Segunda-feira, 21 de Março de 2011

REPTO

 

Aceito o desafio.

Que poeta se nega

A um aceno do acaso?

Tenho o prazo

Acabado,

O que vier é ganho

Na lonjura

Da última aventura

É que a alma revela o seu tamanho.

 

Extremo Oriente da inquietação,

Lá vou!

A quê, não sei,

Mas lá descobrirei

Que razão me levou.

Lá, onde tantos que me precederam,

Se perderam,

E aprenderam, na perdição,

Que só é verdadeiro português

Quem, um dia, a negar a humana pequenez,

Se inventa e se procura

Nas brumas do mar largo e da loucura.

 

                                                           Miguel Torga 

                                                                    

publicado por Elisabete às 15:16
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 18 de Março de 2010

Em dia de aniversário

 

[…]
É que ser novo não é só ter vinte anos no corpo. É tê-los, também, intemporalmente na alma, em cada instante rendida ao milagre permanente da vida, e pronta a coadjuvá-lo e enriquecê-lo. É não deixar morrer em nós o íntimo sentimento de que apenas nos foi dada uma oportunidade, a da nossa própria existência. Que somos nela uma singularidade radical, até quando o não parecemos, e latejam dentro de nós, incorruptíveis, as forças necessárias para o afirmar em todas as idades.
[…]
Miguel Torga, Diário XVI

 

publicado por Elisabete às 00:02
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Recolhimento religioso

 

Caldelas, 22 de Agosto de 1555 - Não há nada que perturbe mais o homem do que a solidão do semelhante. Em vez de respeitar nela o religioso recolhimento da vida que tenta aprofundar-se, olha-a apenas como um insulto à sua própria dignidade de conviva. E é talvez por isso que os sedentos de silêncio se refugiam nos desertos ou se emparedam. Aí, ao menos, não ofendem ninguém.

 

Miguel Torga,  Diário VII

 

 

publicado por Elisabete às 16:06
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Domingo, 21 de Junho de 2009

Com a acuidade do milhafre

  

Coimbra, 17 de Julho de 1953 – Tento compreender o meu caso, explicar a razão dos escrúpulos que me atormentam. Talvez porque me defendo mal e sou incapaz de transformar em oiro o latão das falências, necessito de fazer as coisas bem, o melhor que posso, de levar cada acto à bigorna do absoluto. Vejo os meus defeitos e erros com uma acuidade de milhafre que a mil metros de altura descobre uma minhoca num lameiro. Não importa que os outros ignorem isso, ou que eu, aparentemente, me contradiga. Por dentro é assim. Corrói-me uma tal crueldade de auto-análise, uma severidade tão desumana de juiz honrado em causa própria, que me condeno antes dos crimes, logo ao dealbar da consciência deles, embora depois não resista à tentação de os cometer. Por isso, numa precaução instintiva, espremo as poucas virtudes que possuo até elas me secarem nas mãos. Que não seja por falta de esforço e de sinceridade que a obra falhe e o homem deixe de ter dignidade. Infelizmente, a silha acaba por se marcar no corpo e na alma. E há qualquer coisa de penitente perpétuo na minha fisionomia quotidiana. Caminho ao encontro da vida não como o namorado que se dirige ao encontro da noiva, mas como um funcionário que vai prestar contas ao patrão.
Devo acrescentar, porém, que esse sentido da responsabilidade não esmoreceu nem azedou a força instintiva da esperança que sempre senti latejar no ânimo e no coração. Creio até que, pelo contrário, foi inabalável a confiança no futuro que, pondo-me na obrigação moral de o ajudar a construir, carregou de pânico os meus passos e de sombras o meu rosto. Como os méritos são poucos e os tempos não auxiliam, a pobre areia do meu concurso parece-me irrisória. Deponho-a, contudo, conscienciosamente, aos pés do edifício a erguer, e a tristeza com que o faço, que pode parecer apenas desespero, é, sobretudo, amargura por não ser capaz de mais.
 
Miguel Torga, Diário VII
 

 

publicado por Elisabete às 17:56
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

Torga e o Piódão

 

Piódão, 7 de Abril de 1991

 

Com o protesto do corpo doente pelos safanões tormentosos da longa caminhada, vim aqui despedir-me do Portugal primevo. Já o fiz das outras imagens da sua configuração adulta. Faltava-me esta do ovo embrionário.

 

Miguel Torga

 

 

 

publicado por Elisabete às 08:53
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Palavras de poeta...

 

 

Hoje é que vejo o meu erro,
o absurdo de me não contentar com meias medidas.
De exigir o absoluto a naturezas relativas.
 

Miguel Torga

 

publicado por Elisabete às 21:20
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

O eterno recomeço

 

 

 

SÍSIFO

 

Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances,
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

 

Miguel Torga

 

publicado por Elisabete às 22:41
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

A FARSA DO PRESENTE

 

QUANTOS SEREMOS?



Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

publicado por Elisabete às 23:09
link do post | comentar | favorito

*mais sobre mim

*links

*posts recentes

* REPTO

* Em dia de aniversário

* Recolhimento religioso

* Com a acuidade do milhafr...

* Torga e o Piódão

* Palavras de poeta...

* O eterno recomeço

* A FARSA DO PRESENTE

*arquivos

* Dezembro 2018

* Junho 2018

* Maio 2017

* Abril 2017

* Março 2017

* Fevereiro 2017

* Janeiro 2017

* Setembro 2016

* Junho 2016

* Abril 2016

* Novembro 2015

* Setembro 2015

* Agosto 2015

* Julho 2015

* Junho 2015

* Maio 2015

* Março 2015

* Fevereiro 2015

* Janeiro 2015

* Dezembro 2014

* Fevereiro 2014

* Janeiro 2014

* Dezembro 2013

* Novembro 2013

* Setembro 2013

* Agosto 2013

* Julho 2013

* Junho 2013

* Maio 2013

* Abril 2013

* Março 2013

* Fevereiro 2013

* Janeiro 2013

* Dezembro 2012

* Novembro 2012

* Outubro 2012

* Setembro 2012

* Agosto 2012

* Julho 2012

* Maio 2012

* Abril 2012

* Março 2012

* Janeiro 2012

* Dezembro 2011

* Novembro 2011

* Outubro 2011

* Setembro 2011

* Julho 2011

* Maio 2011

* Abril 2011

* Março 2011

* Fevereiro 2011

* Janeiro 2011

* Dezembro 2010

* Novembro 2010

* Outubro 2010

* Agosto 2010

* Julho 2010

* Junho 2010

* Maio 2010

* Abril 2010

* Março 2010

* Fevereiro 2010

* Janeiro 2010

* Dezembro 2009

* Novembro 2009

* Outubro 2009

* Setembro 2009

* Julho 2009

* Junho 2009

* Maio 2009

* Abril 2009

* Março 2009

* Fevereiro 2009

* Janeiro 2009

* Dezembro 2008

* Novembro 2008

* Outubro 2008

* Setembro 2008

* Agosto 2008

* Julho 2008

* Junho 2008

* Maio 2008

* Abril 2008

* Março 2008

* Fevereiro 2008

* Janeiro 2008

* Dezembro 2007

* Novembro 2007

* Outubro 2007

* Setembro 2007

* Agosto 2007

* Julho 2007

* Junho 2007

* Maio 2007

* Abril 2007

* Março 2007

* Fevereiro 2007

*pesquisar