A ILHA
“Finalmente sozinho!”, pensou e espreguiçou-se. A sensação de assombro, causada pela solidão, foi substituída pelo sentimento de segurança até então desconhecido. Tudo lhe parecia familiar; olhou à volta como um proprietário que, depois de uma longa viagem, regressa à sua terra, donde não pode ser expulso porque é ele o autor das regras e ordens preestabelecidas. Começou a movimentar-se timidamente neste novo lar, entre o céu e o mar. “Tão familiar!”
[…]
“O mar não é capaz de sofrer”, pensou enquanto observava o mar com os braços cruzados. “Mas então com que finalidade foi criado?” Aquele mundo vazio, há muito privado de sentido e de finalidade, estendia-se indiferente à sua volta. “Só a razão é capaz de doer.” A dor fervilhava na costa, piscava os olhos luminosos, pestanejava através dos bastiões maciços, mas ali, entre o mar e o céu, era ele que representava o último nervo que ainda se movia e sentia. À sua volta tudo era apático e penumbroso. Tossiu, tapou a boca com a mão, porque naquele silêncio estranho o som criou um eco múltiplo. Cada movimento, os seus passos, o ruído das pedras por baixo dos pés pareciam estridentes como se um amplificador de som transformasse cada suspiro em trovão e o espalhasse pelo mundo. Askenasi mexeu-se com cuidado, evitando fazer barulho, e depois sentou-se em cima da rocha quadrada a escutar o mar. “Um texto estranho”, pensou, “escrito numa língua monótona, que se calhar não conhece a conjugação verbal. É apenas ritmo.” Como alguém que começa a entender certas palavras de uma língua estrangeira, inclinou-se para a frente com expectativa inquieta e escutou aquele ritmo esmagador. “Diz algo, sem dúvida, mas, se calhar, não são os ouvidos ou a razão que nos ajudam a percebê-lo.” Conteve a respiração e continuou a escutar. “Talvez existam textos que não se podem traduzir para francês ou latim.” Um dia deveria também livrar-se do vocabulário limitado da razão, daqueles milhares de conceitos que guardam cuidadosamente um segredo, incapazes de interiorizá-lo ou expressá-lo completamente. “Mas o que é que quero ainda alcançar com a razão?”, perguntou assombrado. “A razão só se pode usar no outro lado, na costa, ainda serve para alguma coisa, pode orientar-se com ela, como com as unidades de medida ou com os regulamentos. Mas aqui de pouco me serve… O que aconteceria se alguém viajasse até Marte com um despertador ou com uma apólice de seguros no bolso? Se calhar em Marte não há tempo para medir.”
SÁNDOR MÁRAI, A Ilha

(Sándor Károly Henrik Grosschmid) nasceu em Košice
(Hungria, hoje no território da Eslováquia), em 11 de Abril de 1900,
e morreu em San Diego (E.U.A), em 22 de Fevereiro de 1989
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