Manuel Tiago (só revelado em 1994).

Publicadas após o 25 de Abril, são obras marcantes o romance “Até Amanhã, Camaradas”, em grande parte escrito na prisão de Peniche e, agora, recuperado por Joaquim Leitão para o cinema (depois da série televisiva, em 2005), e a novela “Cinco Dias, Cinco Noites”, que José Fonseca e Costa adaptou para o cinema em 1996. São ainda da sua autoria o romance “A Estrela de Seis Pontas” e a colectânea de contos “Fronteiras”.

Tradução do “Rei Lear”

Data de 1962 a primeira publicação da tradução que fez da tragédia “Rei Lear”.

Incluída nas “Obras de Shakespeare”, edição da Tipografia Scarpa, a tradução não foi, naquela época, atribuída ao histórico do PCP. Realizado entre 1954 e 1955, quando estava preso em Lisboa, o trabalho foi publicado como sendo de Maria Manuela Serpa. O nome de Cunhal seria assumido muito mais tarde. 

“Desenhos de prisão”

Carvão e grafite sobre papel foram os materiais que usou nos “Desenhos da prisão”, publicados sob esse título em 1975 e executados entre 1951 e 1959, em reclusão. O povo é o tema dominante, mas, quando se trata de figuras individuais, a mulher é quase sempre a protagonista. Estes desenhos inserem-se na estética neo-realista, na linha da capa que fez para a primeira edição de “Esteiros” (1941), de Soeiro Pereira Gomes. ISABEL PEIXOTO

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Anúncio do JN ajudou a denunciar prisão

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A CIDADE recebeu apoteoticamente o secretário-geral do Partido Comunista Português”. É assim que começa a reportagem do “Jornal de Notícias” sobre a deslocação de Álvaro Cunhal ao Porto, em 22 de Junho de 1974, contabilizando “muitos milhares de pessoas” na Praça do Município e no comício do Palácio de Cristal.

Era a primeira vez que estava no Porto em liberdade e às claras. Noutras, estivera clandestino, em trabalho partidário no Porto e no Norte, desde 1942. Ou trazido às ocultas pela PIDE, com Militão Ribeiro e Sofia Ferreira, para os calabouços da Rua do Heroísmo, depois da sua prisão numa casa clandestina no Luso (25 de Março de 1949). O paradeiro do Porto foi dado a conhecer à família – via JN e “O Primeiro de Janeiro” – através de um hábil estratagema dos antifascistas Virgínia Moura e Lobão Vital.

Num anúncio pago, inserido no dia 30, fizeram constar que o advogado “Álvaro Cunhal Duarte” (Duarte fora um pseudónimo da clandestinidade) agradece aos amigos “os cuidados que têm manifestado pelo seu estado”.

De imediato, o pai, Avelino Cunhal, põe-se a caminho do Porto e a polícia política acaba por deixar de poder ocultar a prisão, fazendo publicar uma nota sobre a detenção daqueles quadros (JN, 31/4/1949). Aqui foi sujeito a interrogatório sob tortura, mas resistiu e nada revelou, pelo que foi levado durante o mês de Abril seguinte para a Penitenciária de Lisboa. Voltaria ao Porto clandestinamente e teria vivido aqui entre Fevereiro e Maio de 1961.

 

AFÁVEL e ouvinte atento, arguto na análise política

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ERA UM HOMEM de um relacionamento absolutamente fácil – afável e amável. Estava atento aos problemas pessoais dos quadros e de toda a gente” e de “grande argúcia política”. É assim que Agostinho Lopes, quadro comunista do Norte, que trabalhou nos órgãos centrais com Álvaro Cunhal, recorda o líder, com quem se encontrou pela primeira vez no final de 1974.

Desmobilizado do Exército, onde o 25 de Abril o encontrara como alferes-miliciano, este engenheiro e já militante do PCP, Lopes é destacado para a Direcção da Organização Regional do Norte, onde fica responsável pela área da agricultura – uma das predilectas de Cunhal, nota.

Surpreendido com a extensão e a densidade dos dados estatísticos do estudo “Contribuições para o Estudo da Questão Agrária”, elaborado na prisão, destaca a contribuição da obra para a visibilidade de problemas como a dimensão e posse da propriedade e as condições dos camponeses.

O primeiro contacto com Álvaro Cunhal ocorre em 29 de Dezembro, na 1ª Conferência dos Camponeses do Norte. E prossegue nas reuniões regulares da comissão de agricultura junto ao Comité Central, nas quais Cunhal participa. “Tinha uma extraordinária capacidade para ouvir e ouvia com paciência e humildade as informações de todo o país.”

O momento mais “empolgante” partilhado foi a campanha eleitoral de 1987, na qual Lopes era cabeça de lista em Vila Real. A caravana na região foi bem recebida e o comício encheu. “Foram momentos de grande exaltação”. Mas “os resultados não corresponderam”: Cavaco Silva teve a primeira maioria absoluta.

Eleito para a Comissão Política (1990), Agostinho Lopes viveu os momentos de “tensão e muito grande preocupação com as rupturas na União Soviética”. Cunhal desenvolveu “um grande esforço de racionalização na compreensão dos acontecimentos”, especialmente o desmoronamento do Bloco Socialista e os efeitos na alteração na correlação de forças. A.M.

 

Evocação da DORF

Ontem, no âmbito das comemorações do centenário do ex-secretário-geral do PCP, a Direcção da Organização Regional do Porto do PCP promoveu, no Salão do Clube dos Fenianos Portuenses, uma sessão evocativa do contributo de Cunhal para a luta dos trabalhadores já depois do 25 de Abril. A sessão incluiu a exibição de um filme alusivo às visitas de Cunhal ao Norte entre 1974 e 1984. “Nos momentos mais difíceis vividos sobre a tirania fascista, o Porto deu elevadas provas da sua fidelidade aos ideais democráticos de combatividade, da sua inabalável confiança no futuro”, afirmou Cunhal em 1974.

O líder comunista voltou várias vezes, já como membro do Primeiro Governo Provisório, para comícios, congressos e para a primeira Festa da Alegria, em Braga.

Em Abril de 1976, reforçou a importância da defesa da Constituição Portuguesa. “Representa uma grande vitória dos trabalhadores porque, com a sua luta, levaram a cabo e tornaram irreversíveis transformações profundas das estruturas económicas e sociais”.

A 25 de Março de 1977, desmascarou a “política de recuperação capitalista” de Mário Soares, cujo governo cairia oito dias depois.

ALFREDO MAIA e HELENA TEIXEIRA SILVA 

publicado por Elisabete às 15:41
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Terça-feira, 30 de Junho de 2015

1967 FÉ DE PEDRA

 

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A França, onde o Sagrado Coração de Jesus se manifestou, foram os do Porto

buscar o começo de uma nova igreja

 

Uma pedra será mais do que isso, mero bloco granítico a partir do qual se constrói a casa, seja esta dos homens ou da divindade. Uma pedra pode remeter-nos à penitência de Sísifo, condenado a repetidamente levar o mesmo monolito ao cume da mesma montanha, mas pode também lembrar-nos a fé dos de há quase cinquenta anos, que do Porto foram a França buscar o alicerce basilar da sua igreja. A pedra que aqui mostramos, primeira de um moderno templo que viria a representar, na Invicta, novo paradigma da arquitectura religiosa assinado pelo arquitecto Luís Cunha, que poucos anos depois teria nova expressão na Igreja Paroquial de Cedofeita, assinada por Eugénio Alves de Sousa. Mas a primeira pedra da nova igreja do Carvalhido, que é dessa que aqui falámos, é mais do que um fragmento de arquitectura, antes foi uma expressão de fé. Consagrado ao Sagrado Coração de Jesus o templo, à localidade de Paray-le-Monial foram peregrinos, em 1966, buscar o bloco que aqui vemos, um ano depois, na cerimónia simbólica de arranque da construção. Porque naquela distante terra se acredita que Cristo apareceu de peito aberto a Margarida Maria Alacoque, que viveu no século XVII e é santa desde 1920. Num pedaço de granito, "o coração que tanto amou os homens", como se acredita que Cristo disse à vidente, mas também a perseverança dos que quiseram dar à sua casa de oração uma essência de divindade. Foi em Junho de 1967 que, como noticiava o JORNAL DE NOTÍCIAS, "as principais autoridades civis e militares" do Porto assistiram à bênção da pedra, protagonizada pelo bispo Florentino de Andrade Silva, administrador apostólico da dioceses. O bispo diocesano, D. António Ferreira Gomes, afrontara Oliveira Salazar e vivia no exílio, em Espanha e França, desde 1959. Só regressaria dois anos depois desta cerimónia, beneficiando da relativa abertura a que se chamou "primavera marcelista", ainda a tempo de assistir ao final da construção da igreja do Carvalhido.

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 A nova Igreja do Carvalhido

publicado por Elisabete às 22:59
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Quarta-feira, 13 de Novembro de 2013

Andanças para a Liberdade II

Esta apresentação, que aqui deixo escrita, sobre o livro do amigo e companheiro Camilo Mortágua, é a continuação do texto que fiz sobre o 1º volume das Andanças que trata do período entre 1934 a 1961.

Trata-se do resumo do livro, tal como o seleccionei, mas quis dar a “verbe” pessoal da narrativa ao autor e daí as longas citações.

Não é nem um estudo literário nem uma crítica histórica. É, antes de mais, uma ficha de leitura que utiliza retalhos da história de vida, escrita pelo seu próprio autor. É assim um resumo descritivo.

Pretendo, com este texto, fazer uma apresentação de cerca de meia hora como se tratasse de um clube de leitura dos meus tempos de juventude, em que um dos participantes fazia o resumo dum livro e a partir daí desenvolvia-se um debate. Isto era, naqueles tempos do fascismo, uma maneira de improvisarmos uma “catedral proletária”, conceito que no séc. XIX, nos meios operários, veio a gerar as conhecidas universidades populares.

Este livro do Mortágua, história de vida e história de ensino, tem a singularidade de ser um extraordinário documento para o entendimento da luta antifascista.

E, para melhor saborear este texto vivido, é necessário ouvir o testemunho directo do seu autor. A sua escrita, tão rica de imagens e de oralidade, torna esta prosa imprescindível para compreender a profundidade de uma experiência de vida, de suor e de lágrimas mas também de humor, coragem e amor que aqui vamos conhecer.

  Na recensão sobre o primeiro volume escrevi que, por detrás da linguagem coloquial e espontânea de Camilo Mortágua, a oralidade presente na sua narrativa surpreendia pela profundidade que ela revelava.

Camilo Mortágua usa uma metodologia perspicaz que lhe permite um alargamento da consciência a que Platão se refere num dos seus diálogos filosóficos. Assim como Platão pretende chegar à consciência pela capacidade de distanciamento do instinto, das emoções e da inteligência com o socorro dessas três componentes antropológicas do “Eu”, Camilo Mortágua utiliza os três elementos que constituem o que ele designa por “CAAC” (Colectivo de Auto Análise Comportamental) e que se refere aos seus três heterónimos que lhe permitem uma tomada de consciência mais ampla e reflexiva: “Come e Cala”, o “Batata” e “Zé Ninguém”.

Para obter esta consciência mais ampla e reflexiva, Camilo Mortágua escuta a vivência integral do seu ser: o instinto, as emoções e a inteligência, obtendo assim olhares diversificados para ver e prever as situações. Procura explicar a sua própria viagem. Assim, tal como Platão na sua metáfora sobre a articulação complementar do “coche”, dos “cavalos”, do “cocheiro” e do “rei”, também Camilo Mortágua sabe que para uma maior consciência é necessário dialogar com os vários heterónimos que constituem a sua própria personalidade complexa. 

A comparação metafórica de Platão é a seguinte:

  1. O “coche”, instinto, é o corpo mecânico em que cada um de nós se desloca;
  2. Os “cavalos” são as emoções, força viva dos afectos contraditórios e temperamentos desiguais que marcham nestes animais atrelados ao veículo;
  3. O “cocheiro”, inteligência intelectual, harmoniza as funções múltiplas do “coche”, dos “cavalos” e dos “arreios” (rédea e chicote) próprias da sua competência.
  4. O “rei”, que se encontra dentro do veículo, é o “eu superior” ou seja, a consciência reflexiva que ilumina a marcha e dá sentido à viagem a fazer.  

Este segundo volume começa em 1961. “1961 O Ano Que Mudou Portugal” como escreveu João Céu e Silva é também o ano em que uma grande mudança se operou em Camilo Mortágua.

“29 de Janeiro de 1961”, como escreve Camilo Mortágua, “era um domingo luminoso. Um fim de tarde cinematográfico.” Como se pode ver, esta escrita transporta os factos históricos para um cenário real que nos surge agora como uma espécie de filme de suspense.

A força das imagens, a sedução encantatória dos ambientes e a acção permanente deste enredo vivenciado, transforma-nos a nós em personagens do próprio filme dos acontecimentos.

 

…num mar calmo azul celeste, pintalgado de faíscas de branca espuma, um ou outro pássaro esvoaçando em busca de abrigo para a noite, o Santa Liberdade, a baloiçar muito docemente, quase tão quieto como se estivesse ancorado no cais de Alcântara, quieto mas livre, em águas internacionais, uma meia centena de milhas ao largo do Recife.

Reunidos à proa num canto do deck superior (eu e os inseparáveis companheiros do meu “colectivo de auto análise comportamental” – CAAC) desfrutávamos da leve brisa que até nós trazia os acordes e as palavras da canção que amenizou os nossos dias de incertezas e encantou os animados bailes deste que foi, para a maioria dos passageiros, um inesperado e emocionante cruzeiro e, para os mais românticos e ousados, apesar do imprevisto, uma inesquecível viagem no barco do amor. (MORTÁGUA, 2013, 21)

É neste contexto que o embevecido poeta Camilo Mortágua desperta ao som do “Samba canção” de Dolores Duran que ouvia do grande salão onde decorria o animado baile: “Hoje eu quero a rosa mais linda que houver e a primeira estrela que vier para enfrentar a noite do meu bem”.

Essa tomada de consciência surge rapidamente. Retomado o triálogo do colectivo de auto análise comportamental, a narrativa vai transformando esta história de vida cada vez mais empenhada na acção política do assalto ao Santa Maria. Esta operação de primeiro plano na panorâmica histórica é-nos apresentada com um contexto das chefias desta espantosa operação revolucionária, pioneira na história da revolução – a tomada de um barco.

Galvão respondia pelos portugueses e, pelos espanhóis, respondiam os Sottomayor e o Junquera de Ambia. Em seguida assistimos às visitas que chegam para observar e divulgar o sucesso da operação.

Os americanos chegam no “monstro cinzento com grandes números pintados de branco.” Era um submarino da esquadra americana com o contra-almirante Smith, representante do Presidente Kennedy. Vinha entabular conversa com o chefe Galvão, “Sandokan das Caraíbas” como lhe chamara uma senhora americana que viajava a bordo do Santa Maria.

Depois, Camilo relata ainda o nome dos comandos que tomaram o Santa Maria e traça-lhes o perfil profissional, analisa diferenças pertinentes nas chefias e tem tempo para narrar a lírica história de um amor entre uma jovem de 18 anos, a Magda, que pretendia ficar com o seu namorado, um dos companheiros do grupo de Camilo Mortágua, já depois do desfecho da operação. Prestimoso e elegante, Camilo Mortágua aconselha-a a partir, juntando-se assim aos outros passageiros que desembarcaram.

A atmosfera romântica finaliza esta epopeia do barco Santa Maria e Santa Liberdade com a citação de Natália Correia que chamou ao Santa Maria “pedaço da terra transportuguesa, longo símbolo e prenúncio da libertação do seu povo”.

A nostalgia saudosista percorre também a comoção de Camilo Mortágua a 3 de Fevereiro de 1961, quando disseram adeus ao Santa Maria.

 

“Naquela hora, pareceu-me um barco triste. Já não era aquele Santa Maria que entrara no porto do Recife adentro engalanado de brilhantes luzes e bandeirinhas coloridas.” (Idem, pág. 34)

 

Esse tempo no Brasil teve festa e regozijos. Os homens do Santa Maria eram disputados por toda a gente. Bailes e galas carnavalescas do Rio fizeram deste período um tempo de felicidade.

Porém, as andanças para a liberdade são feitas de claro e escuro, de sobressaltos e euforias. Por isso veio também o lado cinzento das revoluções. A narrativa desta audaciosa e prometaica operação dá lugar à soturnidade da noite, das quezílias e das traições. As divergências pessoais entre os exilados Galvão e Delgado são aqui relatadas. É com uma elegância acutilante que ele descreve essa situação. É um pano de fundo histórico que ensina a amadurecer, a conhecer homens e situações. E é assim que ele vai descrevendo a sua própria transformação. Por isso, este livro é também uma história de vida que é história de ensino para si próprio e para nós leitores. E, na monotonia triste daqueles dias, vai surgir a presença de Palma Inácio que lhe proporciona uma nova etapa na sua vida.

Segue-se então a viagem para Marrocos. Chegados aqui, fixam-se em Tânger. A casa é perto do Café Zagora onde a PIDE e seus acólitos rondam e observam o paradeiro dos revolucionários que se preparam para uma nova operação. Entre confusões e indecisões Palma Inácio revela o grito do canto do homem de José Régio que Mortágua cita:

 

Livre não sou, que nem a própria vida mo consente, mas a minha aguerrida teimosia é quebrar, no dia-a-dia um grilhão da corrente (Idem, pág. 73)

 

Foi decidido o novo plano da batalha, que Henrique Galvão denominou a operação “Vagô” escrevendo também o famoso panfleto que vai ser lançado de avião sobre Lisboa. A cena da tomada do avião que iria sobrevoar Lisboa é digna dum filme de acção. Depois de várias peripécias com pistolas e passaportes no aeroporto de Tânger, entram num “superconstelation” da TAP.

 

Quando o Palma deu sinal, levantou-se e dirigiu-se para a cabine de pilotagem. Segui-o. Entramos os dois. Atrás de nós Amândio e os outros companheiros posicionaram-se para impedir o acesso à cabine.

Meus senhores, muito bom dia, diz o Palma, em nome do Capitão Henrique Galvão queremos alterar o plano deste voo. Ou obedecem e tudo se passará normalmente, ou cedem-me o comando, obrigados pela força das nossas armas. Espero que a vossa colaboração seja pronta e sem hesitações.

Tínhamos fechado a porta da cabine atrás de nós e o Palma, de arma em punho, num tom muito calmo, de pé, olhando de cima para baixo, tinha-se dirigido ao Comandante e Auxiliares, sentados de costas para nós, nos seus respectivos postos.” (Idem, p.78)

 

 

 

Esta operação permitiu uma acção de larga propaganda que muito contribuiu para o reforço do antifascismo. Os panfletos lançados sobre Lisboa foram, como diz o Mortágua, foguetes a anunciar o princípio do fim da era do ditador Salazar e o princípio da tão desejada era democrática.

Regressam então novamente a Marrocos e depois, num compasso de espera, aguardam de novo o retorno ao Brasil. Camilo conta as dificuldades que vão sofrer com os vistos e as burocracias, revelando assim os compromissos da política internacional com Salazar. Nesta contenda sobressai a figura de Henrique Galvão que Camilo Mortágua reverencia. Contrariando a maior parte das posições assumidas por outros democratas, Camilo Mortágua considera Galvão como um consequente combatente e também um esforçado anticolonialista. A carta que Henrique Galvão escreveu a Camilo Mortágua revela realmente um dirigente bastante consciente das problemáticas tortuosas do processo revolucionário.

De 1965 a 1967 uma nova etapa se vai desenrolar na notável peripécia que é a sua vida. Parte para França vindo do Brasil. Aí refere o contexto da vida dos exilados com as suas facções, o seu lado escuro e luminoso. Relata duma forma realista a vida dura dos emigrantes, as misérias e alegrias contadas com uma inaudita capacidade narrativa, com comoção, nostalgia e compreensão humanista.

No meio de alguma agrura vai surgir de novo, na vida de Camilo Mortágua, como se de um paradigma luminoso se tratasse, a figura heróica de Palma Inácio. Juntam-se também Luís Benvindo e António Barracosa.

Realiza-se então a portentosa operação da Figueira da Foz relatada por Camilo Mortágua de forma épica e cheia de humor. Trata-se duma empresa de génio, de audácia e virtuosismo, duma iniciativa que vai permitir auto-sustentar um processo revolucionário através duma acção exemplar.

Camilo Mortágua resume assim a ideia: “A audácia torna o impensável possível.”

Esta operação foi um ato com contratempos, temores mas também riscos e audaciosas soluções. A sorte e o azar, o contexto envolvente e a iniciativa pessoal metamorfoseiam-se. E assim, os revezes da situação são por vezes promissoras “chances” de vitória. Este grupo revolucionário experimenta esta alquimia de transformar o negativo em positivo.

 

Se bem me recordo a nossa entrada no banco não teve nada a ver com aquelas cenas que se vêem nos filmes. Cara destapada, trajados normalmente, entramos como o faziam os clientes normais. Palma, eu, Barracosa e Benvindo, não sei se exactamente por esta ordem, uma vez colocados nas posições previamente combinadas, ficando um de guarda à porta para não deixar ninguém sair, mas permitir a entrada a quem quisesse entrar. O Palma anunciou ao que íamos e precisou a natureza política do ato, convidando os responsáveis a abrir imediatamente a casa forte …

Um dos gerentes, com um sorriso nos lábios disse: Não se pode abrir a casa forte porque falta uma pessoa que está ausente. São precisas três chaves e de momento só cá estão duas… Após um ligeiro parpadear colectivo, o Palma, com um ar tranquilo respondeu: Não faz mal, nós esperamos!

E esperamos aproximadamente 15 minutos em tempo real. Todo o tempo do mundo para quem o viveu, ou pelo menos o tempo suficiente para fazer minuciosa revisão do vivido e uma resignada perspectivação muito incerta do futuro imediato. Coisa insólita, o meu “caco” manteve-se absolutamente mudo e quedo, cada um tratando de cumprir com a maior concentração possível a missão que lhe estava destinada. Ao Palma e ao Barracosa competia-lhes manter os gerentes na ordem desejada e entrar dentro da casa forte, ensacar a mercadoria e entregar a cada um de nós um saco (apesar das inúmeras análises feitas durante a preparação, persistiam grandes dúvidas sobre o volume e o peso do “papel”); ao Benvindo, assegurar que quem se apresentasse à porta tinha de entrar e ninguém podia sair. A mim, a função de fechar na casa de banho quem entrasse e olhar atentamente para o conjunto.

Quando a terceira chave chegou com o gerente ausente, quem mais respirou de alívio foram os próprios funcionários do Banco. Posto ao corrente da situação, lá se convenceu que não tinha alternativa e a pesada porta do “tesouro” foi escancarada… Feita a “limpeza”, o Palma voltou a falar. Depois de voltar a insistir na natureza política do assalto e de felicitar todos os presentes pelo seu comportamento responsável que em muito ajudaria a causa da liberdade do nosso Povo, recomendou-lhes o seguinte: “As nossas vidas vão ficar dependentes do vosso comportamento nas próximas duas horas. As nossas mas também as vossas e a dos vossos filhos que neste momento são acompanhados por companheiros nossos. Mantenham-se quietos e dentro do Banco, sem qualquer tentativa de alarme. E assim tudo correrá bem para todos. O primeiro que ultrapassar a porta de saída, durante as próximas duas horas corre risco de vida. Não arrisquem a vossa vida pela ditadura”. 

Cada um com a sua carga ao ombro, um de cada vez, lá fomos saindo da” mercearia” com os nossos “sacos de batatas”. Passada a porta, dobrando à esquerda, e percorrendo os tais trinta passos pelo passeio até ao carro que nos esperava depois da esquina, saudando pelo caminho o polícia de segurança com quem nos cruzávamos, a andar para cá e para lá na sua rotina de todos os dias… O Ângelo Cardoso aguardava sentado no banco de trás do carro para abrir portas e dar rápida entrada ao Benvindo, condutor designado para o percurso até o aeródromo de Cernache. Com os cinco instalados e a mercadoria acondicionada na ampla bagageira, partimos por volta das 15h30.

Observando à nossa volta, nada se tinha passado de anormal. Comecei a acreditar que nos safaríamos daquela. Passados uns dez minutos, numa curva da estrada, com densa vegetação, a uns dez quilómetros da partida o Cardoso disse: “É aqui.” Com a viatura ainda em andamento saltou para a berma da estrada e atrás dele foi um saco, saco do qual mal podíamos ter adivinhado que alguns meses mais tarde, viriam a esvoaçar “ao vento que passa” pela recta de Mira e em outros pontos do País, como passarinhos enviados do céu, bilhetes de conto de reis! Consequências de andanças outras, que por serem essencialmente alheias, a memória não pode registar. 

Sem percalços, chegamos ao aeródromo de Cernache. Ali paramos o carro perto da avioneta e o Palma dirigiu-se ao guarda que já conhecia de anteriores visitas. Acompanhando pediu para encher o depósito, enquanto nós esperávamos um pouco distantes do hangar que servia de residência ao guarda e sua família.

Como não havia tempo a perder, perante a sua estranheza pela nossa atitude algo nervosa e inquieta, logo ali se explicou do que se tratava. Para lhe evitar complicações futuras o melhor seria ele e a mulher deixarem-se amarrar, para ficarem quietos o tempo suficiente até chegarmos ao nosso destino que evidentemente não dissemos qual era.

Sentaram-se em duas cadeiras às quais foram “atados”. Coube-me a mim “prender” a senhora, coisa que jamais tinha feito. A situação complicou-se quando o bebé começou a chorar. Então… vá lá… não se enerve, quer ver? Chegamos a cadeirinha do bebé para a senhora e deixamos-lhe um braço livre para lhe poder dar o biberão. Assim podiam ficar sossegados…

Quando o “desvio” da avioneta foi conhecido e a polícia ligou o caso ao assalto ao Banco, se a memória não me falta lá por volta das 7h da tarde, já o “passarinho tinha poisado” numa larga pista improvisada acabada de rasgar para mais uma urbanização turística algarvia em Vila do Bispo, não muito longe de Sagres, lugar cimeiro da preparação de outras e mais importantes andanças dos portugueses.(Idem, pp.174, 175).

 

A dupla, Palma Inácio e Camilo Mortágua, revelava-se complementar. O pragmatismo e a vivência rural davam a Camilo Mortágua uma sabedoria que corrigia e agilizava a competência, a coragem e a destreza de Palma Inácio.

Diríamos estar face a um tipo “pícnico”, à Sancho Pança, o Camilo Mortágua e a um tipo mais “esquizotímico”, à D. Quixote, o Palma Inácio.

Essas polaridades temperamentais vão manifestar-se quando, de regresso a Paris, Palma Inácio e Camilo Mortágua contactam de novo os históricos democratas. Porém, Camilo Mortágua considerava Emídio Guerreiro como um velho tartufo enquanto Palma Inácio se deixava impressionar pelo passado e pela prosápia do político burguês.

No entanto, Mortágua, apesar das diferenças entre ambos nunca abdicou da sua fidedigna amizade a Palma Inácio.

  

O Palma, meu companheiro por ponderada opção mútua, minha força de “frape”, minha garantia da possibilidade de se fazer aquilo que se pensasse, meu comandante e nosso eficaz executante, homem inteiro e por isso teimoso à sua maneira, de poucas palavras, serenamente determinado, capaz de compreender muito mais do que dava a entender, incorruptível no seu amor à vida e à liberdade, avesso a proibições e práticas redutoras das liberdades individuais, amante dos prazeres da vida, apreciando a liberdade como o maior deles; configurador absoluto do modelo das suas relações humanas e amorosas; nada adiantava pretender corrigir-lhe os defeitos. (Idem, p.186)

 

Nasce então a “LUAR” que inicia esta relação matricial com o enfeudamento ao “famigerado conselho superior” constituído por “líderes políticos da velha guarda”.

E assim, como diz Mortágua, “esses oportunistas de gabarito, viam-se já líderes duma organização revolucionária, protagonistas da história do combate contra a ditadura, sem para isso terem mexido uma palha.”

Por isso o Conselho Superior tutelou, daí em diante, a vida da LUAR. Essa tutela compreendia, bem entendido, a gestão dos dinheiros conseguidos na operação Mondego – Figueira da Foz – que se revelara uma árdua e arriscada operação.

Com este contexto, “o bando dos 4” (Mortágua, Palma, Barracos e Benvindo) retoma o ímpeto revolucionário que os animava e no portentoso ano de 1968, planeiam e organizam a operação do assalto à Covilhã. O projecto e a organização desta operação, a tomada da cidade da Covilhã por algumas horas, revelou diferentes concepções e sensibilidades, em particular a postura de Hipólito dos Santos, referenciada no seu livro “Felizmente Houve a LUAR” e de Camilo Mortágua.

Camilo escreverá:

 

Discordei, não porque a acção me parecesse politicamente incorrecta ou mal pensada mas simplesmente porque em meu entender era demasiado exigente para os meios e recursos de que dispúnhamos. Quando, pela primeira vez estávamos na posse de um lote razoável de armamento, quando o nº de adesões crescia rapidamente e exigia enquadramento apropriado, quando se iniciava pela primeira vez a criação e bases de apoio no interior do País, arriscar tudo numa só acção parecia-me um autêntico suicídio. Como quem continuava a assegurar os contactos com o Guerreiro era o Palma e os recursos eram arrancados a conta-gotas, entendi e disse-o na altura, que as boas regras da condução da luta aconselhavam a nunca arriscar tudo o que se tem numa só acção, porque a exiguidade de meios aumentava os riscos, e, no caso de falhar, o processo sofreria um retrocesso difícil de recuperar. Se mantivessem a decisão estava disposto a colaborar em tudo o que me fosse solicitado, mas não contassem comigo para participar directamente.

Esta decisão comunicada ao Palma e em conversa a sós, a seu pedido, não foi divulgada para não dificultar o recrutamento dos operacionais necessários.

O bom senso não imperou, a decisão do assalto à Covilhã foi mantida ocasionando o desastre que só a fuga do Palma veio, ano e meio depois, permitir dar continuidade à luta, abrindo uma outra fase, completamente diferente das anteriores, com novos militantes operacionalmente identificados com os métodos do Palma, na maioria jovens irreverentes e destemidos, sem contudo conseguir novos sucessos politicamente úteis. Acompanhei à distância os preparativos da acção e dispus-me a deslocar-me até à fronteira franco-espanhola para, a partir daí poder prestar o apoio à retirada que me foi solicitado…

Por este desastre, são responsáveis o Palma, por não ter compreendido que a sua autoconfiança tinha limites e a operação requeria meios de que não dispúnhamos e capacidades colectivas de decisão e acção que ele sozinho não podia resolver. Mas mais responsável a meus olhos, o padrinho Guerreiro por negar os meios necessários ao alcance de tão importante objectivo. (Idem, pp. 201 a 203)

 

Este desastre, de que fala Camilo Mortágua, levou à prisão de muitos companheiros, embora alguns tivessem conseguido escapar.

Perante esse desastre Mortágua não perde a capacidade de assumir novas responsabilidades. Procura apoio para os operacionais que restaram dessa acção falhada. A “Caparica”, porto de abrigo revolucionário da LUAR, era uma quinta nos Pirenéus Orientais que o seu amigo Silva Martins lhe arranjara para poder encontrar sustentabilidade aos companheiros com mais dificuldades de integração no exílio, prosseguindo assim com a formação do grupo de resistência.

Neste porto de abrigo dos Pirenéus o treino não era igual ao que se fazia, anos antes, no Brasil e que jocosamente Camilo Mortágua relata neste seu livro com o título “Matando a galinha”. Nesse capítulo, Mortágua e os companheiros iam treinar para os lados de Niterói, com sacos cama, cordame para armar abrigo à cubana e fogões de campismo. Eram fins-de-semana em que se obtinham batatas-doces e galinhas gordas que tentavam alvejar a tiro.

Na Caparica o pessoal alojava-se na quinta “daqueles neo-rurais idealistas do retorno à terra”. Os donos viviam austeramente criando cabras e vivendo do produto da quinta. Comiam-se cogumelos dos bosques vizinhos. E a formação era submetida à disciplina da sobrevivência.

Entretanto, com a própria experiência de Mortágua num kibutz de Israel, quando aí esteve durante algum tempo, despertara-lhe o seu gosto rural da infância.

O trabalho de sobrevivência e a nova aprendizagem de vida concreta obrigam o pessoal a adaptar-se aos condicionalismos. Porém, não demorou muito tempo para que a situação mostrasse a fragilidade desta opção. A dificuldade em manter o sigilo necessário e a facilidade de integração na vida comum da sociedade francesa, aceleraram a procura de outras alternativas para o grupo português que acabou por largar essa Tebaida “pouco adaptada para pessoas ilegais ou manifestamente inadaptadas para suportar a tensão de um tal contexto”.

A breve prazo dar-se-ia, em Portugal, a fuga de Palma Inácio da prisão.     

A ausência irreparável de Palma Inácio, que foi preso, só viria a ser superada quando em 8 de Maio de 1969 fugiu das instalações da PIDE, no Porto, onde estava detido.

 

O grande general de si próprio tinha ganho mais uma batalha. Cerrando as grades da prisão, quebrando mais um grilhão da sua corrente. O seu feito dava-nos novo alento e novas responsabilidades e tarefas…(Idem, pág. 312)

 

O romantismo e a coragem indomável de Palma Inácio levam-no de novo para o comando da acção directa da revolução inacabada. Mas também, diante do desespero deste seu fiel companheiro, Mortágua descreve a sua premonitória intuição dum outro desastre que se avizinha. Muitas conversas se estabeleceram entre Mortágua e Palma Inácio. Pairava na mente de Mortágua a prudência e a cautela em torno do infiltrado Castelo Branco, o “canário”, que não lhe inspirava confiança. Essa desconfiança sobre Castelo Branco era também partilhada pelo “Azevedo” (Hipólito dos Santos) que descreve essa questão no livro já citado.

Contudo, Palma Inácio desvalorizava os erros cometidos e sobretudo queria desesperadamente continuar uma luta que estava por terminar. Escreve então Mortágua:

 

Depois de lhe apresentar frontalmente as minhas reservas quanto à possibilidade de ser possível continuar sem outra disciplina organizativa, concordou comigo, mas era evidente que concordava para não ter de aprofundar uma conversa que o aborrecia. No final, sem grande insistência da minha parte, concordou com a minha proposta: “Sempre que precisasse de mim para o apoiar a ele ou à LUAR, ficava à disposição, demitia-me de todas as responsabilidades de direcção e só não aceitaria participar directamente e automaticamente em acções sem prévia discussão das mesmas.”

Compreendeu perfeitamente o alcance do acordo e nunca mais me falou de planos operacionais. Víamo-nos uma ou duas vezes por semana, pedia aquilo que necessitava e que eu podia fazer no âmbito da papelada, falávamos de tudo e do bom tempo, sabendo ele que eu sabia da evolução das acções da LUAR sem nunca abordarmos directamente o sujeito.

A última observação que lhe fiz na altura, continuava de pé: “No dia em que sinceramente estejas disposto a funcionar dentro de um esquema organizativo com responsabilidades colectivas e individuais bem definidas, diz-me e conta comigo. (Idem, pág. 217).  

 

Qual cavaleiro andante imbuído pelos seus ideais, Palma Inácio será novamente preso. Nostálgico e triste na sua solidão ao ver partir o amigo, Camilo Mortágua prevê mais uma batalha desfavorável. Mas novo sol brilhará. Veio finalmente o 25 de Abril de 1974 e foi a festa do regresso.

 

Chegamos a Vilar Formoso por volta da meia-noite do dia 30 de Abril e a Lisboa ao romper da mais bela aurora da minha vida. Da minha e, certamente de todos os que encheram as estradas da Europa a caminho da pátria em festa de todas as organizações de todos os comités. Trotskistas, maoistas, comunistas de todas as tendências e inspirações, cruzavam-se, saudavam-se, abraçavam-se como nunca tinham feito.

Entramos no posto de controlo da fronteira, vários ao mesmo tempo, em festa, já esquecidos das tremuras, sustos e angústias “de ontem”, olhando os guardas como quem diz, vêem… somos diferentes, estão perdoados.

Os carros buzinavam, cada grupo cantando livremente a sua canção, as canções que tinham animado os tempos da longa e sofrida espera. (Idem, pág. 219)

 

À laia de conclusão deste segundo volume de Camilo Mortágua, aguardamos a narração do terceiro volume que importa para completar as memórias da extraordinária aventura do 25 de Abril, história de esperanças, cravos e gaivotas esvoaçando no céu azul de Portugal. História também feita de mudanças. E agora, com esta ameaça cinzenta dum quotidiano com Troikas e FMIs onde já se ouvem, felizmente, as vozes que vêm de longe, como as de Camilo Mortágua e que incitam a continuar a luta, podemos concluir que só persistindo é que se pode vencer.

Sem temor excessivo nem exaltação incauta, Camilo Mortágua é o exemplo do lutador que soube fazer do seu espírito crítico, da sua modéstia e das suas tenazes convicções, a força consciente que proporciona a verdadeira coragem para a revolução.

O percurso que Camilo Mortágua nos deixa nestes dois volumes das suas andanças, mostra como na sua aprendizagem de vida, de revoltado se tornou revolucionário.   

 

Jacinto Rodrigues

 




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Terça-feira, 5 de Novembro de 2013

Andanças para a Liberdade I

Andanças para a Liberdade é uma autobiografia de Camilo Mortágua, contada como uma história de vida, sobre a vida exemplar de um resistente, contra a ditadura. É a história de um homem simples e simultaneamente a história de um filósofo cuja sabedoria popular o torna um precioso livro de ensino.

É a memória de um resistente antifascista, saído do povo rural deste país, que foi caixeiro, padeiro, agricultor, camponês e aventureiro revolucionário.

Neste primeiro volume, Camilo narra-nos a sua história de vida desde o “Camilinho come e cala”, nascido em terras de Estarreja até à aventurosa experiência revolucionária do assalto ao navio Santa Maria, em 21 de Janeiro de 1961.

Aguardamos com a maior expectativa o segundo volume, no prelo, que nos relatará a aventura de Camilo Mortágua nos anos de luta antifascista até à revolução de Abril.

O 1º volume das Andanças é uma prodigiosa narração de um contista nato onde a oralidade do discurso surpreende pela profundidade, nos faz rir sem deixar de reflectir, nos entusiasma e comove em permanente olhar novo.´

É que Camilo Mortágua usa uma narrativa construída em discurso plural, com níveis diferenciados mas interligados, da sua consciência feita de “personas” desiguais. O distanciamento reflexivo, o desassossego e a vontade de viver dão à sua vida uma frescura poética, um encantamento permanente na procura da pilotagem constante de autodesenvolvimento feito de permanente exame de consciência a que ele chama o colectivo de auto-análise comportamental, CAAC. Trata-se aqui duma ironia subtil com que resolveu, heteronimicamente, o olhar polivalente, filosofando diante da vida entre contradições múltiplas, destino feito de necessidades e sempre com liberdade de escolhas. Este livro tem uma escrita original, lírica e por vezes hilariante que nos ajuda a percebermo-nos a nós próprios com ironia, distanciamento e humor.

Esta metodologia faz parte do universo específico das chamadas literaturas de formação mas que aqui, sem pretensões ideológicas e excessivamente didácticas, percorre o fio da vida na espontaneidade e sorriso permanente do autor. A vida, assim, é uma vida vivida sempre prenhe de futuro, coada pelas três principais personagens que constituem a sua personalidade forte e coerente.

O “come e cala” é a criança que se plasma na vida imposta pela envolvente social, O “batata” é a “persona” que cria dispositivos de acomodação. E o Zé Ninguém, composto por complexidades e mútua reflexão permanente entre o Pé Ligeiro, o Zé e o Camilo Mortágua.

Esta é a metodologia simplificada que se revela na procura de auto-aprendizagem, no “ver” para além das aparências, no ressentir “dentro e fora” a realidade que vai surgindo, envolvida em sensações emoções e intuições.

A história da sua infância é feita de encantamentos poéticos em que o “camilinho” vai usufruindo o aconchego dos brancos panos de linho que o acomodam na canastra de pão em que sua mãe transporta os pão das padarias de Ul, levando à cabeça, a caminho de S. João, a caminho de Macinhata, da Feira ou de Arrifana.

Depois das andanças várias da sua vida, o “come e cala” vai crescendo tornando-se também no “batata” ao longo da vida complexa que vai vivendo. Aprende o valor da vida por entre as terras baixas, irrigadas e drenadas pelos canais dos ribeiros e rios desde Antuã ao Vouga.

Percurso dos grãos que vêm dos celeiros até aos moinhos de água. Os esteiros, os barcos com decorações multicolores e os moliceiros dão à paisagem de “águas largas”, a inesquecível marca de aventuras... A escola decorria ligada à vida das fainas. Fainas do campo e do mar nas redondezas. Terras de Estarreja a Murtosa, de Salver até Avanca.

Apanham-se búzios de pescadores moliceiros, comem-se enguias de caldeirada.

No capítulo II, Mortágua continua com a escrita de aprendizagens: o distanciamento no acompanhamento de si próprio na 3ª pessoa vai aprofundando a reflecção adolescente. E a doença assim como a relação com os amigos vão-lhe maturando a consciência. Assim, o Senhor Constantino, que nunca falava de si, trazia-lhe perguntas que lhe alargavam a consciência. O Sr. Constantino trazia também, todos os dias, um livro ou uma revista da sua biblioteca particular. Eram romances anticlericais, obras de pendor libertário pois este homem passara anos no Tarrafal e por isso faziam dele, agora, a referência dos seus anos de aprendizagem.

Camilo Mortágua

No capítulo III, o Adeus a Portugal, conta-nos a aventura em Maio de 1951, navegando em direcção à Venezuela. Tinha agora quase 18 anos. ”Já a cabeça voltava a levantar para olhar longe... eu havia de ser capaz.”

No capítulo seguinte Mortágua conhece a emigração. Confronta-se com gente diferente. Experimenta profissões várias e empreende novas viagens... Descreve o percurso de lambreta pela América do Sul. Faz lembrar a aventura de Che Guevara, não fora o propósito de representar, numa campanha de promoção publicitária, uma firma que vendia lambretas! A fábrica italiana apoia financeiramente o itinerário de Caracas ao Rio de Janeiro... O folclórico itinerário, cheio de percalços rocambolescos, passaria por um evento apenas picaresco não fora porém o aprender a aprender da viagem. Deu para ver com olhos de ver a realidade social da América Latina. Deu para desenvolver o desenrascanço do "Zé Ninguém" Mortágua face às atribuladas andanças daquele percurso.

O “Zé-ninguém”, na sua “auto-análise comportamental” no período negro do ditador Perez Giménez da Venezuela, leva-o ao conhecimento da comunidade portuguesa Echos de Portugal. Existem, nesta associação, várias iniciativas sociais e culturais dos portugueses da Venezuela. Conhece então Daniel Morais, antigo membro da MUD (Movimento Unidade Democrática). Era um democrata de firmes convicções. Por isso o ajuda a consolidar princípios éticos e políticos. Alerta-o para a “necessidade de pensarmos pela nossa própria cabeça e relativizarmos sempre os dogmas estabelecidos, a coerência entre o discurso e a prática, o amor à liberdade sobre todas as coisas e a disponibilidade para a solidariedade universal”.

Este novo impulso da consciência torna o “Zé ninguém” Camilo Mortágua, mais convincente para a intervenção cívica. Torna-se então militante da esquerda venezuelana, agente de ligações, “correio da revolução” no contacto entre vários grupos, assumindo assim uma postura internacionalista: “não importa onde se nasce, o que importa é onde se luta”.

Assim, dentro de Camilo Mortágua, o “Zé ninguém” transpirava optimismo e confiança no futuro enquanto o “Come e cala” apenas ouvia passivamente, sem nada fazer e o “Batata”, medroso como era, inventava dificuldades à vontade de mudança. O debate que Camilo Mortágua descreve nas páginas 166/167 é uma reflexão entre a polaridade conservadora e a polaridade transformadora que perpassa constantemente na realidade social e em nós próprios:

“Dizia o Batata: Não percebo porquê tanta algazarra! Estão a ver, estamos na mesma que antes, a correr de um lado para o outro, até com menos clientes, a fugir entre os automóveis, sujeitos a apanhar com uma porta pelas trombas e ainda por cima a ser insultados, sem tempo para descansar como pessoas normais... Não mudou nada... Temos tanta liberdade como a que tínhamos!

Respondia o Zé Ninguém em tom irado: Cala-te murcão... És mesmo matarroano das berças... Então já não te recordas do cimento frio e dos duches gelados que nos obrigavam a apanhar lá naquela choldra para onde nos levavam às vezes quando algum polícia de trânsito lhe apetecia embirrar com a gente? Já não te lembras do medo com que andávamos sempre tremendo com que alguns “amigos polícias” se lembrasse de mandar roubar-nos as motos? Não te interessa nada que os nossos amigos venezuelanos andassem sempre receosos de dizer o que pensavam com medo de serem denunciados à “Seguridade” do facínora Estrada, que nos vissem como estrangeiros e inimigos exploradores, que nunca quisessem conviver connosco e nos julgassem simples mercenários de fortuna; e agora te abracem e falem espontaneamente das suas vidas, com alegria e sem verem em ti um delator e um falso amigo? Não te sentes mais confiante em ti e nos outros sem as ameaças arbitrárias de uma repressão sem lei nem justiça? Não vês que a liberdade... não sentes... a liberdade... não te dás conta que estamos aqui, só nós e mais ninguém, absolutamente senhores do nosso destino, a decidir para onde voar? Acorda... porra! Temos que voar para ir alargando o espaço em que as pessoas possam exercer livremente os seus destinos!... Vamos mas é entrar na campanha a favor do Fidel em vez de estar para aqui com conversas vãs...

O “Come e cala”: “Olha o gajo! Está feito político... Estamos feitos!”

Estes debates interiores construídos com uma oralidade espontânea, são etapa narrativa em que as andanças para a liberdade o levam a uma experiência cívica que abre o caminho a uma maior politização constante que o levará a participar no assalto ao Santa Maria, nos preparativos da “acção directa” dirigida por Henrique Galvão que veio a espantar o mundo pela coragem e exemplaridade política.

Camilo Mortágua não deixa porém de referir as dificuldades e contradições nessa luta, mas ressalta sobretudo neste Capítulo V, Santa Maria – Santa Liberdade, a positividade da sua narrativa:

“Porque, as nossas, são simples andanças de andar e dançar, de ir e vir, de passar para lá e para cá, procurando caminhos, umas vezes sérios, outras vezes parecendo que não, preferimos ater-nos a falar daqueles raros momentos em que fomos capazes de rir de nós próprios... acreditando que o riso espanta o medo e, sem medo... a liberdade é possível! (Coisa que tínhamos compreendido muito antes do Umberto Eco escrever).

É certo que éramos menos de meia dúzia de pobretanas, superiormente mobilizados e motivados para combates indefinidos. Um “D. Quixote” rodeado de “Sanchos Panças”, apeados e desarmados. Mas... “o sonho comanda a vida”, e tínhamos uma grande capacidade de sonhar, embora não fôssemos ainda capazes, por essa altura, de ousar rasgar e ultrapassar certos preconceitos cuja observação nos paralisava.

... Andávamos de seca para meca, constantemente à procura de encontrar o “divino unto” para olear a nossa emperrada máquina.”

Mortágua descreve depois, com realismo e simplicidade, e até mesmo modéstia, o assalto. O texto, cuja oralidade está sempre presente, revela-nos o fim de festa daquela aventura que tanto entusiasmo provocou. Em 21 de Janeiro de 1961 teve lugar o assalto ao paquete Santa Maria onde se proporcionou a maior denúncia feita contra a ditadura salazarista.

Camilo Mortágua descreve assim essa operação:

“Quando se ouviram os primeiros tiros, deu-me vontade de não estar ali. Com a sala da rádio e a casa das máquinas controladas, corremos para a ponte de comando a ver o que se tinha passado. Junto à escada que dá acesso à ponte de comando, apercebi-me duma pessoa deitada de barriga para baixo a esvair-se em sangue... Merda, de repente deixei de ver as estrelas e o céu ficou preto! Fazia frio... muito frio! Ergui a cabeça e segui em frente atrás dos companheiros, lá em cima, na ponte do comando, tudo tinha acabado. Disseram-me que havia um ferido que eu não vi e iniciaram-se as negociações entre o Galvão e o comandante Maia, já relatadas em muitas outras ocasiões.

Pronto, para já o Santa Maria estava sob o nosso controle... e agora?

... O que eu temia não se verificou. Não houve reacção descontrolada, os 600 passageiros aceitaram os factos com absoluta serenidade e até, bastantes, mesmo emigrantes espanhóis e portugueses, com algum entusiasmo. Os americanos e de outras nacionalidades que viajavam como turistas, a esses tinha-lhes saído um grande prémio, um bónus inesperado para as suas férias.

Durante o assalto tinha-me tocado descer à casa das máquinas, ao caldeirão onde se gerava toda a energia que fazia mover aquela “aldeia libertada” dos nossos territórios de além-mar. Lá, alimentando as fornalhas, tronco nu, fui encontrar uma equipa de cabo-verdianos, homens já bem entrados em idade, a quem explicámos o que tinha acontecido. Olharam-nos com olhos de espanto... quedos e curvados... por momentos ficamos assim a comunicar com os olhos, mudos... de repente, ergueram-se aprumados, bateram-nos a pala e disseram: - Até que enfim que é dia de festa!”

A operação terminou a 4 de Fevereiro de 1961 quando o navio foi entregue por Henrique Galvão às autoridades brasileiras. Humberto Delgado, no Brasil, a 27 de Fevereiro apoia a convocação da ONU para discutir a situação de guerra em Angola e repudia a posição colonialista do governo português.

O Santa Maria, Santa Liberdade, tornara-se assim um grande símbolo de esperança para a luta anti-salazarista.

Jacinto Rodrigues

publicado por Elisabete às 18:47
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Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

CONTRA O ESQUECIMENTO…

 

Até ao outro lado da sala de paredes nuas e brancas contavam-se 18 passos. Rafael sabia a distância de cor. Fazia o mesmo caminho, para um lado e para o outro, centenas de vezes por dia. Indefinidamente. Além de uma mesa, duas cadeiras e dois falsos quebra-luzes que escondiam microfones e altifalantes, nada mais havia naquele espaço. Quando virava as costas ao pide que o vigiava para o impedir de dormir e se dirigia para o outro lado, andava o mais vagarosamente que conseguia. Naqueles 18 pequenos passos, um pé logo a seguir ao outro, fechava os olhos e dormitava. Na sua cabeça, a contagem não podia parar. Ao 17º sabia que estava a pouco mais de dois palmos da parede. Andava mais um, batia ao de leve no cimento frio, abria os olhos e iniciava o caminho contrário.

Foi assim durante 31 dias e 31 noites. Quando viu pela primeira vez a sombra das grades reflectida na parede, ao nascer do Sol, sentiu-se invadido pelo vazio. Depois, “por defesa e por sobrevivência”, habituou-se.

A sensação de dominar o espaço dava-lhe algum conforto. O conforto possível num pesadelo. Quando o mudaram para outra sala de interrogatório, sentiu que lhe destruíam a casa. “Era quase rigorosamente igual, mas havia pormenores como uma mancha no chão ou uma racha na parede que não o eram exactamente.” Não estavam no mesmo sítio onde era suposto estarem, no sítio que ele já conhecia e sabia indicar de olhos fechados. Nem eram exactamente 18 os passos que separavam as duas paredes e lhe permitiam, por um minuto, adormecer. A mudança, que se tornou frequente, arrasava a réstia de equilíbrio e lucidez que tanto se esforçava por manter. Nesses momentos, as alucinações assaltavam-no; mais do que nunca, dominavam-no.

Das tomadas de electricidade via sair gases de várias cores que se acumulavam no chão, uns ao lado dos outros, sem se fundirem. Com medo de sufocar e morrer intoxicado, Rafael agitava a perna no ar e dava pontapés naquelas nuvens para que se esfumassem e desaparecessem. As paredes transformavam-se em enormes engrenagens, máquinas de destruição prestes a esmagarem os que lhe eram mais próximos. Amigos e familiares tentavam, em vão agarrar-se ao que podiam, mas as mãos escorregavam-lhes e eles caíam desamparados nas turbinas metálicas que, lenta e dolorosamente, os faziam desaparecer. Tudo se passava à frente dos seus olhos e ele, desesperado, assistia. Correu para a parede e tentou parar as máquinas com as próprias mãos. Com os dedos, arranhou o cimento até as unhas lhe sangrarem. Gritava, pedia ao pide que o ajudasse a salvar os que morriam. Nada acontecia. Impotente perante o sofrimento dos amigos, Rafael desejou que também ele fosse engolido. Com a força que lhe restava, atirou-se de cabeça. “Acordou” da alucinação com dois inspectores a agarrarem-no para que não se matasse, tal era a violência com que, uma e outra vez, batia com o crânio na parede.

Nos primeiros dias de tortura, Rafael “estava constantemente a levar tareia”. Ao início, todos os dias. Várias vezes ao dia. Queimaram-lhe as mãos com pontas de cigarro e “faziam quase um concurso para ver quem batia da forma mais cruel, com chicotes, fios eléctricos, cassetetes e matracas”. A um dos inspectores, com pronúncia alentejana, sempre com sapatos de tacão e calças demasiado curtas, ganhou um ódio particular. Nos interrogatórios, os pides revezavam-se em turnos. O alentejano chegava muitas vezes bêbedo. Dava-lhe pontapés no tendão de Aquiles e um dia deslocou-lhe o joelho esquerdo. Rafael esteve seis dias sentado numa cadeira com um inchaço na perna que o impedia de andar.

Ganhou-lhe uma raiva descontrolada. Uma vez, mal o inspector entrou na sala para começar o turno, correu para ele, deitou-o no chão e apertou-lhe a garganta. Perante os gritos, outros agentes correram em auxílio. Agarraram-no, tentaram tirá-lo de cima do outro, mas não conseguiram. Rafael parecia possuído por uma força sobre-humana. “Estava capaz de o comer vivo.” Sem meios para travar o ataque, os outros partiram-lhe uma cadeira na cabeça. Caiu para o lado, inanimado, e só assim o largou.

Não tinha o mesmo ódio a todos os agentes. “Havia os pides velhos, de cinquenta e tal anos, muito brutos, fanáticos e terríficos, mas havia alguns mais novos que pareciam não ter sido ainda completamente convertidos. Os rudes nunca interrogavam. Entravam só para bater.”

Menos de uma semana depois de ser preso, no final de Setembro de 1973, os inspectores Santos Costa e Inácio Afonso, dois dos mais temidos, arrastaram-no uma noite, […] para um carro, com mais dois agentes, e seguiram pela Marginal até à Boca do Inferno, em Cascais. […] e ameaçaram atirá-lo se insistisse em não falar. Rafael continuou calado. A pergunta, repetida vezes sem conta, era sempre a mesma. Onde estava Palma Inácio, o fundador e líder da LUAR (Liga de União e de Acção Revolucionária), uma das mais importantes organizações de luta armada a surgir em Portugal para combater o Estado Novo.

Carismático e misterioso, Hermínio da Palma Inácio era, para muitos, uma figura quase mítica. E, para a PIDE, um dos principais alvos a abater. Em 1961, o ex-militar da Força Aérea desviou um avião da TAP que fazia a ligação Casablanca- Lisboa, sobrevoando a baixa altitude várias cidades do país, incluindo a capital, para lançar perto de cem mil panfletos de apelo a uma revolta popular contra a ditadura. Participou, também, no assalto à delegação do Banco de Portugal da Figueira da Foz, onde foram roubados cerca de trinta milhões de escudos para financiar as operações de luta contra o regime.

Preso em 1968, quando tentou tomar a cidade da Covilhã, com outros cinquenta operacionais da LUAR, Palma Inácio foi condenado a 15 anos de prisão, mas conseguiu evadir-se da cadeia do Porto nove meses depois, numa fuga particularmente humilhante para a PIDE. Palma Inácio serrou as grades com lâminas que a irmã conseguiu fazer-lhe passar e que a polícia política, apesar de avisada de que existiam, nunca conseguira encontrar nas sucessivas revistas à cela.

Para Rafael Galego, Palma Inácio era um líder mas também um amigo. Rafael envolveu-se no combate à ditadura muito antes de o conhecer. A luta estava-lhe no sangue. Cresceu em Trás-os-Montes, no concelho de Montalegre, junto à fronteira com a Galiza, para onde o pai foi destacado como encarregado de obra na construção de uma barragem. Viviam isolados de povoações, num bairro construído apenas para os trabalhadores da obra. Solidária com a oposição, a família ajudou muitas vezes emigrantes clandestinos e refugiados políticos a darem o salto para Espanha. Davam-lhes farnel e dormida, escondendo-os da polícia. Em 1958, tinha Rafael 8 anos, o pai participou activamente na campanha de Humberto Delgado para as eleições presidenciais. Ao irmão, nascido nesse ano, deu o nome do candidato para o homenagear.

Como grande parte da população naquela época, Rafael acabou a 4ª classe e deixou os estudos. Aos 12 anos começou a trabalhar na barragem como “pinche”, um aprendiz de mecânica. Três anos depois, a construção acabou e a família mudou-se para Alverca. De dia, o miúdo magro e de corpo franzino trabalhava como metalomecânico na fábrica da Mague; à noite, frequentava um curso de formação para serralheiros. Nessa altura, ainda adolescente, juntou-se ao PCP. Pouco depois, com 19 anos, e como tantos que a família tinha ajudado em Trás-os-Montes, saltou a fronteira para fugir à guerra. Chegou a França sem dinheiro, sem conhecer ninguém, nem falar francês. Dormiu ao relento em bancos de jardim ou escondido no metro, nas noites mais frias. Sem conseguir arranjar trabalho, juntou-se a outros portugueses e partiu para o Luxemburgo. “Nem sequer sabia onde ficava o país.”

Desta vez, no entanto, a experiência correu bem. Alugou um quarto, encontrou emprego numa fábrica e juntou-se a um sindicato, ajudando a criar uma secção portuguesa na confederação de trabalhadores do Luxemburgo. Um dia, em 1971, foi abordado por um membro da LUAR para se juntar à organização. Rafael hesitou. “Mentalmente ainda estava ligado ao PCP.” Poucos dias depois, Palma Inácio encontrou-se com ele para o convencer. A amizade começou aí. Ganhou-lhe uma admiração e um respeito profundos. Foi-lhe fiel até ao fim.

Palma Inácio mudou-lhe o nome, deu-lhe um passaporte e uma carta de condução falsos e ensinou-lhe “tudo o que um guerrilheiro tem de saber”. Em França, para onde voltou a mudar-se, clandestino, Rafael era periodicamente chamado para treinos operacionais. Embrenhado no Bosque de Bolonha, aprendeu a lidar com radiotransmissores, teve formação em falsificação de documentos e treino de explosivos. Essa era, para ele, a parte mais fácil. Em miúdo, quando trabalhou com o pai na construção da barragem, já várias vezes tinha mexido em detonadores. Desta vez, no entanto, os professores não eram trabalhadores das obras, iletrados e pobres, mas “revolucionários profissionais”, como ele também queria ser.
 
 

No início de 1973, Rafael e outros quatro jovens que, com ele, tinham recebido treino estavam prontos. Sentiam-se preparados para qualquer missão que a Organização decidisse atribuir-lhes. Cansados do treino e dos simulacros, queriam actuar. Pediram a Palma Inácio para os deixar ir para Portugal. A luta pela democracia fazia-se lá. Não a dois mil quilómetros de distância, “em guerrilhas de café”. Em Julho desse ano, a LUAR decidiu enviá-los. Rafael e um controleiro, o chefe do grupo, foram de carro, transportando todo o equipamento: pistolas, metralhadoras, radiotransmissores, detonadores eléctricos e cargas explosivas. Os outros quatro meterem-se num comboio até Salamanca, onde o grupo voltou a reunir-se. Numa serra junto à cidade espanhola, abandonaram o carro e distribuíram uma pistola a cada um, escondendo o resto do material em sacos de mão. A ideia era saltarem a fronteira e entrarem em Portugal a pé, como tantos outros emigrantes.

O plano era esse, mas não foi o que aconteceu. Na aldeia raiana de Navasfrías, a poucos quilómetros de Portugal, foram interceptados pela polícia espanhola e encaminhados até ao posto para se identificarem. Era meio-dia e o calor apertava. Nas mãos, cada vez mais transpiradas pela temperatura e pela ansiedade, levavam sacos carregados de armamento. À entrada da esquadra, tiveram de pousá-los. Nesse momento, um dos agentes baixou-se e abriu o primeiro saco. Lá dentro estavam embrulhos que escondiam os detonadores. Não havia tempo para pensar. Antes do polícia ver o que era, Rafael puxou da pistola que trazia escondida nas calças. Foi tudo demasiado rápido. Assustados, os polícias fugiram para dentro do posto, onde o controleiro e um dos elementos do grupo estavam a ser identificados. Rafael e os restantes quatro fugiram, cada um na sua direcção.

Dois foram apanhados. O outro encontrou Rafael algumas centenas de metros à frente. Juntos, afastaram-se o mais que puderam da povoação e subiram uma montanha. Durante horas andaram perdidos no meio da serrania, sem mapas nem bússolas. Já a noite ia alta quando encontraram um pequeno cemitério isolado. Pelos nomes e pelas inscrições gravadas nas lápides, aperceberam-se de que já estavam em Portugal. Aliviados e exaustos, deitaram-se junto às campas.

Na manhã seguinte, caminharam até uma aldeia com casas de pedra, perdida no meio da serra da Malcata. Não viam ninguém. A aldeia parecia deserta. Junto a uma casa de dois andares, com o gado guardado no piso térreo, viram estacionado um carro com matrícula francesa, provavelmente, de um emigrante de visita à terra, nas férias de Verão. Podia ser a solução para um dos seus problemas mais imediatos. No bolso, Rafael tinha quinhentos francos que conseguira graças à sua guitarra, que vendera em Paris, antes de rumar a Portugal. O companheiro não tinha nada. Precisavam de trocar os francos por escudos para comprar um bilhete de comboio ou de camioneta até Lisboa. Traçaram uma história convincente para contar e combinaram que seria Rafael a fazer a conversa.

“Ó da casa!”, chamou. A senhora veio à porta e convidou-os a entrar. Ao emigrante, filho da dona, explicou que tinham planeado ir viver para França e que já tinham trocado o dinheiro para francos quando os avisaram de que o país estava a travar a entrada de novos emigrantes. Desistiram, mas ficaram com aquele dinheiro que em Portugal não lhes servia de nada. O emigrante aceitou, sem reservas nem perguntas, fazer-lhes o câmbio. Serviu-lhes café e pôs na mesa pão, presunto e queijo.

Não comiam há mais de um dia e “estavam mortos de fome”. Quando Rafael se preparava para se servir, o filho do emigrante, uma criança irrequieta com 2 ou 3 anos, simpatizou com ele e foi sentar-se ao seu colo. Rafael tinha a pistola escondida nas calças, entre a cintura e o fecho. Teve medo de que a criança, que não parava quieta, a descobrisse. Pôs uma mão sobre a arma e com a outra agarrou o miúdo. Não sobrava nenhuma para tirar uma fatia de pão. Ao seu lado, o companheiro não parava de comer. A dona da casa via-o com gosto a deliciar-se e insistiu para que também Rafael se servisse. Ele não tinha como. Agradeceu, mas recusou, dizendo que estava sem fome.

Deixou a casa de barriga vazia. Sempre por caminhos afastados da estrada, continuaram até encontrarem uma linha de comboio. Seguiram os carris até à estação e compraram dois bilhetes para o Porto. Para despistar a polícia, saíram na Guarda e apanharam outro comboio rumo a Lisboa. Quando chegaram à capital “eram dois pardalitos isolados, clandestinos e sem forma de entrar em contacto com a Organização”. Era o mais importante. Tinham urgência em avisar Palma Inácio da prisão dos companheiros em Espanha. Foram bater à porta de um padre que Rafael sabia pertencer à LUAR e que já tinha sido preso uns anos antes. Contou-lhe que o grupo fora desmantelado e que só restava ele e outro companheiro. Pediu-lhe para ir a França avisar o líder e dizer-lhe que ficaria a aguardar o contacto para uma nova missão. Separou-se do amigo, que partiu para a Covilhã, de onde era natural, e rumou a Alverca, que conhecia bem.

Nunca chegou a ser chamado para outra operação. Foi preso pouco tempo depois, em 23 de Setembro de 1973, exactamente um mês após o desaire de Navasfrías. Sabendo, pela vida que levava, que o mais provável era ser apanhado, Rafael tinha pedido há muito a Palma Inácio e a outros ex-presos políticos pertencentes à Organização para lhe descreverem, ao pormenor, as torturas e os métodos da PIDE. Quando foi capturado, julgava saber o que o esperava, mas foi, afinal, muito pior do que antecipara e do que as descrições o tinham feito imaginar. Esteve um mês em privação de sono, considerada uma das mais difíceis, dolorosas e perturbadoras formas de tortura. Um mês sem se lavar, a andar aos círculos numa sala, à mercê de alucinações agoniantes e espancamentos periódicos.

Durante todo esse tempo, trazia nas palmilhas 11 folhas de serrote para tentar escapar. Há muito que andavam com ele, dentro dos sapatos, para o caso de um dia ser preso e precisar. No primeiro mês, no entanto, estivera sempre vigiado por um pide, pelo menos. Quando, ao fim de 31 dias de tortura, o tiraram da sala de interrogatório e o levaram em ombros para uma cela no reduto norte, onde o depositaram e o fecharam sozinho, já não tinha como as usar. Destruído, meio louco, sem força e sem fé, era uma amostra de homem com 52 quilos, que mal conseguia pôr-se em pé.

Mas estava orgulhoso. Conseguira resistir. Mal sabia que ainda não tinha acabado. Depois de dois dias a dormir, quando pensava que o calvário chegara ao fim, arrastaram-no, novamente, para mais seis dias e seis noites de tortura do sono. Implorou para o mataram. “Era preferível morrer. Já não encontrava sentido para o sofrimento” em que se encontrava. Lembrava-se das ameaças na Boca do Inferno e desejava que o levassem outra vez e que o atirassem ao mar ou que acabassem com ele ali mesmo, com um tiro certeiro e misericordioso. “Estava capaz de contar a vida toda, o que sabia e o que não sabia. Mais um minuto e teria falado.” Nesse instante, porém, foram buscá-lo e levaram-no ao gabinete do chefe de brigada. Entrou e viu pendurado num cabide um casaco de flanela aos quadrados que tão bem conhecia. De imediato, percebeu que todo o sacrifício fora em vão. Palma Inácio, o seu líder, o amigo a quem jurou ser sempre fiel, tinha sido apanhado.

 

 

Joana Pereira Bastos, OS ÚLTIMOS PRESOS DO ESTADO NOVO,

tortura e desespero em vésperas do 25 de Abril
publicado por Elisabete às 15:01
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