Terça-feira, 28 de Maio de 2013

Ilha Grande Fechada

 


Não foi preciso chamar Diana, que, ao vê-lo pegar no sacho, lhe correu à volta a sacudir o rabo. Irene perguntou: “aonde vais?”… e ele: “vou despedir-me da terra.” O sacho para isso?... Que sim, não bastava ficar olhando, queria senti-la como quem abraça uma pessoa quando lhe diz adeus. A cadela ia na frente. Encontros breves pelo caminho, alguns os últimos sabia Deus por quantos anos, talvez os derradeiros na vida. “Sempre vais amanhã?” “Isso é que é, até que enfim está chegando o dia, João…” “Lá, tens tudo quanto precisas, aquilo é que são terras fartas. Se eu fosse novo…” “Logo que possa, também me vou embora. Aqui não dá nada.” E ele triste, como se levasse a morte sobre os ombros. Começava a perceber o que lhe disse um dia o furriel enfermeiro – que tinha o costume de acamaradar com os pretos e só tocava as pretas nas suas partes doentes -, ao vê-lo uma noite chorar agarrado a meia garrafa de whisky: “Saudades da família? Hás-de habituar-te. Quando isto tiver passado, verás que não é assim tanto tempo.” Não eram só da família, as saudades. Das suas coisas também, dos bichos, do mar… Tinham-lhe metido na cabeça aquela de que o mar dá saudades, que um homem das ilhas não pode viver sem ele. Era capaz de passar dias e meses sem o olhar com atenção, anos sem comer lapas ou polvo guisado. Mas chegara a sentir falta de tudo isso como se não desejasse mais nada na vida. “Não é só da família, meu furriel. É da ilha também.” Se a sua terra fosse um deserto, seria o mesmo. Havia quem se sentisse por coisas bem diferentes tanto como ele se sentia pelas suas. O furriel sorrira, num jeito de resignação trocista. “Da ilha, João?... A ilha é um bom lugar de saudade. Nem mais nem menos. Vai deitar-te, que amanhã estás melhor.” A ilha, um bom lugar de saudade?... Mais nada?... E já se sentia longe, tudo era como se não lhe pertencesse, era como se, mal desaparecidas aquelas caras, não as visse havia tempos sem fim, como se, dado um passo, o caminho para trás não fosse seu desde as carreiras da infância.Conseguira finalmente o passaporte, o visto e a passagem que o libertavam da ilha, mas que maldição há sobre ela que, mesmo quando se tem tudo o que se quer, ela nos deixa infelizes?

Parou na taberna do costume. Queria um copo sem fundo para a sua pena sem fim, num dia que sempre imaginara o seu dia de estar feliz. Apetecia-lhe beber até que o pensamento não soubesse de nada, até que os sentidos esmorecessem na última noção do entendimento. Um copo de vinho: como o fel e o vinagre para abrandar as dores dos condenados às grandes mortes. Bebeu com dois amigos que discutiam o preço de onze vacas e cinquenta e seis alqueires de pasto, e lhe invejaram a sorte. Tinham grandes carteiras cheias de notas de mil, mas nada se compara à abundância dos dólares. Suspenderam o negócio – ficaria para depois continuar aquela sessão de exageros -, estava ali o João para dizer-lhes adeus. E um grande adeus, como uma grande chegada, fica melhor com vinho para aquecer as palavras.
- Pareces triste, João...                                                                                         

- Não sei o que tenho… Um homem sabe lá para onde vai… - Para pior do que isto não pode ser. Aqui o Mário dava-te as vacas e o pasto que me quer vender pelo teu passaporte. Não davas, Mário? - E ainda tornava dinheiro, rapaz. O entusiasmo deles não lhe buliu com a alma. Eram três companheiros, tiveram de ser três as rodadas. Deu-lhe um torpor quase bom no corpo, mas o resto ficou igual. Antes se mudasse o resto, onde lhe estava a tristeza. Saiu depois de uns abraços apertados, os dos outros dois pegaram-se-lhe ao corpo, pararam-lhe na cintura, hálitos cheirando a vinho, respingos de saliva de quem já tinha lastro abundante lá dentro onde tombaram os três copos da despedida. Meteu-se à canada, que conhecia desde os tempos dos ninhos e das laranjas, das brigas sem o motivo e das tapadas sangrentas, de outros gostos proibidos e alguns trabalhos penosos. Por ali andaram com ele o Carlos, que foi padre e depois casou, o Pedro, que estudou para professor, um José que emigrou e outro José que era dono de trinta vacas de leite e um tractor, o Luís, o Mariano, o Manuel, todos emigrados também, o Alberto seu companheiro de carteira na quarta classe, que talvez estivesse à espera dele, no aeroporto de Toronto, dali a dois dias. As voltas que o Mundo dá… Não havia cigana que fosse capaz de atinar com a confusão de tantos destinos diferentes. E eram todos tão iguais: é verdade que o Carlos sempre foi de saber reis e batalhas como ninguém e o Pedro fazia problemas como se já fosse professor, mas, dali do canto para cima, por essa canada a dentro ou empoleirados nas árvores a roubar laranjas verdes, era tudo a mesma louça. Nesse tempo, doía-lhe a alma só de pensar na América e no Canadá. A América tem cheiro diferente, vinha nas caixas de roupa, tão grandes que era preciso desmanchá-las na rua para caberem em casa. Parece que aquela gente apostava em que as caixas que uns mandavam fossem maiores que as dos outros, uns coitados que saíram daqui quase sem jeito para nada e nem o bem faziam bem feito. Mas, se não fosse isso, um homem tinha andado em couro, que o ganho do dia não dava para meia missa. E brigas que havia ao dividir a roupa, se as melhores peças não vinham com o nome de cada um marcado… Bocas de fome… Ir ao armário e nem miolo de pão! A fome chegava sempre antes da hora, a mesa nunca estava posta quando a vontade apertava, uma doençazinha que não fosse de consumir muito era um regalo, dava direito a outro sustento, o ovinho estrelado, o leite com cacau, o queijo de peso, o chazinho com açúcar, ou um caldo de galinha para fraquezas mais teimosas que era coisa mesmo descida do Céu. Nem um lorde… Haveria muitas terras no Mundo onde as pessoas gostassem de estar doentes? E agora? É cada pedaço de pão com manteiga deitado fora pelos rapazes, que nem os cães querem saber. E manteiga, isso era dia de festa quando havia alguma! A fartura faz mal, o fastio é uma coisa moderna, nunca vi disso no meu tempo. Não sei como não morreu metade. Se tivessem morrido todos os que passaram fome, não era preciso emigrar… Um homem é uma desgraça… Isto é lá terra que dê saudades a alguém. Mas dá, eu sei que dá. Não dá mais nada, mas dá saudades. Quando eu me apanhar com uns dólares, volto para trás, arranjo uma casa, compro vacas, e acabou-se. O pior é o futuro dos meus filhos. Eles, quando vão pequeninos para aquelas terras, nunca mais querem saber disto para nada. E um homem lá não tem mão neles, se dá uma bofetada num vem logo a polícia, e ainda estamos sujeitos a malhar com os ossos na cadeia. Só o diabo é que pode sofrer uma coisa destas, mas dizem que é assim mesmo, que é que se pode fazer? Não vou mudar as leis daqueles excomungados, que não passaram fome, não sabem o que custa a vida. É que a fome ensina muita coisa. Havia respeito no meu tempo de rapaz. O pobre respeitava o rico, porque o rico era quem lhe dava trabalho. Os pobres respeitavam-se uns aos outros, porque precisavam de toda a gente. Agora andam de barriga cheia, e a fartura é má conselheira. É isto, naquele tempo não eram melhores do que são hoje, tinham era mais necessidade. Fome negra, morriam da primeira doença que não fosse a gripe de Abril ou Novembro, porque mesmo que alguém quisesse acudir não tinha com quê, só o Doutor Simas, de Vila Franca, era um santo, que até dava remédios e tudo, mas os ricos e o governo não se importavam com a gente, era tudo pior que os cães. A terra está do mesmo tamanho, mas já se vive melhor, não tem comparação. O dinheiro ia todo para eles, grandes ladrões, que metiam uma pessoa na cadeia por dá cá aquela palha, bastava o regedor dizer que um homem era comunista, mesmo que nunca tivesse ouvido falar nisso, mas era a fama que pregavam em qualquer um a quem quisessem fazer mal, como ao Júlio, que atravessou a rua enfeitada para a procissão, e ao Roberto e ao João Ferreira, que fizeram um barco de canas no Carnaval como se fosse o “Santa Maria” e, um deles, o Henrique Galvão. É verdade que, se não fosse a emigração, comiam-se uns aos outros que isto era gente que já não cabia aqui. Mas se uma mulher não fizer contas à vida e se um homem deixar metade na taberna, a fome ainda é mais negra. Só para os mais gastadores, bem se sabe, que os outros lá vão vivendo com chicharros, que antes nem sequer havia pão, juro pela felicidade dos meus filhos, que Deus não os castigue com metade do que eu passei. No Canadá é tudo fartura, do mau e do bom, mas são outros costumes, sei lá como vai ser comigo. Mas talvez acabe por acostumar-me, não sou melhor que os outros. O José Pereira levou alguns dois anos a chorar, e depois criou o gosto por aquela terra que nunca mais se importou com a nossa. Quis vir morrer aqui, quando os médicos o desenganaram, como se o céu fosse mais perto da gente. E é capaz de ser, que se um homem leva esta vida com paciência não há demónio que lhe pegue na alma. Não deixo para trás nada que me faça falta, a não seres tu, Diana. Vais andar por aí ganindo, esfomeada e tonta, pois tens esse mau feitio de não comer a jeito quando não estou. E eu vou ficar por lá apalermado, com saudades duma cadela, louvado seja Deus! Hei-de escrever cartas a perguntar por ti, minha mãe lê-as para ouvires como se fosses gente, tu tens mais tino do que muitos que andam em cima de dois pés. Se calhar o meu cheiro chega ainda na carta, hás-de farejá-la e ficar doida, à minha procura, minha mãe diz: “Olha, Diana, é do teu dono, é do João”, e tu corres a casa toda, esqueces essa tristeza de rabo murcho e começas a sacudi-lo, vais à porta da rua, talvez ladres a chamar por mim, e voltas para dentro com uns olhos cheios de lágrimas que não se vêem mas que custam tanto como as outras ou mais ainda. Ou sentas-te à porta da minha casa fechada, cismando, a olhar para cima e para baixo, a ganir e a rapar na madeira, vens aqui à terra, entras na taberna a perguntar por mim só porque entras, vais ao pasto, vês as vacas todas mas não me vês a mim, é o Manuel da Emília que há-de estar lá, ficas sem perceber nada, ainda acabas por te finar de tristeza como a cadela do José Sousa, quando o dono morreu. O resto, Diana, são saudades de fome, de suor, de trabalhar como um negro desde os seis anos, e, vamos lá com Deus, de algum copo de vinho com uns amigos, que só tornam a pensar em mim quando eu vier de visita ou lhes mandar um postal de Boas-Festas com um dolarzinho, para beberem pela minha saúde.

 


 

Mas, então, por que raio estou tão triste, com uma tristeza que, se eu soubesse que isto era assim, nunca me tinha posto a passar papéis para emigrar e ainda por cima meu cunhado pensa que lhe fico devendo as gadelhas só porque me fez a carta de chamada? Não é pela nica de terra, um raio a parta. Deus me perdoe, que umas vezes dava muito, para vender a preço de nada, e, outras, mal lhe arrancava umas batatas e uns feijões para as sopas de meio ano. Nem é pelas vacas, que nem sequer são minhas, e me tiraram anos de vida, sempre a correr, quando estavam mais perto vinha como um doido, entre o leite da manhã e o da tarde, atirar uma sachadela à terra, a ver se adiantava serviço, ou ficava lá até não ver nada, era pelo tino, e no fim, sempre pobre, que Deus já não dá vinha e gado a quem tem paciência como Job, mas manda a verdade dizer que eu excomunguei mais vezes o trabalho do que dei graças a Deus pela saúde e pela força que nunca me faltaram. Ah! mas assim não me faltem no Canadá, e estou aqui estou rico, porque os remediados de lá são mais ricos do que os ricos da nossa ilha. Se eu pudesse levar-te, Diana, não me ficava pena nenhuma do que deixo atrás. Só minha mãe e meu pai, coitados, já se vão pondo velhos, mas esses, mais dias menos dias, de certeza que estão lá caídos. Têm aquele feitio de não querer incomodar os filhos, dizem que vão viver a favor e aqui ainda se terminam, mas não aguentam, vais ver que não aguentam aquela casa vazia, sem a alegria de ninguém, só eles a olhar um para o outro como duas árvores sem ninhos. E um homem quando casa, mete logo na cabeça que os pais já não têm nada com ele, e depressa se esquecem as sopinhas da mamã, que até se for preciso ir para o fim do Mundo vai-se mesmo sem pensar no desgosto deles. A vida é assim, não se pode mudar a vida, ela é que manda na gente. Olha, Diana, se te passasse um camião por cima, estava tudo resolvido. Desculpa que eu pense nisto, mas é verdade, ia-me custar ver-te morta, mas enterrava-te, ficava acabado, havia de me acostumar à tua falta, porque não se espera nada de quem vai para o outro mundo. Um homem habitua-se sempre ao que não tem remédio. Mas, assim, eu tão longe e a saber-te morrer aos poucos, de desgosto, e não poder valer-te… Ah! maldita terra, Diana! Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela! E, depois, aquilo lá é tudo tão diferente… Uma língua que para mim é chinês, casas maiores do que o Pico da Vigia, lojas onde dizem que cabe a nossa freguesia inteira, ruas com mais povo do que a cidade pela festa do Santo Cristo, carros que nunca param de passar, um homem não pode andar descansado, ou a conversar num canto, não se vai para lado nenhum, é penar para ver os amigos, que às vezes estão mais longe do que daqui para lá, não há horas certas de trabalho, o marido e a mulher passam a vida sem se ver a jeito, os filhos aos terramotos para a escola, comem à pressa, nem sequer há domingos com vagar para ir à missa ou jogar uma sueca. Um inferno, um inferno cheio de dólares, é o que aquilo é.

Olha-me esta terra! Nunca deu tanto como vai dar este ano, juro. Que linda batata! Quatrocentas arrobas seguras, e o Manuel da Emília ficou-me com ela por duzentas e cinquenta. Mas chega às quatrocentas ou anda lá perto, isso não falha. Ele tira-a daqui a três semanas, foi um belo negócio, mas não faz mal, Nosso Senhor lhe dê sorte de vender tudo por bom preço. E o milho!... Um louvar adeus. Olha-me aquele feijão, vai ter que se lhe diga, nunca tive disto, palavra de honra que nunca tive. Parece que a terra quis despedir-se de mim fazendo-me negaças, uma fartura destas e não vou comer uma batata escoada que seja, não provo um molhinho de feijão nem uma maçaroca de milho cozido… Espera, deixa-me tocar na terra, é a última vez que a vejo minha, se eu voltar, tenho de pedir licença para pôr os pés aqui dentro, apetecia-me pegar nela ao colo, é uma tolice, olha que não é do vinho, estou sério, muito mais sério do que gostava de estar, maldita a hora em que resolvi dar este passo, mau fogo abrase a tantos trabalhos em que um homem se mete só para ter que comer e que vestir. E nunca vi ninguém ser feliz por causa do dinheiro. O que importa é a saúde e a graça de Deus. Estás para aí pasmada por me ver sachar batata deste tamanho, não é?... Quero é matar já as saudades que vou sentir. Anda aqui, Diana, chega ao pé de mim, cadela dum raio que és a minha perdição. Dá cá um beijo ao teu dono, dá cá, que, se calhar, nunca mais te vejo. Ah! bicho dum corisco, e eu que não te queria porque eras fêmea, mas ninguém pegou em ti, e não fui capaz de te matar. Ainda abri uma covinha para te meter lá dentro, mas o sacho nunca me pegou tanto como nesse dia. Sabes? sinto remorsos de ter querido matar-te, só tu nunca me enganaste, se Nosso Senhor fez um Céu para os cães, vais direitinha lá parar, minha santa. Olha, se meu pai for para o Canadá, deixa-te com alguém, mas tu nunca mais prestas para nada. E eu, quando voltar, se ainda te apanhar viva, já nem sequer és minha. Mas tu morres antes, de certeza que morres. Um raio parta a minha cabeça, para que me fui meter nesta aventura do inferno, eu que não tinha outra ideia senão embarcar e, agora, estou para aqui feito tolo, por causa de ti, se não fosses tu, era outra coisa qualquer, um homem nunca está satisfeito, é um bicho triste, que até nasce chorando. Não vês, Diana, a gente aprende a rir mas ninguém nos ensina a chorar, e meu pai, algum dia, ainda é capaz de te pôr a ladrar ao telefone, para eu te sentir no Canadá, e ele se calhar a tocar contrabaixo ao mesmo tempo, que já uma vez tocou também para meu cunhado ouvir e matar saudades.

 

*   *   *

 

João simulou todos os gestos com que ajudara a terra a prometer fartura. Depois sentou-se no chão e chamou a cadela para junto de si. Diana lambeu-lhe as mãos e a cara, ganiu alegremente, e deitou-se ao lado dele com a cabeça apoiada na sua perna direita, olhando-o com piscadelas que pareciam sorrisos. João levantou-se, desviando-lhe a cabeça docemente, e pediu: - Beija-me, Diana. Ele baixou-se um pouco, e a cadela esticou-se e lambeu-lhe a cara novamente. - Tira-me o chapéu, vamos. Diana saltou duas vezes e, à segunda, ficou com o chapéu entre os dentes. Deu uma volta ao redor de João, que se ajoelhou. - Põe-me o chapéu na cabeça, sua velhaca. Obedeceu, divertida e desajeitada no acto de cobrir o dono, que facilitou a tarefa com uma torção do pescoço. - Dá cá um aperto de mão. Diana levantou a pata direita para a mão estendida. João sacudiu-a como se fosse um cumprimento a sério. - Morre, Diana. A cadela deitou-se, imitando a morte sem saber o que imitava. João pegou no sacho, ergueu-o e apontou-lho à cabeça. A pancada caiu certeira e fulminante. Diana estremeceu por momentos, agitada por uma morte de que não se apercebeu. João tentou aguentar as lágrimas dentro dos olhos, como criança fazendo-se homem, mas acabou por chorar em silêncio. Havia de recordar aquela cena toda a vida, fingindo acreditar que estava bêbedo, e lutaria, em pesadelos de agonia, com um fantasma ensanguentado e imortal que tinha a aparência deformada de Diana. Abriu uma cova o mais fundo que pôde. Bateram as trindades, as últimas que iria ouvir por muito tempo. Descobriu a cabeça e rezou, coisa que nunca fizera ao som dos sinos da tarde. Depois, atirou Diana para dentro da cova e fechou a ilha sobre ela.

 

Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada

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Quinta-feira, 29 de Março de 2012

Realizar a loucura infinita...

 

Você sabe quanto é triste viver em Lisboa e não estar vivo – sem as paisagens, sem uma única árvore em frente dos olhos, tão longe do mar e do céu dos Açores? É-se medíocre assim, toda a vida entre prédios altíssimos que nos proíbem de ver e amar a distância. Em Lisboa, o infinito, ao contrário daqui, não é plano nem horizontal: a única possibilidade é torná-lo perpendicular, na vertical daquele céu luminoso e quase sempre azul. Muitas vezes, imaginei que devia vender o apartamento de Lisboa, vender agora a casa dos meus pais e ir realizar lá longe a loucura infinita, onde houvesse campo, duas árvores e qualquer mar em frente. Gostava de aprender de novo os segredos da terra: plantar canas em redor dum muro, escorar pequenos troncos com estacas e ver como cresciam as árvores da minha vida. Se possível, uma figueira. Sabe porquê? Quando era pequeno, existiram sempre essas árvores de folhas ásperas para me abrigarem da chuva. Os figos vertiam leite e rebentavam-me os lábios, quando a gula dos figos proibidos era superior às bostelas da tinha no couro cabeludo. Isso era viver o sentido do tempo. Podia também suspirar por uma criptoméria: árvore porosa e altiva, das que sempre fizeram os dias de festa e o esplendor das bandas de música na Ilha. Vinham procissões de andores, com anjos coroados, multidões de opas vermelhas, o grande pálio dourado sob que se abrigavam padres translúcidos e solenes: era sempre domingo quando isso acontecia, todos estavam vivos e não era preciso sofrer a solidão dos meus futuros domingos de Lisboa.

A casa tem os espaços e os passos perdidos de toda a minha vida. A de Lisboa, ao contrário desta, é um corredor com paisagenzinhas dependuradas das janelas, passos suaves nas alcatifas das salas, o santuário tristonho dum quarto de casal. A minha angústia foi-se povoando aos poucos dos ruídos das portas batidas pelo vento. Disse-o o poeta Ruy Belo, que morreu disso, isto é, só de fazer versos: no meu país não acontece nada; à terra vai-se pela estrada em frente… Para mim, no entanto, nunca houve sequer uma estrada que desse para a Ilha, porque Lisboa cortou-me toda a possibilidade dessa retirada. Fechei-me por dentro da cidade magnífica e mortuária, de tal sorte que nunca soube os nomes daqueles que nasceram depois de mim. Não conheci os rostos nem o tempo dos rostos. E, como o pior do homem é a ausência dessas e de todas as outras memórias sobre os lugares, não sei quem sou aqui, o que faço agora nos Açores – ou por que razão vou herdar a sombra duma casa. Dizem-me, os que aqui viveram, que eu serei talvez o primeiro e único morto da família que ainda não morreu…

 

João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas

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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

Antero de Quental

 

Quanta vez, debruçado na janela do quarto que me acolhia na portuense Casa da Pedra, onde vivera e escrevera Oliveira Martins e, depois, pertencera a minha irmã Maria Manuela; quarto onde Antero de Quental tinha a sua cama se, ido de Vila do Conde, resolvia ficar mais tempo com o amigo historiador; quanta vez, eu imaginava o poeta aspirando o aroma intenso do roseiral do jardim tão de compleição romântica que lhe ficava aos pés, ou a lançar o olhar para o alto, onde a igreja da Lapa ergue o vulto austero, recolhendo no seio o coração de Pedro I do Brasil, e badalando horas lentas, na melancolia do bronze!

Por esse tempo, Antero parecia feliz, procurando, como afirma numa carta a um velho amigo e conterrâneo, o equilíbrio moral indispensável para qualquer espécie de trabalho.

 

 

 

 

Não dava, então, notícias daquele poeta pessimista, embrenhado nas leituras sombrias de Shopenhauer e de Hartmann, angustiado pela doença que o levará até ao consultório parisiense de Charcot; essa psicose maníaco-depressiva, que uma vez ou outra lhe dava tréguas, lhe permitia o humor normal e, no dizer sábio do professor Miller Guerra, fases de actividade, energia, bem-estar, optimismo e entusiasmo criador.

Mas foi, decerto, num desses momentos depressivos que, a 11 de Setembro de 1891, ao regressar à terra açoriana de São Miguel, pôs fim à existência com dois tiros de revólver, num banco isolado junto ao muro de uma praça de Ponta Delgada, onde (trágica ironia!) uma âncora assinala o Convento da Esperança.

Ali me detive, em certa visita à ilha de Antero, precisamente 80 anos após a terrível ocorrência, sem me atrever sequer a murmurar o conforto destes dois versos do poeta:

 

Já sossega depois de tanta luta,

Já me descansa em paz o coração.

  

 

Ali, numa compungida meditação, evoquei o poeta que a Geração de 70, a sua geração, considerou, pela pena de Eça de Queiroz, um génio que era um santo.

Nascera em 1842, oriundo de uma família aristocrática, ligada à cultura e possuindo fartos cabedais. Quando por Coimbra se bacharelou, logo revelou a sua força criadora, o seu espírito insubmisso, as suas ocasionais convicções filosóficas e políticas.

Essa vida agitada do pensamento e acção permitia-lhe, no entanto, conceber a simplicidade lírica da quadra dita popular, num feixe de Cantigas dedicadas às águas do Mondego, que um coro ímpar de poetas celebraram:

 

Lindas águas do Mondego,

Por cima olivais do monte!

Quando as águas vão crescidas

Ninguém passa para além da ponte!

 

Musa cristalina, ainda não turvada por dúvidas e transes, ímpetos sociais e lucubrações filosóficas.

Mas antes deste tumulto que iria gerar alguns dos mais extraordinários sonetos da língua portuguesa, houve lugar para a divertida invenção de um poeta satanista, de parceria com o seu camarada Eça de Queiroz, que, mais tarde, lhe criou uma biografia e uma correspondência: Carlos Fradique Mendes.

Com efeito, a 29 de Agosto de 1869, o jornal A Revolução de Setembro publicava um folhetim de versos atribuído a esse poeta desconhecido e original, discípulo dos chamados satanistas do Norte, de nomes bárbaros e de difícil leitura, todos eles fruto da imaginação dos dois jovens escritores.

Antero, oculto pelo pseudónimo Fradique, insere, nesse folhetim, um soneto e um fragmento da ‘Guitarrilha de Satã’, subtraídos a uma obra que naturalmente nunca chegou a editar-se nem sequer a ser realizada: Poemas de Macadame.

Mas foram, no entanto, reunidos no livro póstumo de Antero, Raios de Extinta Luz.

A título de curiosidade, pois pouco maior valor têm as quadras da partida forjada à ignorância cultural portuguesa de então, cito o fragmento dedilhado na Guitarrilha de Satã:

 

Estranha aparição,

Que em minhas noites vejo,

Ó filha do desejo!

Ó filha da solidão!

 

Não sei qual é teu nome,

E donde vens, ignoro:

Sei só que tremo e choro

Como de frio e fome!

 

Que por fundir contigo

Suspiros, ais, rugidos,

Dera ideais queridos,

Deuses e fé que sigo.

 

Sim, dera as profecias

E os cultos salvadores,

E os Gólgotas, e as dores,

E as bíblias dos Messias!

 

Por ti, minh’alma clama,

Corre a meus braços, breve,

Sejas de fogo ou neve,

Sejas cristal ou lama!

 

Se és Beatriz, sou Dante;

Sou santo, se és divina,

Se és Lais ou Messalina,

Sou Nero, ó minha amante!

 

Breve, estas brincadeiras juvenis dão lugar à sisudez do pensador, como a irreverência ou a fogosidade do duelo motivadas pela Questão do Bom Senso e do Bom Gosto, cujo alvo principal era o pontificado literário do velho Castilho, dão lugar às convicções sócio-políticas das Conferências do Casino, em 1871, em que o escritor revolucionário proclamava, apontando soluções, as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. 

O poeta lírico que se sonhava rei, nalguma ilha / Muito longe, nos mares do Oriente e visionava a amada descansando debaixo das palmeiras / Tendo aos pés um leão familiar, despe-se de fantasias exóticas e pomposas e, de camisa arremangada, emprega-se na azáfama de uma tipografia, para o convívio mais estreito com o operariado, todo ele voltado à doutrina socialista, numa missão pedagógica que a poesia serve, submissa aos ditames da sua inspiração: é o nascer do Sol, o Sol ardente da vida à luz do qual quer trabalhar, combater por um futuro melhor para a pobre Humanidade; o Sol, o claro Sol amigo dos heróis.

Mas não tardam as pesadas nuvens do desengano, o espírito profundamente místico de Antero a voltar-se para a filosofia budista, mas entendendo um Budismo coroando o Helenismo, com a interpretação de um Nirvana muito pessoal que igualmente definiu num soneto:

 

Para além do Universo luminoso,

Cheio de formas, de rumor, de lida,

De forças, de desejos e de Vida,

Abre-se como um vácuo tenebroso.

 

A onda desse mar tumultuoso

Vem ali expirar, esmaecida...

Numa imobilidade indefinida

Termina ali o ser, inerte, ocioso...

 

E quando o pensamento, assim absorto,

Emerge a custo desse mundo morto

E torna a olhar as coisas naturais,

 

À bela luz da vida, ampla, infinita,

Só vê com tédio, em tudo quanto fita,

A ilusão e o vazio universais.

 

Com o galopar da doença que o tortura, galopa o seu espírito como um cavaleiro andante em busca do palácio encantado da Ventura, que súbito se lhe depara na sua pompa e etérea formosura; mas, aí, como os sepulcros caiados de tantos hipócritas que Cristo invectivou, ao abrirem-se as Portas d’ouro, com fragor, o Vagabundo, o Deserdado encontra dentro, unicamente, silêncio e escuridão – e nada mais.

Como é pungente o destruir de um alto ideal que se persegue vida fora, qual o brioso cavaleiro, formidável mas plácido no porte, dominando, pelo amor, o impulso da morte que o leva até à eternidade! Venha pois o refúgio no sonho que impede o poeta de enfrentar o horror da realidade mesquinha!

E a quem rogá-lo, esse refúgio, senão àquela Virgem Santíssima, cheia de graça, Mãe da Misericórdia?

 

Ó visão, visão triste e piedosa!

Fita-me assim calada, assim chorosa…

E deixa-me sonhar a vida inteira!

 

Quando, em 1890, a soberba Inglaterra afronta a dignidade portuguesa com um Ultimatum vexatório que aquece ao rubro o nosso patriotismo, os estudantes portuenses, encabeçados pelo jovem poeta Luís de Magalhães, correm ao remanso de Vila do Conde, a convidar Antero de Quental para a presidência de uma recém-criada Liga Patriótica do Norte. Mas, muito cedo o poeta reconhece que aquele sacrifício pelo altar da pátria por ele pedido a todos os portugueses fora, uma vez mais, inútil, pois, como escreve ao jovem Alberto Osório de Castro, Portugal é um país eunuco, que só vive dos interesses materiais e para a intriga cobarde que é o processo desses interesses. Doera-lhe agudamente que o valor patriótico de 1890 rapidamente fosse manietado pela astúcia política.

O seu pessimismo, ainda mais amargo, regressa-lhe ao espírito, já incapaz de compor um verso, e sabendo, agora, como afirma na referida carta, que a política nunca foi muito para poetas.

Antero volve à sua ilha de névoas. Sem esperança já, alma e corpo doentes, é sob o signo da esperança, de uma esperança divina, capaz de perdoar os desvairos do génio para receber o coração do santo, que se atreve ao acto desesperado dos suicidas.

O seu espírito atormentado descera, sim, passo a passo a escada estreita do palácio encantado da ilusão. Mas o coração, esse, dorme (quem pode duvidá-lo?), para sempre feliz, na mão de Deus, na sua mão direita.

(1991)

 

António Manuel Couto Viana, 12 Poetas Açorianos

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Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

2010

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