- Estou a vir de uma região onde tem havido sempre guerra (em nome da guerra fria ou não, mas a guerra fria era só pretexto) e as pessoas passaram a matar-se por falarem línguas diferentes. Outras falavam a mesma língua e matavam-se na mesma porque descobriam outras diferenças. Essas guerras acabavam em acordos de paz, com muitas cerimónias e observadores estrangeiros em nome da ONU. Conheces, mas deixa-me contar na mesma. Nalguns sítios, houve eleições comprovadas internacionalmente e observadas pelas habituais ONG se banqueteando humanitarismos por ali. No entanto, as pessoas continuavam a matar-se. Agora desapareceram as pessoas. Eu olhava durante estes dias as árvores e as montanhas, sem gente, sem gorilas, nem serpentes, mas via os espíritos das pessoas combatendo. Continuam combatendo, só que agora é apenas em espírito. Terra desgraçada, feita para matar e morrer. Vou embora, não quero mais ver estas montanhas, estes lagos, esta natureza demasiado bela e tão cruel. Sem os pacíficos e civilizados gorilas isto significa pouco para mim. Compreendes, ao menos?
- Também em Calpe tem havido guerras, no fundo é a mesma região com os mesmos problemas – disse Julius. – Só não tem gorilas há muito…
- Estarei a ser racista, a dar mais importância aos bichos que aos homens? Tenho medo de parecer racista, é inerente a um americano liberal.
- Todos somos. Quer queiramos quer não. O racismo está no espírito criador de todas as religiões. E mesmo os ateus foram tocados por essas culturas, adquirindo portanto tiques racistas. Quando uma pessoa de cor diferente me estende a mão e precisa de dizer, eu não sou racista, no fundo está a confessar que é, porque reagiu em função da minha cor diferente. Não sentiria necessidade de o dizer a um da sua cor.
- É lógico. E o meu medo de parecer racista é puro racismo. É isso que estás a querer insinuar?
- Insinuar não. Estou mesmo a dizer. Mas sem te culpar. Por isso digo, se sentes necessidade de abandonar esta região que já não te diz nada, acho que o deves fazer. Voltar a casa. Mesmo sabendo a casa vazia.
Ela ficou muito tempo em silêncio, enquanto ele lhe acariciava os cabelos. A pele era puro cetim, nacarado, o que o encantava. Nunca tinha tocado e cheirado uma pele tão branca. Nunca tinha ficado tanto tempo na cama com uma mulher, conversando e fazendo amor. Normalmente, fazia o que tinha a fazer e ia embora ou então dormia. Mas a tarde estava no fim e não tinha vontade de sair nem de dormir. Só ficar ali, conhecendo-a, tocando-lhe, cheirando o seu perfume de fêmea. Era de facto um dia de todos os mistérios e de todas as descobertas.
- Ias comigo? – perguntou Janet, muito baixinho.
Ele não respondeu. Ela não ousou voltar a perguntar. E ele continuou em vão a procurar a resposta.
Pepetela, O Quase Fim do Mundo
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