Quarta-feira, 18 de Março de 2009

18 de Março

Para a IBEL

 

Quero levar-te, em dia de aniversário, ao tempo quase mítico da infância e da adolescência, na cidade onde nascemos. Estávamos a 10 de Junho de 1962 e, no Teatro Gil Vicente, era levada à cena a peça Jograis da Pátria, da autoria da  D. Maria Lúcia Azevedo.

  

 

Claro que a personagem principal era o Camões e eu, muito bem sentada no cadeirão, vestia a pele da Infanta D. Maria.

 

 

A pessoa que nos guiou nessa aventura é tua conhecida: a D. Maria Manuela, nossa professora de Francês.

Vê lá se conheces mais alguém!

 

 

 

Para ti, amiga, muitas, muiiiitas felicidades!

publicado por Elisabete às 00:47
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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

GUARDA: imagens de hoje... memórias de outrora

 

Na sagrada Beira
 
A Guarda contaria então (finais de 40, princípios de 50) uns dez mil habitantes: o liceu, o seminário, o colégio dos padres (o Rocha), o quartel, o sanatório, o tribunal. Ultra-conservadora,fechada, atenta à correcção dos desvios, à rotina cinzenta, caiu-me em cima e apertou-me. “De pequenino se torce o pepino”, diz o povo. Talvez; mas há pepinos que custam a torcer e há-os os que nunca se deixam torcer… Na Guarda daquele tempo, a cultura limitava-se à Biblioteca Municipal e à papelaria do Sr. Casimiro. Graças a ele, tive acesso, sem que ninguém me aconselhasse, às primeiras leituras de Thomas Mann, Proust, Steinbeck, Gogol, Somerset Maugham, Romain Rolland; e de André Gide, para escândalo dos meus professores do Rocha. Li-os nas saudosas colecções “Miniatura” e “Os Livros das Três Abelhas”, nos “Livre de Poche”.
O “escândalo” de privar com Gide, que não chegou a dar-se, merece um aparte simpático: ia eu a sair da papelaria do Casimiro, todo ufano, numa tarde do Inverno de 1953, com La Symphonie Pastorale, debaixo do braço, na capa uma linda Michèle Morgan, e esbarro com o meu professor de francês, o Padre Manuel Cabral, que arregalou os olhos para o livro. Sorriu, embaraçado, e não comentou; nem ali, nem na escola, apesar da Opera omnia Andreae Gide constar, desde 24 de Maio de 1952, (decisão muito recente…), do tenebroso Index librorum prohibitorum do Vaticano. Devo-lhe essa cumplicidade – e devo-a, com certeza, à sua inteligência e sensibilidade, qualidades raras no tal colégio.
Museu
 
Na Biblioteca Municipal, uma outra figura singular, extraordinária naquele meio estreito, o Padre Pôpo, o director, ajudou-me, deixando-me levar para casa os autores que eu queria, não cuidando da minha idade – descuido precioso -, fechando os olhos e, até mesmo, estimulando a minha curiosidade e a minha sede de entrar no mundo mítico da literatura. Quanto me apoiou a sua compreensão! Li Tolstoi, Feodor Sologub (A Loucura de Peredonov, na Inquérito), Raúl Brandão, Alexandre Dumas (A Rainha Margot, que me pai me escolheu, para ajudar a passar a convalescença de uma pequena intervenção cirúrgica), os primeiros romances de Dostoievski.
Anos mais tarde, reformado o Padre Pôpo, nomearam um ex-universitário coimbrão, da fina flor ultramontana, arranjadinho, esterilizado, de risca ao lado e óculos, esticadinho, cor de mortalha, que me proibiu de levar para casa O Contrato Social,de Rousseau. Onde terá ido parar esse idiota?
Casas da Praça Luís Vaz de Camões
(também Largo da Sé ou Praça Velha)
 
Havia, ainda, o Cine-Teatro. Ali pude ver, entre outras obras, Europa 51, de Rossellini, Luzes da Ribalta, de Chaplin, O Terceiro Homem, de Carol Reed, La Carrozza d’Oro, de Jean Renoir, no meio dos dramalhões com a bela e doce Maria Schell, que punha em pranto a plateia e me encheu os primeiros sonhos da adolescência, ou dos melodramas com o galã de serviço, Amadeo Nazzari a apostrofar a filha apaixonada: “Vatene donna, questa casa non è più la tua!” (a primeira frase que aprendi a dizer em italiano).
A obra-prima de Renoir merece, também, um aparte, que ajude a compreender o mundo em que vivia: ao intervalo – os filmes tinham um intervalo -, eu saí alvoroçado, entusiasmado, certo de assistir a um espectáculo superior. Certo? Desconfiado – porque tudo aquilo ia contra a mentalidade da cidade, contra os princípios que tentavam impor-me – de solidariedade. Qual apoio, qual solidariedade! Os comentários eram negativos e de troça. Tive de arranjar força para não desistir da minha admiração. E fui começando a aprender a ter opiniões próprias, a arriscar-me a não compartilhar as dos outros. Gide, ao longo da vida, reforçaria a minha ideia de que o “consenso” é, sempre, perigoso e redutor – e, as mais das vezes, é consentimento e desistência, medo e covardia.
Na Praça Velha, a Lareira dos Pobres
 
No Cine-Teatro ri, com Vasco Santana, no Daqui fala o morto e ouviosmonólogos intermináveis de Alves da Cunha, numa peça triste. Lembro-me de um casal, na primeira fila, desconhecido e deslocado, provavelmente vindos de fora, ela de vestido preto e colar de pérolas, ele de fato azul escuro e gravata vermelha de seda, que se levantavam para aplaudir freneticamente cada tirada. E olhavam à roda, com ar de desafio, exibindo a sua superioridade intelectual perante uma plateia pasmada e incrédula. Continuo a vê-los, obsoletos, como me pareciam Alves da Cunha e a peça. Impressionaram-me – apesar do anacronismo a que já me habituara e ao qual reagia como podia. Devo reconhecer, no entanto, que a programação do Cine-Teatro não era nada má. O proprietário, Júlio Xavier, distinguia-se, aliás, naquele mundo insípido (e, no entanto, cheio de subterrâneos onde fervia a vida), pelo carácter original e irreverente.
Não quero ser injusto: nem o meio era insípido, nem a solidariedade faltava. Não encontraria, com certeza, um adolescente rebelde o sal e o apoio junto daqueles que ali mandavam. Esses viviam num círculo interdito aos jovens ainda jovens: ainda capazes de contestarem a vida surda, parda, resignada. Mas encontrava-os – e encontrei-os – em camaradas da mesma luta, do mesmo inconformismo. E valeu a pena – agradeço ao monte perdido da sagrada Beira o combate a que me obrigou e quanto me deu.
 
Manuel Poppe, Memórias, José Régio e Outros Escritores
publicado por Elisabete às 21:31
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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

José Régio e uma casa da minha memória

Lugar da minha memória

 

Toada de Portalegre

 

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...
 
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.
 
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
( Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante de uma janela
 
 
Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!
 
 
Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e azuis da distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e amarelos,
Salpicados de oliveiras,
E que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
Daquele silêncio imenso,
Sentia o chão a fugir-me,
- Se abriam diante dela
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego...
 
Ora agora,
Que havia o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento suão
De se lembrar de fazer?
 
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Que havia o vento suão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
O documento maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer?
 
 
Lá num craveiro, que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...
 
Como é que o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me trouxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere... e consola
Com o próprio mal que faz?
 
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for
Me davam então tal vida
Em Portalegre; cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me davam então tal vida
- Não vivida!, sim morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão,
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites do tal suão
Já varias vezes tentara
Meus dedos verdes suados...
 
Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Confia uma sementinha
Perdida entre terra e céus,
E o vento a trás à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fôra
Feita para eu morar nela!
 
Lá no craveiro que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acaciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu; dom do meu Deus!,
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus,
Como dedos apontados
De gigantes enterrados...
Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar nos animais,
De humanizar coisas brutas,
E ter criancices tais,
Tais e tantas!,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for!
 
O amor, a amizade, e quantos
Mais sonhos de oiro eu sonhara,
Bens deste mundo!, que o mundo
Me levara,
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixando só, nulo, vácuos,
A mim que tanto esperava
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver...
 
E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casa que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.
 
Vento suão!, obrigado...
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado
Sem eu sonhar, me chegara!
 
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!... mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.
 
                                                      José Régio
 
 

 

publicado por Elisabete às 11:52
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