Domingo, 22 de Fevereiro de 2015

Um pobre e precioso segredo que não puderam roubar-lhe

Dora Bruder.jpg

 Em Drancy, no meio da balbúrdia, Dora encontrou o pai, ali internado desde Março. Nesse mês de Agosto, como nas Tourelles, como no depósito de presos da Prefeitura de Polícia, o campo enchia-se todos os dias de uma torrente cada vez mais numerosa de homens e mulheres. Chegavam da zona livre aos milhares, nos comboios de mercadorias. Centenas e centenas de mulheres, a quem haviam separado dos filhos, vinham dos campos de Pithiviers e de Beaune-la-Rolande. E quatro mil crianças chegaram, por sua vez, a 15 de Agosto e nos dias seguintes, depois das suas mães terem sido deportadas. Os nomes de muitas delas, escritos à pressa nas roupas à partida de Pithiviers e de Beaune-la-Rolande, já não eram legíveis. Criança sem identidade nº 122. Criança sem identidade nº 146. Menina de três anos. Nome próprio: Monique. Sem identidade.

Por causa da aglomeração no campo e prevendo os comboios que viriam da zona livre, em 2 e 5 de Setembro as autoridades decidiram enviar os judeus de nacionalidade francesa de Drancy para o Campo de Pithiviers. As quatro raparigas que haviam chegado no mesmo dia que Dora às Tourelles – todas com dezasseis ou dezassete anos: Claudine Winerbett, Zélie Stohlitz, Marthe Nachmanowicz e Yvonne Pitoun – também integraram este comboio de cerca de mil e quinhentos judeus franceses. Acalentavam certamente a ilusão de que seriam protegidos pela sua nacionalidade. Dora, que era francesa, poderia igualmente deixar Drancy com eles. Não o fez por uma razão que é fácil de adivinhar; preferiu ficar junto do pai.

Pai e filha deixaram Drancy a 18 de Setembro, com outros mil homens e mulheres, num comboio para Auschwitz.

A mãe de Dora, Cécile Bruder, foi presa em 16 de Julho de 1942, o dia da grande rusga, sendo internada em Drancy. Reencontrou aqui o marido durante alguns dias, quando a filha estava nas Tourelles. Cécile Bruder foi libertada de Drancy a 23 de Julho, sem dúvida porque nascera em Budapeste e as autoridades ainda não tinham dado ordem para deportar os judeus oriundos da Hungria.

Ter-lhe-á sido possível visitar Dora nas Tourelles, numa quinta-feira ou num domingo desse Verão de 1942? Foi novamente internada no Campo de Drancy a 9 de Janeiro de 1943, e partiu no comboio de 11 de Fevereiro de 1943 para Auschwitz, cinco meses depois do marido e da filha.

No sábado de 19 de Setembro, o dia seguinte à partida de Dora e do pai, as autoridades de Ocupação impuseram um recolher obrigatório em represália contra um atentado que havia sido cometido no Cinema Rex. Ninguém tinha o direito de sair desde as três horas da tarde até ao outro dia de manhã. A cidade estava deserta, como que para assinalar a ausência de Dora.

Desde então, a Paris onde procurei reencontrar o seu rasto permaneceu tão deserta e silenciosa como nesse dia. Caminho através das ruas vazias. Para mim, elas continuam assim, mesmo ao entardecer, à hora dos engarrafamentos, quando as pessoas estugam o passo em direcção às entradas do metropolitano. Não consigo deixar de pensar nela e de sentir um eco da sua presença em certos bairros. Uma noite destas foi perto da Gare do Norte.

Ignorarei para todo o sempre de que modo ela passava os dias, onde se escondia, qual era a sua companhia durante os meses de Inverno aquando da sua primeira fuga e no decurso das poucas semanas de Primavera em que se escapulira de novo. Eis o seu segredo. Um pobre e precioso segredo que os carrascos, os decretos, as autoridades ditas de Ocupação, o depósito de presos, as casernas, os campos, a História, o tempo – tudo o que nos macula e nos destrói – não puderam roubar-lhe.

 

Patrick Modiano, Dora Bruder

Dora Bruder.Patrick Modiano.jpg

 

publicado por Elisabete às 14:36
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Segunda-feira, 4 de Março de 2013

A Possibilidade de Uma Ilha

Daniel24,6

 

O complexo entrelaçado das proteínas que constituem o invólucro nuclear dos primatas tornaria, durante vários decénios, a clonagem humana perigosa, aleatória e, afinal, praticamente impraticável. Pelo contrário, a operação revelou-se logo à partida um grande sucesso na maior parte dos animais domésticos, incluindo o cão – não obstante um ligeiro atraso. É, portanto, exactamente o mesmo Fox que dorme aos meus pés enquanto escrevo estas linhas, acrescentando segundo a tradição o meu comentário, como fizeram os meus antecessores, à narrativa de vida do meu antepassado humano.

Vivo uma existência calma e sem alegrias; o recinto da residência permite breves passeios, e um equipamento completo permite-me manter a musculatura. Fox, por seu lado, vive feliz. Circula pela casa, contenta-se com o perímetro disponível – aprendeu rapidamente a afastar-se da barreira de protecção; brinca com uma bola, ou com um dos pequenos animais de plástico (possuo várias centenas, que me foram legadas pelos meus antecessores); gosta muito de brinquedos musicais, em particular de um pato de fabrico polaco que emite vários tipos de grasnidos. Fox aprecia acima de tudo que lhe pegue ao colo e lhe permita permanecer assim, ao sol, de olhos fechados, cabeça pousada nos meus joelhos, numa semi-sonolência tranquila. Dormimos juntos e todas as manhãs me faz uma festa, lambendo-me e arranhando-me com as patitas; para ele, reencontrar a vida e a claridade do dia representa uma evidente felicidade. As suas alegrias são idênticas às dos seus antepassados, e permanecerão idênticas às dos seus descendentes; a sua natureza comporta em si mesma a possibilidade da felicidade.

Não passo de um neo-humano, e a minha natureza não inclui nenhuma possibilidade desta ordem. Que o amor incondicional é condição de possibilidade de felicidade, já os humanos o sabiam, pelo menos os mais avançados. A plena compreensão do problema não permitiu, até agora, avançar para uma qualquer solução. O estudo da biografia dos santos, no qual assentava tantas esperanças, não forneceu nenhuma luz. Não só os santos, em busca de salvação, obedeciam a razões que só parcialmente eram altruístas (embora a submissão à vontade do Senhor, por eles reivindicada, se tivesse reduzido, muitas vezes, a um meio cómodo de justificar, aos olhos dos outros, o seu natural altruísmo), como a crença prolongada numa entidade divina manifestamente ausente provocava neles fenómenos de embrutecimento incompatíveis, a longo termo, com a manutenção de uma civilização tecnológica. Quanto à hipótese de um gene do altruísmo, suscitou tantas decepções que, hoje em dia, ninguém ousa apontá-la. É verdade que foi possível demonstrar que os centros de crueldade, do discernimento moral e do altruísmo se situam no córtex pré-frontal; mas as investigações não permitiram ir mais além desta observação puramente anatómica. Depois do aparecimento dos neo-humanos, a tese da origem genética dos sentimentos morais suscitou pelo menos três mil comunicações, vindas dos meios científicos mais autorizados; até agora, nenhuma delas foi capaz de transpor a barreira da verificação experimental. Além disso, as teorias de inspiração darwinista que pretendiam explicar o aparecimento do altruísmo nas populações animais por uma superioridade selectiva que daí resultaria para o grupo no seu conjunto foram objecto de cálculos imprecisos, múltiplos, contraditórios, antes de acabarem por soçobrar na confusão e no esquecimento.

A bondade, a compaixão, a fidelidade, o altruísmo permanecem, pois, perto de nós como mistérios impenetráveis, embora contidos no espaço limitado do invólucro corporal de um cão. Da solução deste problema depende o advento, ou não, dos Futuros.

 

Eu acredito no advento dos Futuros.

 

Michel Houellebecq, A Possibilidade de Uma Ilha

 

 

 

 

 
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2012

Estavam cansados e havia vergonha no seu olhar, como no dos homens que deixavam de crer…

 

Agora, o desespero apoderava-se dos homens. Mesmo os guerreiros do deserto, os homens azuis invisíveis de Ma el Ainine, estavam cansados e havia vergonha no seu olhar, como no dos homens que deixavam de crer.

Eles ficavam sentados formando pequenos grupos, com as espingardas encostadas aos braços, sem falar. Quando Nour ia ver o pai e a mãe para lhes pedir água, era o silêncio deles o que mais o assustava. Era como se a ameaça da morte tivesse atingido os homens e eles já não tivessem força para se amar.

A maior parte das pessoas da caravana, as mulheres, as crianças, estavam prostradas na terra, esperando que o Sol se extinguisse no horizonte. Já nem tinham forças para dizer a oração, apesar do apelo dos religiosos de Ma el Ainine que soava no planalto. Nour estendia-se no chão, com a cabeça pousada no seu fardo quase vazio, e contemplava o céu sem fundo que mudava de cor, escutando a voz do velho que cantarolava.

Por vezes tinha a impressão de que tudo aquilo era um sonho, um terrível, um interminável sonho que ele sonhava de olhos abertos e que o arrastava ao longo das rotas das estrelas, na terra lisa e dura como uma pedra polida. Então o sofrimento era uma lança cravada e ele avançava sem compreender o que o dilacerava. Era como se saísse de si mesmo, abandonando o seu corpo na terra calcinada, o seu corpo imóvel no deserto de pedras e de areia, semelhante a uma mancha, a um monte de trapos velhos atirados para o solo, no meio de outros montes de trapos abandonados, e a sua alma aventurava-se no céu gelado, pelo meio das estrelas, percorrendo num abrir e fechar de olhos todo o espaço que nem toda a sua vida seria suficiente para reconhecer. Via então, como que surgindo de miragens, as cidades extraordinárias com palácios de pedra branca, as torres, as cúpulas, os grandes jardins inundados de água pura, as árvores carregadas de frutos, os canteiros de flores, as fontes onde se reuniam as raparigas soltando risos ligeiros. Ele via aquilo distintamente, deslizava na água fresca, bebia nas cascatas, provava cada fruto, respirava cada cheiro. Mas o que era mais extraordinário, era a música que escutava quando saía do seu corpo. Nunca tinha ouvido nada semelhante. Era uma voz de rapariga que cantava na língua chleuh, uma doce canção que tremulava no ar e que repetia sempre as mesmas palavras, assim:

- Um dia, oh, um dia, o corvo ficará branco, o mar há-de secar, alguém descobrirá o mel na flor do cacto, alguém fará uma cama com os ramos da acácia, oh, um dia, já não haverá veneno na boca da serpente, e as balas das espingardas já não produzirão a morte, pois será o dia em que deixarei o meu amor…

De onde vinha aquela voz, tão clara, tão doce? Nour sentia o seu espírito deslizar ainda para mais longe, para lá desta terra, para lá deste céu, para o país onde há nuvens negras carregadas de chuva, rios profundos e largos onde a água nunca pára de correr.

- Um dia, oh, um dia, o vento não soprará sobre a terra, os grãos de areia serão doces como o açúcar, debaixo de cada pedra do caminho haverá uma nascente à minha espera, um dia, oh, um dia, as abelhas cantarão para mim, pois será o dia em que deixarei o meu amor…

É lá que ribombam os ruídos misteriosos da tempestade, é lá que reina o frio, a morte.

- Um dia, oh, um dia, haverá o Sol da noite, a água da Lua deixará as suas poças na terra, o céu dará o ouro das estrelas, um dia, oh, um dia, verei a minha sombra dançar para mim, pois será o dia em que deixarei o meu amor…

É de lá que vem a nova ordem, aquela que expulsa os homens azuis do deserto, que faz irromper o medo em todo o lado.

- Um dia, oh, um dia, o Sol será negro, a terra há-de abrir-se até ao centro, o mar cobrirá a areia, um dia, oh, um dia, os meus olhos já não verão a luz, a minha boca já não poderá dizer o teu nome, o meu coração deixará de bater, pois será o dia em que deixarei o meu amor…

A voz desconhecida afastava-se a murmurar e Nour ouvia de novo a canção lenta e triste do guerreiro cego que falava sozinho, com o rosto voltado para o céu que não conseguia ver.

 

J.M.G. Le Clézio, Deserto

 

 

publicado por Elisabete às 14:50
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Domingo, 29 de Julho de 2012

A Amante de Brecht

[…] Hans Trow esperava debaixo do enorme relógio do refeitório. A luz entrava pela janela e aclarava o fato cinzento e a camisa branca de gola aberta, impecavelmente engomada. Virou-se para ver Maria aproximar-se. Levantou a cabeça com ar embaraçado quando ela chegou junto de si.

Bom-dia, Hans, disse ela, pensou ela, repetiu ela interiormente.

- Tenho pouco tempo – disse Hans.

Dê-mo só para mim, suplico-lhe, pensou Maria. Ficou diante dele com ar embaraçado e sorriso algo formal. Ele tem ar de um simples jovem mas existirá neste país um simples jovem de coração puro… neste país à deriva…

- Como está?

Ela não compreende o que ouve. Hans vira-se, sorriso imperceptível e doce. Diz-lhe, enquanto faz tilintar alguma coisa metálica no bolso:

- Por que não partiu para o Ocidente?

Ele sentou-se a um canto da mesa.

- Se lho tivesse pedido…

- Eu teria respondido que podia partir.

Ela estremeceu, afastou-se um pouco e os olhos foram parar nos grafitis obscenos da parede, gastos pela humidade. Sentia-se inabitada. Um fantasma. Fechou os braços contra a blusa. Hans Trow apercebeu-se de que ela tremia. Aproximou-se dela e pousou-lhe a mão sobre o ombro.

- Como é que vai isso?

- Não vai lá muito bem.

Ela acrescentou:

- Acontece-me frequentemente.

Hans olhou-a fixamente e os músculos em redor dos olhos de Maria estremeceram ligeiramente. Hans não soube o que dizer; puxou devagar as pegas da mala de mão de Maria e fez girar a pequena fechadura de couro num clique. Maria pensou: Dêem-me uma ilha para amar este homem, qualquer ilha; só para mim, este homem, nem que seja por uma semana na minha vida…

As longas filas de mesas desprendiam um oceano de tristeza. Os braços de Maria, tão belos, pendiam ao longo do corpo. Hans examinava as fotos, as instruções, os envelopes cobertos de pequenas notas, gatafunhos, redigidos por Maria, contendo reflexões pessoais e frases retiradas do contexto quando Brecht, depois de três bagaços, começava a falar, à noite, no meio das velas.

- O que é que ele lhe fez?

- Nada de especial.

- Ele ainda pensa na China?

- Sempre.

Meu Deus, pensou ela, que ele me tome, que me agarre, que nunca mais se vá embora… nunca mais… Meu Deus, faz com que isso aconteça…

- Tenho pouco tempo, Maria, mas tem de chegar ao Ocidente.

Sim, Hans, bem, Hans, compreendeste, Hans, que é preciso para que venhas comigo?

- Você é uma pessoa especial, Maria Eich, mas deve partir, a mais-valia comunista tornar-se-á algo secundário, sobretudo para alguém como você. Você já não está em condições.

Ela esteve quase a dizer-lhe: “Sou um coração puro e ardente.”

Hans disse:

- Já não precisa de estar dependente desta gente.

Ele procurou fórmulas atenciosas, educadas, sinceras para acabar com esta situação crítica da observação tão próximo dele.

- Você conseguiu tudo o que podia conseguir, Maria.

Agarrou-a pelo pulso, a mala estava aberta entre eles sobre a mesa, ela quis apoiar-se mais estreitamente contra ele e isso desequilibrou-a. Colou a cara ao casaco dele e não se mexeu mais.

O cheiro quente e doce dos pinheiros e das ervas da nossa ilha, apenas os dois, uma semana, peço uma só semana.

Hans desprendeu-se devagar e apanhou as fotos que estavam espalhadas no chão.

- Deve partir… Quando voltar a Berlim em Setembro, encontrará os documentos para o Ocidente, e dinheiro, ocupar-me-ei disso pessoalmente…

Ela parecia uma estátua, com os olhos desmesuradamente abertos. O seu lábio inferior tremia. Ele apanhava a papelada, devolveu a mala de mão, imprimiu nos gestos toda a cortesia e a sensibilidade que podia mas Maria tinha um ar adormecido, como num sonho.

- Agradeço-lhe – disse ela com voz apagada.

- Não me agradeça, Maria.

Emergiram no pátio. Um sol duro cegava-os.

- Não esteja triste – disse ele. – Mas não nos voltaremos a ver.

Alcançaram uma espécie de piscina cimentada com encaixes de alcatrão. Um carro preto soviético esperava, um desses grandes carros oficiais que atravessam Berlim a toda a hora.

Hans abriu a porta do carro e olhou para Maria.

- Aonde vai?

- Buscar a minha bicicleta.

Ele brinca com as últimas gotas do meu sangue e da minha vida… O difícil trabalho da respiração. Vou morrer, pensou Maria, os olhos enevoados.

O pára-brisas girou num brilho de luz, depois o carro avançou por detrás das vedações. Já não havia ilha, nem jardins perfumados. Apenas uma velha parede, janelas com grades. Maria sentiu-se cercada numa imensa paisagem. Verdura sem reflexos. Pedalava, chorando devagar e examinava, incrédula, o céu imenso.

Dai-me uma semana numa ilha com ele, um só dia…

[…]

A publicação das obras completas de Brecht, de Suhrkamp, interessou Maria enormemente. Folheou e comprou os pesados volumes. Os seus anos de actriz desfilaram. Não se falava dela nas notas; ficou feliz.

Mantinha um amor secreto que tinha por nome Hans Trow. Apercebeu-se disso numa tarde em que lia o Zeit à beira do Neckar. Na página oito, podiam ver-se vários polícias de uniforme, os Vopos. Tinham descoberto a entrada de um túnel em Berlim-Leste, numa cave de restaurante. Havia o rosto de um homem vestido à civil, de cinzento, e, sem hesitar, Maria reconheceu Hans Trow, a sua expressão de curiosidade, a forma um pouco fugaz do maxilar, um ligeiro sorriso. Ficou com um nó no estômago. Sentiu a cabeça bloquear. Sentiu-se desfalecer, a boca seca. A tarde foi negra, obscura, terrível, o serão interminável, desolado. Caminhou ao longo das casas do bairro, escalou as colinas mais azuladas mas nada a salvou do desgosto. As pernas seguiam as sombras. Num minuto, ela perdera os seus hábitos, pensamentos, o sentimento de confiança que tinha penosamente reconquistado aqui, com os seus passeios solitários, as horas de natação, os circuitos de carro pelas estradas, tudo fracassara.

Refugiou-se por fim numa taberna. Bebeu. Para soltar o aperto, a dor. Mas existia, a soar nela, desde há muito tempo, uma prece nunca atendida, uma prece da qual não espera mais nada.

[…]

Maria folheava os jornais, pilhas inteiras, jornais alemães, austríacos. O Muro de Berlim teve uma estranha influência no espírito de Maria. Em vez de rejeitar o marxismo, interessou-se por ele como quem se interessa pela filoxera ou gangrena. Sentia nela forças inibidoras, um estado de bizarra fermentação psicológica. Não conseguia imaginar a vida dos outros. Passava os dias a contemplar fixamente as famílias, a interrogar-se sobre os laços que as pessoas teciam entre si. Como é que se podia falar, calar, dormir com alguém, dizer disparates, jogar às cartas, fazer coisas?

[…]

Talvez tenha sido incapaz de compreender Brecht e o Berliner… Talvez a sua inteligência solitária tenha sido demasiado estreita, limitada, enevoada. Teria sido demasiado presunçosa?

A imagem de um arbusto à sombra do gigantesco carvalho fê-la sorrir. Sim, ela tinha espionado não o “homem que amava” mas o homem que “a fascinara”. Berlim, lá longe, brilhava num mundo que lhe era totalmente estranho. Tinha a impressão de voltar a si, lentamente, como uma pessoa convalescente. Seria a sua incapacidade para compreender os jogos? As situações? Sem dúvida teria sido demasiado sensível. Demasiado sentimental? Mas toda a sua energia, o seu “coração ardente e puro” tinham encalhado nestes serões tristes. Turno da noite, mundo fantasmático e apaziguado… Poderia um dia desculpar-se por ter espiado Brecht?

Desde há tanto tempo, a sua incapacidade para compreender um mundo binário, fragmentado, dogmático e frio tinha-a reduzido a um fantasma. Ela era uma ausência no mundo. Sabia que aqui, pelo menos, com ou sem alunos, no Verão que findava, nesta coberta tão fina colocado sobre o Tempo, podia morrer-se e até sorrir. A violência do mundo exterior não atingia este pátio.

 

Jacques-Pierre Amette, A Amante de Brecht

 

publicado por Elisabete às 20:06
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Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

À Procura do Tempo Perdido

 

 

 

Em mim, também, foram destruídas muitas coisas que julgava que iam durar para sempre, e novas coisas se edificaram, dando nascimento a penas e alegrias novas, que eu não poderia prever então, da mesma forma que as antigas se me tornaram difíceis de compreender.

 

Marcel ProustNo Caminho de Swann,
Em Busca do Tempo Perdido I
 

 

 

Marcel Proust nasce a 10 de Julho em Auteuil (França), no ano de 1871. Pertencendo a uma abastada família de origem judaica, Proust frequenta o liceu Condorcet e, apesar de sofrer de asma, cumpre o serviço militar e estuda Direito na Sorbonne.
Frequenta os salões da alta sociedade, conhece os caprichos da decadente aristocracia parisiense, desmistifica o amor, o desejo e valoriza a arte.
Em 1896, inicia o seu primeiro romance, "Um Amor de Jean Santeuil", que não termina, e publica "Os Prazeres dos Dias". A partir de 1899, dedica-se à tradução do crítico de arte John Ruskin.
Em 1905, com a morte da mãe, recebe uma confortável herança e inicia um progressivo afastamento da intensa vida social a que se habituara.
Inicia o autobiográfico “Em Busca do Tempo Perdido” (À la Recherche du Temps Perdue), à volta das suas memórias. O seu mundo interior torna-se o centro de uma escrita que procura na solidão do seu quarto.
A obra, de sete volumes [“No Caminho de Swann”, “À Sombra das Raparigas em Flor” (Prémio Goncourt), “O Caminho de Guermantes”, “Sodoma e Gomorra”, “A Prisioneira”, “A Fugitiva”, e “O Tempo Redescoberto”], garante-lhe a importância que ocupa nas Literaturas Francesa e Mundial.

  Morre em Paris, no dia 18 de Novembro de 1922, de pneumonia.

 

publicado por Elisabete às 21:35
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