A morte de Moritz Erhardt e o erro de Keynes
Ainda não se sabe ao certo a causa da morte de Moritz Erhardt, um jovem de 21 anos, estagiário no Bank of America Merrill Lynch, em Londres no mês passado. Erhardt, um estudante alemão que havia terminado recentemente um semestre de intercâmbio na faculdade de negócios da University of Michigan, estava a aproximar-se do final de um estágio de Verão, de sete semanas, no renomado banco, quando desmaiou ao tomar banho, na sua residência, no leste de Londres. Os relatórios indicaram que ele sofria de epilepsia e deve ter tido convulsões. Esta é uma trágica história. O que a torna ainda mais atroz é a revelação da fatigante agenda de Erhardt nas semanas que antecederam a sua morte. (As convulsões epilépticas também podem ocorrer devido a exaustão).
Tentando conseguir a aprovação do seu chefe, Erhardt trabalhou até de madrugada oito vezes em duas semanas, dizem os colegas. Nas noites que antecederam sua morte, trabalhou até às seis horas da manhã por três dias seguidos. Erhardt estava empregado na divisão de investimentos bancários, que é notável, mesmo para os parâmetros degoladores da City of London e de Wall Street, pelas horas de trabalho esperadas dos trabalhadores. “Eu vejo muitas pessoas andando por aí, com os olhos avermelhados e bebendo cafeína para poder passar por isso, mas elas não reclamam, pois a recompensa pode ser muito boa”, disse um estagiário ao The Independent. (Na sua declaração, o Bank of America Merrill Lynch disse que não poderia comentar estas afirmações sobre as horas de trabalho de Erhardt e que aguarda os laudos pós-morte).
Excesso de trabalho: a possível causa da morte de Erhardt pode ser relativamente rara, mas não é nenhuma novidade. Apenas há alguns meses, um rapaz de 24 anos, em Beijing, sofreu uma paragem cardíaca por ter trabalhado excessivamente durante um mês. No Japão existe até um termo para este fenómeno, e o ministério da Saúde fez um grande esforço para reduzir o número de casos. A morte de Erhardt mostra um curioso fenómeno, que destaca a natureza do trabalho e do lazer e as razoáveis expectativas que as pessoas possuem de ambos.
Moritz Erhardt: no seu sector, são quase inevitáveis as jornadas de 80 horas semanais
Em 1930, John Maynard Keynes escreveu um ensaio chamado Economic Possibilities for Our Grandchildren (Possibilidades Económicas para os Nossos Netos), no qual previu que, com o avanço das tecnologias e o consequente aumento da produtividade, poderíamos trabalhar muito menos para satisfazermos as nossas necessidades. No espaço de um século, estimou Keynes, ninguém deveria trabalhar mais do que quinze horas semanais. O argumento parece quase ingénuo, na medida em que 2030, a data estimada por Keynes, se aproxima.
As horas de trabalho no mundo desenvolvido de facto caíram drasticamente nas primeiras décadas do século XX, graças às inovações industriais (como o próprio Keynes testemunhou). O declínio diminuiu nas décadas seguintes e, desde os anos 1980, as horas de trabalho estagnaram na média de quarenta horas semanais. Hoje, nenhum lugar, no mundo desenvolvido, está perto da projectada semana de trabalho de quinze horas de Keynes. Mesmo assim, no final do século XX, a média anual de horas trabalhadas era quase metade em relação ao século anterior, principalmente pela drástica mudança no início do século. Isto conduziu a um aumento nas actividades de lazer: prática de desporto, viagens, televisão, etc.
No entanto, os 10% do topo dos assalariados “não compartilharam muito deste ganho no lazer”, escreveu Robert Fogel, um historiador económico, em 1994. Ao invés disso, estas pessoas bem pagas, notou ele, estavam trabalhando próximo dos padrões do século XIX: 3200 horas por ano, comparadas com o actual padrão de 1800 horas.
Isto é surpreendente, se se pensar – como fez Keynes – que as pessoas preferem as horas de lazer e que passariam menos tempo trabalhando, se ganhassem dinheiro suficiente para trabalhar menos. Por outras palavras, parece fazer sentido que pessoas que ganham muito dinheiro trabalhariam menos e não mais.
Ao contrário, é o oposto que tem acontecido. Na verdade, o salário de 4.200 dólares por mês de Erhardt não o colocaria na categoria de Fogel do topo dos 10% dos assalariados. Mas não há dúvida de que, se ele tivesse vivido e continuado a trabalhar num banco de investimentos, os seus rendimentos teriam aumentado exponencialmente. Além disso, Erhardt pertencia a um meio em que as horas de trabalho pouco diminuem conforme se sobe na carreira corporativa. Alexandra Michel, professora assistente na U.S.C. Marshall School of Business, entrevistou mais de quinhentos sócios de bancos para um artigo sobre a cultura no local de trabalho: no seu primeiro ano de trabalho, todos os entrevistados disseram trabalhar mais do que oitenta horas por semana; no quinto ano, este número permaneceu nos 97%. “É como se fosse uma experiência psíquica em que a luz está sempre acesa,” disse um sócio a Michel sobre o seu ambiente de trabalho. “O único marco temporal são os turnos das secretárias”.
Como é que Keynes, cujas previsões já se mostraram tão acertadas, errou nesta?
A resposta talvez tenha a ver com o facto de a cultura dos locais de trabalho – incluindo as horas que as pessoas trabalham – não são estabelecidas pelos trabalhadores, mas pelos empregadores. Estes, preferem contratar um número menor de trabalhadores que conseguem trabalhar um longo período do que pagar menos e dividir o trabalho, pelo simples motivo de que da primeira forma é mais rentável, escreveram Robert e Edward Skidelsky no livro How much is enough? (Quanto é o bastante?). O resultado, de acordo com os autores, é que o mercado de trabalho está agora “dividido entre os que são obrigados a trabalhar mais tempo do que querem e os que não conseguem trabalhar o suficiente.”
A solução mais simples, argumentam, seria reduzir gradualmente o número de horas dos empregados. Esta solução, provavelmente, não anima os empregadores, é claro. Mas muitos se perguntam, à luz destas conclusões, se uma cultura de trabalho que reconhecesse os objectivos dos empregadores do mesmo modo que as necessidades dos trabalhadores poderia ter ajudado a evitar a tragédia da morte de Erhardt.
RUTH MARGALIT
[Tradução de Cristiana Martin, com aproximação minha ao português de Portugal]
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