brilhavam gotas ásperas quase secas pela temperatura do fogo próximo, brilhavam na baba que a sua boca trémula deixava escorrer, ou ainda, porque tudo no seu rosto negro eram rastros amarelos, um ranho calmo brotava do seu nariz
o seu choro era calmo e doce porque cansado,
perdido da sua casa desde os primeiros instantes do fogo, buscou primeiro referências visuais que o fumo impediu, entregou-se ao tacto e queimou a ponta dos dedos, e caminhou, forçando a sua coragem de menino gigante que recusava entregar-se à morte, caminhou, buscando os irmãos ou uma voz conhecida, buscando a vida ou o que fosse uma saída, caminhou como se as ruas menos queimadas fossem a saída do labirinto,
molhou o corpo e o cabelo e a boca com a primeira água que encontrou e, no meio dos estranhos ruídos, o menino, no seu choro cansado, começou por descobrir uma espécie de silêncio, uma cama de tons não musicais que nasciam dos ruídos vindos das árvores e das casas em queda
os líquidos todos no seu rosto – o que era baba e ranho, o que era lágrima e medo, tudo isso se esvaiu numa sensação repentina em que o incrível monstro da solidão gemeu e se desfez – o menino viu um peixe arfante saltitando, cheirando, se fosse isso, mínimas gotículas de água onde ela houvesse, para saber, também ele, da possível salvação,
do outro lado, como se de duas criaturas salvadoras se tratasse, um pássaro branco, chamuscado e manco, compunha o cenário que, repentinamente, como um poder renovador do mundo, fazia o menino, no meio do fogo, começar a sorrir,
não hesitando, a criança, em transportar consigo o seu sorriso, os seus dedos queimados, as unhas doloridas, levando a fome no seu estômago em ardência, trazia de um lado do peito, por segurança, restos de um sólido medo, do outro, meio apagada, uma intensa saudade da mãe e
acometido de súbita sabedoria, pegou no peixe trémulo e deu de comer ao pássaro – como se aquele gesto resolvesse o mundo.
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