Domingo, 13 de Setembro de 2009

Deixar em mãos alheias...

 

Recusar Velhos do Restelo

1.Em 1949, quando a voz tinha de ser só uma, certo grande poeta, José Régio, professor em Portalegre, arriscando-se às consequências, ergueu a sua, a denunciar a ditadura e o medo. Havia eleições para a presidência da República e Norton de Matos era o candidato da oposição. Régio apoiou-o. Num caderno da Seara Nova, acerca do medo, escreveu: “inimigo da alma: porque é o medo que tolhe até os impulsos mais generosos, faz desistir até das aspirações mais justas, afoga até o grito mais espontâneo, corrompe e assombra até a mais clara visão da vida.” O medo de quê? De nos arriscarmos e reclamarmos a justiça social? 60 anos passados, o virar de costas à realidade, que é, sobretudo, virarmos as costas a nós próprios e desrespeitar-nos, continua na raiz da resignação portuguesa. Evitamos o risco: o incómodo de nos manifestarmos, e tendemos a ir atrás dos outros indiferentes.

2.Indiferentes a quê? Ao futuro. Encolhemos os ombros (encolhemos a alma) e pensamos: que venha ele, futuro, como vier! E das duas uma: ou nos chegamos aos que parecem garantir a paz podre ou abstemo-nos de nos manifestar. Em eleições, isso descamba no seguinte: ou preferimos aqueles que se mostram dispostos a não melhorar nada (e, afinal, continuam a tirar partido do que está mal ou péssimo) e elegemos os ultraconservadores em vez dos que prometem caminhos renovados, mais justos – ou, razoando para esconder o medo, pura e simplesmente, nos abstemos de votar. Lá está o medo, “inimigo da alma”. Lá está o homem a rebaixar-se. Lá está o homem a não querer saber que é responsável pela sociedade em que vive – e a deixar a própria vida por mãos alheias.
 
Manuel Poppe, O Outro Lado
Jornal de Notícias [13.Setembroo.2009]
publicado por Elisabete às 19:13
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

A ILUSÃO DE LIBERDADE

 

 

Toda a liberdade é uma prisão sem grades visíveis
a que nos sujeitamos com alegria às vezes
por ignorarmos que ser livre obriga
a ficar preso a voláteis princípios
que se transformam em seres inamovíveis
 
Porque ser livre é estar sujeito sempre
ao imprevisível nunca planeado
constituindo a essência do que somos
aspirando a ser o que nunca seremos
mais do que o rasto que deixamos pelo caminho
feito de espuma que depressa se evapora
 
Nele está contida a nossa identidade
que é sempre o somatório do desconhecido
que só se manifesta cego a posteriori
 
                                                                                                                   Manuel Madeira

 

publicado por Elisabete às 22:27
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