Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Porque o presente é herdeiro do passado

Aproveito o aniversário da concessão do Foral para homenagear o Teatro Municipal da Guarda (TMG), pelo trabalho que desenvolve, na cidade, e de que aqui deixo um feliz exemplo: a edição de PARA SEMPRE... talvez não. Escrito por seis jovens [Ana Rita Costa, Filipa Almeida, Joana Romano, Lara Monteiro, Maria João Lopes e Rita Dinis] que, assumindo-se como personagens, nos dão conta das suas dúvidas, amores, angústias, erros, desilusões e esperanças no futuro.

Já falei desta publicação há tempos e parece-me que seria interessante a implementação, nas nossas Escolas Secundárias, de projectos deste género. Motivariam, sem dúvida, os alunos para a leitura e, porque não?, para a escrita.

 

 

 

Não suporto…
Definitivamente não suporto esta interminável mania de a tarde suceder à manhã. Devia antes alternar com a noite. A tarde é nostálgica… não tem a magia da noite nem a pureza da manhã… definitivamente não gosto da tarde.
Ainda por cima aquele telefonema da Inês para a irmã deixou-me preocupada. Sinto que algo não está bem com ela. Identifico-me com a minha filha mais velha, ela é igual a mim. Se ao menos tivesse falado com ela, talvez lhe pudesse ser aconselhado alguma leitura, uma exposição, um espectáculo… enfim, algo que simplificasse alguma complexidade que deve estar a viver sem motivo!
Não! Decididamente não estou preparada para fazer nada para jantar. Peço uma pizza. Dá-me sempre a sensação que este queijo linear, filamentoso e branco é etéreo… puro… simboliza a vida e a sua continuidade. Com algum jeito consegue-se prolongar quase indefinidamente sem partir… o queijo… a vida também. É preciso sensibilidade apenas! A chave é essa… sensibilidade e sentidos apurados. Aquele marido do qual me restam duas filhas… sempre tão pragmático… tão terreno e, no entanto, foi capaz de ir-se embora para sempre… morrer sem dizer nada! Uma igual a mim, impulsiva, seguiu uma ideia e foi-se sem estar ainda preparada, antes de eu poder moldar alguma coisa nela; esta mais nova, tão diferente… nega tudo o que eu aceito!
Apesar de tudo faz-lhes falta o pai… aquele homem mais marmóreo que a pedra que está no atelier para ser trabalhada!
Aí está a chave de novo. Preciso de uma dose de sonho e sensibilidade… preciso do atelier! Sim, vou esculpir um pouco mais, acabarei por conseguir retratar o espírito do amor na pedra ainda em bruto. É urgente objectivar o amor; preciso de ideias!
Aquela conversa com fim abrupto deixou-me perdida. Gosto da continuidade… no queijo como na vida… um fio de sensibilidade que podemos estender até encher o mundo.
Passo na casa de banho para apanhar o prozac e olho-me ao espelho. Cinquenta e sete quilos de intemporalidade… acho que preciso de perder um pouco de peso, apesar de dizerem que não. Toda a gente me acha exótica! Como se isso fosse uma virtude! Será que confundem exotismo com comunhão natural? Que tem de exótica a forma como me visto? Será que não vêem que é na simplicidade das minhas túnicas de linho que se encontra a verdadeira expressão natural? Se me deixassem andava nua! Já o fiz várias vezes encerrada no atelier do sótão… é tão fácil dar expressividade aos sentimentos quando não há tabus, barreiras físicas, crítica social.
As coisas são como são que diabo! Criar não é amar… é manifestar necessidades! Aquele homem sempre fez amor comigo… como se isso existisse… nunca lhe chegou o facto de ter sexo, as filhas que me deixou vão viver sempre de ideais, não fora isso e a Inês não se ligaria a uma relação daquelas. Sai de casa para viver com um homem como se num homem fosse possível encontrar a eternidade! A eternidade está na natureza. Só isso!
Dizem que tenho uma cara pura, angélica e pensam que os traços do rosto fazem de mim uma mulher bonita! Ignorantes… superficiais. Não dão conta que eu sou os meus ideais e não este corpo. O cúmulo dos existencialistas traduziu-se naquela frase do pai das minhas filhas, nunca mais esquecerei aquilo que me disse depois de uma tarde de sexo. Na altura, fingi que me agradava aquele “Tens um corpo de sereia numa cara de anjo, devias ser modelo e não modelar estátuas”…!!!
Se calhar foi aí que deixei de gostar das tardes!
Como vou mudar a Maria? Herdou do pai as coisas terrenas. Abomina aquilo de que eu gosto por não poder ser como eu sou? Adoro-a, mas não sei explicar-lhe o que é o amor. Nem isso interessa… acredito é na pureza do linho e na frieza do mármore. Conversei sobre o sexo com as minhas filhas e não entenderam que essa é a relação verdadeiramente natural e espiritual. Queriam ouvir falar de amor… mais um produto da paternidade genética!
Acho que hoje um prozac não me chega. Talvez um pouco de música… sons naturais. Vou colocar um DVD do Andrey Cechelero – talvez “A última chuva” me dê uma ajuda.
 
in "PARA SEMPRE, talvez não

 

________________________

Contactos do Teatro Municipal da Guarda

 www.tmg.com.pt

Rua Batalha Reis, nº 12

6300-668 GUARDA  / PORTUGAL

Tel. 271 205 240 / Fax 271 205 248

 

 

publicado por Elisabete às 16:17
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Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

Um bom exemplo do... interior desprezado

 

 

GUARDA CIDADE VIVA
 
1. O aparecimento do livro “Para sempre... talvez não”, escrito por seis raparigas, ex-finalistas do ensino secundário, em terra do Interior desconsiderado, representa sinal positivo e honra a cidade. Contra esquecimento, indiferença e egoísmo que, menosprezando parte essencial de um país, cavam a sepultura desse país, levantam-se vozes, não exactamente no deserto. Alguém as ouviu: a novelinha foi editada (pelo TMG, casa milagreira). E o gesto do TMG e o desafio das autoras merecem muita admiração e muito respeito. Simbolizam a vitória sobre os adversários e o desgosto de julgarmos que combatemos moinhos. Não é assim. Nunca andamos sozinhos: o que se atinge decorre de diálogo. As acções consequentes recuperam e transmitem a confiança na vida.
 
2. O valor do livro está na sinceridade, coragem e qualidade literária das seis estudantes. Creio haver percebido o talento de escritoras de mérito. É obra importante, que urge ler. Conheço a Guarda há cinco décadas e agrada-me verificar o seu avanço e a fidelidade à autenticidade de raiz. “Para sempre... talvez não” seria, certamente, impossível, nos anos 50, 60. O gelo anterior ao 25 de Abril cortou-se – e que nada volte atrás reclamam as autoras, descrevendo a sociedade actual e confessando as próprias dúvidas. Eu não duvido: nem delas, nem da cidade. Há páginas emocionantes; há poesia e inteligência superiores. Que mais podemos querer? Eu sei: que o sonho puro dessas jovens não se perca nem cesse o movimento de repensar a vida, a que nos obrigaram.
 
Manuel Poppe, in "O Outro Lado"
Jornal de Notícias, 28.09.2008
publicado por Elisabete às 15:48
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