Quarta-feira, 28 de Setembro de 2016

O CÓDIGO SECRETO DA CAPELA SISTINA

Enquanto os Papas rejubilavam com os frescos do tecto, Miguel Ângelo ocultava, na Capela Sistina, críticas à decadência da Igreja. Um legado pouco católico do mestre renascentista, agora recordado a propósito dos quinhentos anos da jóia do Vaticano

Capela Sistina1.jpg

A ideia que Miguel Ângelo tinha de si mesmo como artista não coincidia com os planos que Júlio II tinha para o mestre renascentista. Queria, o Papa que o tecto da Capela Sistina, no Vaticano, se tornasse um gigantesco fresco retratando a criação de Adão e Eva, Noé e o Dilúvio, Deus a formar o Mundo, e outras cenas bíblicas que reforçassem o prestígio da Santa Igreja junto dos fiéis. Miguel Ângelo que se considerava escultor e não pintor, criou a obra-prima que fez o mundo aloelhar de devoção, mas aproveitou para se vingar com elegância: muitos dos conteúdos dos frescos, codificados para iludirem a vigilância do pontífice e pouparem o artista à morte, revelaram ser mensagens esotéricas e críticas veladas à decadência da Igreja. Só isso explica que o Vaticano não festeje com pompa os quinhentos anos desta obra, visitada anualmente por quatro milhões de turistas.

O projecto de construção da Capela Sistina, à imagem do lendário Templo de Salomão, em Jerusalém, descrito pelo profeta Samuel no Livro dos Reis, foi encomendado em 1475 pelo papa Sisto IV, que lhe deu o nome. Porém, só entre 1508 e 1512, sob as ordens de Júlio II (sobrinho de Sisto), é que Miguel Ângelo concebeu as famosas pinturas narrando a história da Criação, num processo crivado de animosidade entre o artista solitário e um Papa impaciente em ver o trabalho concluído. Em pouco tempo, Miguel Ângelo dispensou todos os ajudantes que o serviam, ao perceber que o melhor trabalho de que eram capazes não satisfazia o seu grau de exigência. Devido ao cansaço, retenção de líquidos, pedras nos rins e problemas respiratórios, tanto contorceu o corpo nos andaimes que ganhou reumatismo e escoliose. A vista ficou-lhe turva, das gotas de tinta que caíam do tecto e da minúcia dos pormenores, mas o mestre não desarmava.

"Quando estará pronta a minha capela?" perguntava invariavelmente Júlio II, o Terrível, ameaçando substituir Miguel Ângelo caso não desse conta do recado. "Quando eu puder", era a resposta do artista, a braços com falta de paciência, dificuldades financeiras, problemas de saúde e aquelas quase trezentas figuras descomunais que o consumiam - mas que resultaram tão perfeitas quando as terminou que mais pareciam esculpidas em mármore de Carrara. A sibila Líbia foi uma delas, erguendo na mão a tocha que ilumina o mundo e profetizando sobre Cristo. Ninguém pareceu reparar que ela também se tornou famosa ao prever a chegada do dia "em que todo o oculto será revelado, sugerindo que o autor pintou a sonhar com o tempo em que o seu código seria revelado ao mundo.

Capela Sistina2.jpg

Mais tarde, Miguel Ângelo diria que a boa pintura se aproxima de Deus. "Não é mais do que uma cópia das suas perfeições, uma sombra do seu pincel, a sua música." Já nada podia apagar o código secreto ocultado nas imagens que representam a criação do Universo, sete episódios do Génesis, cinco sibilas(que teriam anunciado a vinda de Cristo), sete profetas, a embriaguez de Noé e façanhas heróicas do povo de Israel, incluindo Judite matando Holofernes, David vencendo Golias e Ester denunciando as perseguições de Amã aos judeus. O Papa rejubilava ao olhar os frescos. Estava longe de imaginar que o artista usara o seu humor rebelde para criticar a decadência da Igreja, passar mensagens esotéricas a quem as soubesse interpretar e declarar a sua admiração pelo povo judeu, o Talmude e a Cabala.

Foi isto mesmo que descobriram, alguns séculos mais tarde, os especialistas em judaísmo Roy Doliner e Benjamin Blech, confirmando no livro Os Segredos da Capela Sistina, As Mensagens Proibidas de Miguel Ângelo no coração do Vaticano (ed. Casa das Letras): "Às vezes, ele usava códigos ou alusões simbólicas que eram parcialmente escondidas, por vezes sinais que só poderiam ser entendidos por certos grupos religiosos, políticos e esotéricos. São mensagens que ecoam, nos dias de hoje, com o seu apelo corajoso para a reconciliação entre a razão e a fé, a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento, e entre todos os que se irmanam na busca sincera pela fé verdadeira e no serviço de Deus."

Mas nem só os frescos de Miguel Ângelo guardaram mensagens ocultas durante mais de cinco séculos. Segundo exames complexos realizados recentemente pelo Museu Britânico, recorrendo a tecnologia de ponta, vários esboços de Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio, Andrea Mantegna e do próprio Miguel Ângelo revelaram que os grandes nomes da Renascença eram recorrentes na arte da ocultação. Uma Virgem Maria de Leonardo deixa antever, por baixo, rascunhos de um gato e um menino Jesus. Um desenho da Viegem com o Menino, da autoria de Mantegna, revela, numa camada inferior, traços de uma mulher rodeada por dois querubins que, entretanto, acabaram apagados pelo artista. Miguel Ângelo modelou a sua Madona de Bruges, uma escultura exemplar da Virgem com o Menino, sobre o desenho de um torso que começou por ser, inegavelmente, masculino.

Capela Sistina3.jpg

"Através destes desenhos é possível ligarmo-nos àqueles momentos criativos, como se espreitássemos por cima do ombro dos artistas", disse Hugo Chapman, curador dos esboços italianos no Museu Britânico, em declarações à Imprensa. "Teríamos de ter estado com eles no estúdio para ver aqueles desenhos em particular. Isto é como uma máquina do tempo.", congratula-se o perito, deslumbrado com o modo como os traços profundos desvendam o ensaio das poses, da anatomia e do movimentos finais das grandes obras. No caso da Capela Sistina, a subversão de Miguel Ângelo está lá para quem quiser vê-la. Nunca a expressão "O essencial é invisível aos olhos" teve tanto significado.


 

Texto: Ana Pago

Fotografias: CORBIS
Notícias Magazine

 

 

publicado por Elisabete às 18:14
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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

Abel Manta

Auto-retrato (1912)

 

Abel Manta nasceu em Gouveia, a 12 de Outubro de 1888, e morreu em Lisboa, a 9 de Agosto de 1982.

 

 Vista de Gouveia (1925)
 

Exprimiu-se em várias modalidades: ilustração, cartaz, tapeçarias, murais, arquitectura e cartoon. Iniciou-se como figurativista, mas o contacto com Manet, Matisse e Cézanne, em Paris, levou-o a aderir ao pós-impressionismo.

Regressa a Portugal, em meados da década de 20, onde se vai dedicar à Pintura.

 

Em Gouveia, sua terra natal, Gouveia, foi inaugurado em Fevereiro de 1985 o Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta, num edifício setecentista.

 

Gouveia.Museu Abel Manta no Solar dos Condes de Vinhó

 

Foi casado com a pintora Clementina Carneiro de Moura, e pai do arquitecto, pintor, designer e cartoonista João Abel Manta.

 

As Maçãs (1925)

publicado por Elisabete às 17:34
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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Paulo Moreira

Exposição I Walk the Line, no Teatro Municipal da Guarda

 

   

 

 

OS OLHOS PERPLEXOS
 
No tempo do espectáculo superficial e inconsequente, Paulo Moreira fixa o frenesi do circo. Grava os cómicos, no movimento gelado. Porque a lúcida arte de Moreira surpreende a mímica dos mudos e combina-a, admiravelmente: amarra-a ao que, logo à partida, os amarrara –a vacuidade.
 
O universo deste artista é um universo de almas mortas ou de figuras adormecidas? De inocentes sacrificados? Correm, à beira do desastre, tentam escapar-lhe. Autómatos ou mártires? Fugitivos? Suicidas? Qual a razão, qual o caminho?
 
Monta-se a grande festa da aflição. Mas, quando se esconde o medo, acontece, sempre, a poesia. Os órfãos são amáveis. A ironia impiedosa e fraterna de Paulo Moreira (as contradições) desmascara-nos. Eis-nos todos, no teatro da vida. Devolve-nos as imagens da comédia.
 
Ou as imagens do Paraíso Perdido? Abraçadas na solidão, as personagens do pintor reclamam felicidade. Esbracejam e, às vezes, muitas, magoam-se e não conseguem ir além de onde estavam. Vibram, no entanto. Os desorientados consumistas é assim que se consumem. Dançam entre canibais e autofagia –que é o mal dos desesperados.
 
A candura dos actores desse drama quotidiano engendra a perplexidade. Aquelas pessoas, desassossegadas criaturas de Deus, tentam sobreviver e, afinal, entregam-se ao abismo de onde nunca se volta? Aceitam entrar na barca em festa de Caronte ou na Disneylândia, ansiosos e cansados de si?
 
Manuel Poppe
publicado por Elisabete às 17:49
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Sábado, 13 de Setembro de 2008

CLAUDE MONET

MONET

130 Anos de Impressionismo

 

 

 

Claude Monet nasceu em 1840 em Paris, mas viveu a partir dos cinco anos no Havre, onde desenvolveu o apreço pela natureza que tão bem pintou ao longo da sua vida. Filho de comerciante, aos quinze anos já era conhecido na região pelas caricaturas que vendia numa loja local. E foi nessa loja que conheceu o pintor Eugène Boudin, o qual o incentivou e orientou a pintar paisagens.
Aos dezassete anos, foi viver para Paris onde recebeu aulas de pintura e onde foi conhecendo e convivendo com outros artistas, como Pissarro, Sisley e Manet. Esteve dois anos na Argélia a cumprir o serviço militar e regressou à capital francesa, começando a ter algum sucesso com os quadros que expunha, quer no Havre quer em Paris.
Aos vinte e sete anos, o pai, que sempre o tinha apoiado financeiramente, não tolerou a ideia de Claude ir ter um filho da sua namorada Camille, cortando-lhe os financiamentos. Por isso, regressou para casa dos pais no Havre e não acompanhou o nascimento do filho Jean. Voltou a Paris mais tarde para se reunir a Camille, com quem veio a casar em 1870, aos trinta anos.
Os Monets residiram cerca de um anos em Inglaterra e na Holanda, onde Claude desenvolveu o seu estilo, deixando-se conquistar pelo ambiente e exprimindo-se com “pinceladas vibrantes de cores puras, de modo a obter a fusão dos tons nos olhos dos espectadores, em vez de os misturar na paleta”. Os céus limpos e nublados, a atmosfera húmida e vaporosa, a água em movimento e, sobretudo, as vibrações da luz mereciam a sua atenção.

 

Impressão, Sol nascente

 

 

A primeira grande exposição do seu grupo de amigos – agora também com Degas e Cézanne, entre outros – teve lugar em Paris, em Abril de 1874. E foi o título de uma das obras expostas por Manet – Impressão, Sol nascente – que originou o termo Impressionismo, utilizado por um crítico da época e que veio a designar o movimento artístico liderado por este grupo.

Os impressionistas utilizaram uma técnica que “dissolve a forma, a superfície e os volumes, minimizando os corpos físicos e representando os ambientes de uma forma fluida, dissolvendo os objectos na luz, que se salienta em pinceladas justapostas de cor pura”. Romperam com o intelectualismo materialista, realizando-se cada artista livremente, segundo o pendor individual da sua sensibilidade.

Claude foi considerado por alguns o mais impressionista dos impressionistas. A sua paixão pela pintura orientou toda a sua vida. Entre 1872 e 1878 utilizou como estúdio um barco que comprou e no qual passava inúmeras horas a flutuar, pintando, no rio Sena. Em 1879, quando ele tinha trinta e nove anos, Camille faleceu, um ano depois de lhe ter dado o segundo filho, Michel.
Claude iniciou então uma relação com Alice Hoschedé, esposa de um seu amigo. Ambos se afastaram do grupo de Paris, indo viver para Giverny. Ela assumiu a educação dos filhos de ambos, enquanto ele aproveitava para se deslocar às costas francesa e inglesa, pintando cada vez mais remotos sítios. Casaram em 1892, após a morte do marido de Alice.

 

 

 

 

 Le Bassin aux Nymphéas, Harmonie Verte 

 

Mas foi também no jardim da sua casa de Giverny, por ele criado, que muito se inspirou, nomeadamente no estúdio que aí mandou construir e onde pintou até à morte, que ocorreu aos oitenta e seis anos, depois de ter ficado de novo viúvo aos setenta. Procurava desenvolver a sua relação com a natureza para melhor se compreender a si próprio e ao mundo, numa despojada e depuradora perspectiva evolucionista.
Alguns dos quadros de Monet são dos mais famosos do Impressionismo, destacando-se as séries da Gare de Saint-Lazare (1876-1878), dos Degelos (1880), da Catedral de Ruão (1892-1894) e, principalmente, as Nymphéas, pintadas nas suas duas décadas de vida. O quadro Le Bassin aux Nymphéas, Harmonie Verte (1899) é considerado das mais belas obras alguma vez pintadas por um ser humano.
 

 

Luís Portela, O Prazer de Ser

publicado por Elisabete às 16:30
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Sábado, 19 de Julho de 2008

DEGAS

Nenhuma arte é menos espontânea do que a minha.”
Degas

 

Auto-retrato

EDGAR DEGAS
[Paris,19.07.1834 – 27.09.1917]
 
Mulheres penteando-se
 
No grupo alegre e ruidoso do Café Guerbois, há alguém que destoa. É o taciturno Degas, marginal do Impressionismo. O seu aristocrático nome de origem, Edgar-Hilaire Germain de Gas, é suficiente para o distinguir de todos aqueles pintores da pequena e média burguesia que, nos finais do século XIX, preparam em Paris a grande revolução da arte moderna.
Até 1873, assina as suas obras como “De Gas”. Faz, depois, a junção das duas palavras, simplificando para Degas.
  

O Absinto

 

Apesar de pertencer ao grupo e de figurar na maioria das suas exposições, Degas cria uma obra singular. Exprime-se, sobretudo, pela linha, valorizando o desenho, ao contrário dos impressionistas que negligenciavam o desenho e buscavam desesperadamente a cor. Raramente pinta cenas ao ar livre; nos seus quadros a luz é artificial: a luz dos interiores das lojinhas, dos cafés, dos quartos de banho. Libertando-se da sua formação clássica, procura descobrir o inédito, agarrar os flagrantes da vida. Busca o efémero nos movimentos dos seres vivos: bailarinas, músicos, modistas, engomadeiras, cavalos.

 

Ensaio de Ballet

 

Mais apreciado, no seu tempo, pelos temas pouco comuns e tido por alguns críticos como um académico disfarçado de revolucionário, é hoje reconhecido como um dos artistas mais responsáveis pela evolução da pintura, pela sua preocupação em acompanhar e traduzir as transformações da sociedade e do homem.

 

publicado por Elisabete às 22:55
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