O acontecimento na boca de toda a gente era a proclamação de Napoleão como imperador de França no dia dezoito de Maio. A tensão política na Europa fazia Portugal navegar por um mar de apreensão em relação à sua independência futura, pois era claro para todos que o Imperador tinha planos para o nosso pequeno e pitoresco posto fronteiriço na beira da Europa, especialmente pelo nosso parceiro comercial mais importante ser a Inglaterra, a sua grande inimiga. Não havia cidade na Ibéria cujo destino estivesse mais ligado à Grã-Bretanha do que o Porto, uma vez que noventa por cento das nossas exportações – incluindo mil barris de vinho, do tamanho de um homem, por semana – seguiam directamente para Londres.
Por esta razão, muitos, incluindo o meu pai, estavam convencidos de que Napoleão não levaria muito a lançar um ataque à nossa cidade. Faltando-lhe, inclusivamente, armazéns para o pão, que chegava ao Porto todas as terças, quintas e sábados, das terras vizinhas, um bloqueio e um cerco franceses fariam com que tivéssemos de enfrentar a fome ao fim de poucos dias.
Eu e Meia-Noite estávamos em casa das irmãs Oliveira quando começaram os problemas. Passava pouco das três horas no relógio em cima da prateleira da lareira, quando ouvimos o barulho de uma multidão a descer a nossa rua. Subitamente, um grito agudo cortou o ar:
- Não penseis que venho para trazer a paz na terra. Não venho para trazer a paz, mas uma espada. Todos os estrangeiros devem ser removidos da nação portuguesa. Se queremos ter uma Cidade de Deus, então as cabeças dos protestantes, dos pagãos e dos judeus têm de rolar pelas nossas ruas!
Reconheci a voz do orador e corri para a janela.
- Não! – gritou-me Graça.
Mas era demasiado tarde, pois eu já tinha afastado a cortina e espreitava lá para baixo.
O necromante que me ameaçara anos atrás, Lourenço Reis, estava parado à porta da loja do Senhor Benjamim, que ficava apenas a trinta passos de distância. Felizmente, não me via.
Com toda a certeza ele tinha escolhido o dia de hoje para regressar ao Porto, pois a véspera de S. João era, no fundo, uma celebração pagã do solstício de Verão.
- Se juntásseis todos os judeus em Portugal, o que teríeis? – perguntou aos seus seguidores.
Um homem gritou: “dez mil bestas”; outro, “uma vara de porcos”.
- John, sai daí ou dou-te uma palmada! – ordenou Luna.
Estava tão fascinado, que recusei mexer-me.
- Se juntássemos todos os judeus – continuou o necromante -, teríeis madeira suficiente para uma fogueira que chegaria até Deus!
Meia-Noite tocou-me no ombro:
- O que é que ele está a dizer? – perguntou-me.
- John, sua peste! Sai já daí! – suplicou Luna.
Ela e a irmã estavam a olhar para mim, furiosas. Deixei cair a cortina, mas continuei à janela.
- Ele ameaçou-me uma vez – murmurei para Meia-Noite. – Não gosta de estrangeiros, especialmente de…
Eu estava prestes a dizer “Judeus”, mas o necromante soltou um gemido como se tivesse sido apunhalado na barriga.
- Chamo Benjamim Seixas…
Voltei a puxar a cortina para o lado. Ele tinha levantado as mãos para invocar Deus.
[…]
- Ouça, senhor Zarco, por que não escreve umas memórias? – sugeriu-me ele quando se despediu de mim, sentindo que me incomodara. – Pelo menos assim pode contar tudo da maneira que quiser.
Parecia-me uma ideia absurda, mas, alguns dias depois de ele ter partido, peguei no cálamo e na tinta. Trabalhar dessa maneira produziu em mim uma estranha sensação de estar a fazer o que era correcto. Mais tarde, percebi que estivera à espera de dar voz à minha história desde que o Grande Inquisidor me dissera pela primeira vez a sua charada sobre um livro poder continuar a falar aos leitores muito depois de o terem terminado. Afinal, reduzir a minha história a escrito era a única maneira que tinha de, a partir do meu túmulo, falar de tudo o que acontecera. E era alguma coisa – talvez a única coisa – que podia dar de volta ao mundo em troca de todo o mal que fizera.
O Geral da Inquisição de Goa nunca poderia ter adivinhado que daquela maneira me estava a ajudar. E também isso parecia acertado.
Nestes últimos meses, sentado à secretária a escrever sobre Sofia, Wadi, Tejal, o meu pai e Phanishwar, tenho sido capaz de, para além de mim próprio, espreitar para os calabouços de Goa, de Lisboa e de uma centena de outras cidades na Ásia, na Europa e na América. Vi os homens e mulheres a apodrecer neles em nome de Cristo, Maomé e Krishna. Desejaria poder dar-lhes mais do que isto, mas isto é tudo o que tenho.
Em breve o leitor há-de fechar a capa deste manuscrito, selar-me lá dentro, e seguir o seu caminho, como lhe compete, mas talvez pense nesses prisioneiros – e em mim – de tempos a tempos. Agora que pego no último desenho da minha irmã e olho para ele à luz de uma única vela, talvez o leitor possa sentir até a morna brisa que entra pela minha janela em Bijapur, arrastando consigo o odor das flores de tamarindo. Consegue ver-me a pôr a mão sobre o contorno dos dedos que Sofia desenhou há tanto tempo? Vou rezar por que possa, e por muitas outras coisas:
Que Ana, Gonçalo, o meu pai, Sofia, Wadi, e todos os mortos descansem em paz.
Que Phanishwar tenha tido uma boa reencarnação.
Que Nupi tenha perdoado ao afilhado.
Que o meu filho nunca tenha sabido de mim e que Tejal tenha sido feliz.
A seguir, vou pegar na minha cruz de prata e sair para o meu alpendre para observar o pôr do Sol. Tentarei congregar alguma da coragem do meu pai, mas, por favor, não pense muito mal de mim se me vir tremer. Afinal, já sabe que não sou um homem muito corajoso, e, de qualquer forma, não é coisa fácil terminar uma história, mesmo uma história em que desempenhámos o papel do vilão.
TIAGO ZARCO
Bijapur, 14 de Maio de 1616
Richard Zimler, Goa ou o Guardião da Aurora

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