Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2015

Nada para mim. Portugal.

 

Almada Negreiros-nome-de-guerra.jpg

A explicação do sossego do quarto ao alugá-lo era ser domingo. Os vizinhos daquele prédio tinham ido de passeio ao campo, restituir-se à natureza.

Saiu da cama e subiu os três degraus para chegar à janela. Já começara o primeiro aviso do anoitecer. Vinha uma aragem do Tejo, fria, na cara quente de estar deitado, o bastante para mudar para outro assunto. O rio movia-se com um certo rebuliço, que dava a ideia também de ir fechar por hoje. Em todo o caso via-se bem que era domingo, pois o ruído era diferente do dos dias úteis. No fundo dos pátios, os andares mais baixos acendiam as luzes. O Antunes descobriu que a noite nascia da terra. Um transatlântico imenso custava a deslocar-se do cais, como um mau pensamento leva tempo a deixar-nos. O resto do dia juntava-se todo a Oeste. A outra margem perdia o volume e achatava-se num plano. Cada vez ia cabendo mais tudo dentro de uma só olhadela. Poder-se-ia ver Portugal inteiro de uma só olhadela, como no mapa, em aeroplano?

- Palmela e Almada. De cá, Sintra e Santarém. Mouros, Afonso Henriques. Os cruzados. E desde então até hoje. Até aqui a esta água-furtada. Até mim. Tanta gente e tantos séculos encarreirados por aqui: as quinas, Avis, caravelas, o pelicano, a esfera armilar, Filipes, azul e branco, encarnado e verde, e continua. Nada para mim. Portugal.

 

José de Almada NegreirosNome de Guerra

publicado por Elisabete às 16:15
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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

No 152º aniversário de As Flores do Mal

Édouard Manet.A amante de Baudelaire, reclinada

  

A que está sempre alegre

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua chama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um ballet de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!
 
                                                           Baudelaire, in As Flores do Mal

 

publicado por Elisabete às 11:58
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