Sábado, 21 de Dezembro de 2013

Uma coisa de ouvir…

 

Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.

Quando empedernir, esquecido de toda a humanidade da vida, ficará entre as loiças, como inútil souvenir ou peça de mesa para uma festa que nunca acontecerá.

Terei sempre pena dele. Estará como um animal antigo que perdeu a qualidade dos novos dias. Sem visitas. Será apenas a humilhação entristecedora de todos os afectos.

Poderei, nas arrumações, preparando alguma partida, aligeirando os fardos, deixá-lo no lixo para que a natureza o recicle com as suas ganas aturadas de recomeçar tudo. Até lá, a minha coragem assume apenas a evidência de que somos matéria morrendo. Começarei morrendo pelo coração.

Gostarei sempre dele, como se gosta do que está extinto, sejam os dragões, os anjos ou as distâncias. Histórias de coisas que não voltam.

O meu coração sem visitas perderá a memória e, quando nos separarmos de vez, certamente será mais feliz.

Se me perguntarem, direi que nasci sem ele. Jurarei e mentirei sempre.

Talvez, depois de esquecido, sirva de ocarina e possa com ele tocar canções. Um coração por ocarina faria todo o sentido do mundo.

Pudesse esse ser o destino de cada um, amadurecer assim o coração. De percussão a instrumento de sopro. Ensaiar uma melodia até ao fim. Ter uma melodia por identidade e deixá-la a alguém que a aprendesse. Quando não existíssemos, estaríamos suficientemente no som. Bastaria o som para impedir que a morte fosse tão exagerada. Talvez quem aprendesse a canção pudesse também guardar-nos as paixões. Pousá-las ao pé de si. Dizer: esta ocarina é bonita. A morte seria só bonita. Uma coisa de ouvir, contra o silêncio insuportável.
VALTER HUGO MÃE, A Desumanização
publicado por Elisabete às 16:35
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Sábado, 8 de Dezembro de 2012

a máquina de fazer espanhóis

 

deus é uma cobiça que temos dentro de nós. é um modo de querermos tudo, de não nos bastarmos com o que é garantido e já tão abundante. deus é uma inveja pelo que imaginamos. como se não fosse suficiente tanto como se nos põe diante durante a vida. queremos mais, queremos sempre mais, até o que não existe nem vai existir. e também inventamos deus porque temos de nos policiar uns aos outros, é verdade. é tão mais fácil gerir os vizinhos se compactuarmos com a hipótese de existir um indivíduo sem corpo que atravessa as casas e escuta tudo quanto dizemos e vê tudo quanto fazemos. é tão mais fácil se esta ideia for vendida a cada pessoa com a agravante de se lhe dizer que, um dia, quando morrer, esse mesmo sinistro ser virá ao seu encontro para o punir ou premiar pelo comportamento que houver tido em todo o tempo que gastou. e a comunidade respira mais de alívio por saber que assim estamos todos policiados da melhor maneira, temos um polícia dentro de nós, um que sendo só nosso também é dos outros e, a cada passo, pode debitar-nos ou acusar-nos e terminar o nosso percurso com facilidade. eu sei que a humanidade inventa deus porque não acredita nos homens e é fácil entender porquê. os homens acreditam em deus porque não são capazes de acreditar uns nos outros. e quanto mais assim for, quanto menos acreditarmos uns nos outros, mas solicitamos o policiamento, e se o policiamento divino entra em crise, porque as mentes se libertam e o jugo glutão da igreja já não funciona, é preciso que se solicite do estado esse policiamento. que medo o de voltarmos ao tempo de uma polícia para costumes e convicções. Que medo se voltamos a temer os vizinhos e os vizinhos nos puderem entregar por ideias contrárias. que medo se nos entra outro filho-da-puta no poder, a censurar tudo quanto se diga e a mandar que pensemos como pensa e que façamos como diz que faz. que medo de tudo se em tudo quanto os homens fazem vai a vontade torpe de ultrapassar o outro, poder mais do que o outro, convencer o outro de que fica bem no andar de baixo e depois subir, subir o mais sozinho possível, porque ganhar acompanhado não satisfaz ninguém. estamos a fazer tudo errado agora, sem valores, sem medo da igreja, sem um fascismo que nos regule o voluntarismo. estamos como que sozinhos da maneira errada. mais sozinhos do que nunca, a ver a coisa passar sem sabermos muito bem em quem confiar. e nisto, é verdade, pressupomos que todos são bons homens, mas a cabeça de alguns, senão a de todos, tem de estar a cozinhar muito do esquisito que para aí acontece e se sente. muito do esquisito que nos impede, mais e mais, de acreditar nos homens.

e a lei, essa coisa sensível que gosta de nós e se preocupa com o estarmos felizes e confortáveis, comove-me. põe-se à espreita dos gestos todos e salta-nos em cima com entusiasmo se lhe parece que nos arrogamos mais espaço do que o esperado, ou se simplesmente queremos tomar uma decisão sozinhos, tragando o que é nosso, sem ter de dar conta aos outros do que é nosso, do que toda a vida foi nosso e, agora, é sempre por percentagem do estado também. […]

 

Valter Hugo Mãe, a máquina de fazer espanhóis

 

 

publicado por Elisabete às 22:15
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Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Valter Hugo Mãe na apresentação do livro A DIVIDADURA, no Porto

 

Ficar a dever

 

Entre os maiores desafios que enfrento na vida estará, necessariamente, o meu pouco jeito para ganhar dinheiro. Sou péssimo a fazer contas, aparecem-me umas nuvens nos olhos quando estudo juros ou leio contratos, acabo por ser um bocado desorganizado e esquecido. À última hora, aposto sempre na confiança. Tento confiar em quem tenho diante de mim. Confio nas suas boas intenções, o que é lindo e me tem tramado uma e outra vez. À última hora, levam-me sempre naquela conversa sobre a mãezinha e a tia não sei de quem que gosta dos meus livros, e mais um vídeo do youtube com cãezinhos ou viagens à Islândia, e a conversa fica uma coisa de café, como se fôssemos amigos e, supomos, os amigos serão naturalmente os melhores para respeitarem os nossos interesses.

Escrevo poemas e livros de estórias e juro que não sou má pessoa mas, eu sei, preciso de ser protegido contra mim mesmo. Vivo na urgência de ser integrado num sistema de boa gente, regido por leis equilibradas e justas, governado cautelosamente e em profunda boa fé. Aceito o erro, mas não posso aceitar a instrumentalização do poder e o modo sinistro como justificam que, sem termos pedido nada ou tendo pedido pouco, nos compete pagar mundos e fundos, tantas vezes de obra que não vemos, que não foi feita.

O livro A Dividadura, de Francisco Louçã e Mariana Mortágua é, pois, uma pedrada na cabeça de um homem como eu. Senti-me como a perder a virgindade nas minhas inocentes moedinhas todas, ficando consciente de cada delirante manobra inventada para colocar o mundo em números, para se colocar cada coisa e cada gesto numa conta de cifrões.

Eu, que já andava um bom bocado indignado, diria que esta é, um pouco, a história de brincar ao dinheiro. A história da dívida é saber como, em cada tempo, se foi percebendo que a valoração de algo depende sempre menos da preciosidade daquilo que se dá em troca, e mais do poder e aparatoso prestígio de quem emite um título. A perda da relação direta do valor com a preciosidade material do dinheiro, já depois de se ter perdido o pagamento em espécie, vê os governantes a descobrirem como podem, insidiosamente, levar o mercado a aceitar um modo de liquidez que já não corresponde a reserva nenhuma e que passa, por isso mesmo, a ser uma espécie de fantasia, um dinheiro de valor apenas suposto, como uma palavra de honra.

O dinheiro passa a ser discursivo, transforma-se numa certa conversa. É uma retórica que, a partir da ficção do seu valor, confere a quem está no poder um efeito de riqueza que, se posto em causa, estoura nas mãos dos cidadãos, que se veem subjugados à obrigação de assumirem os encargos legítimos e ilegítimos com que os seus governantes se comprometeram. O poder é efetivamente o dinheiro de que dependemos hoje. Trabalharmos até nos esfolarem os dedos, até cegarmos ou até chegarmos a velhos, não é dinheiro, é quase só uma canseira.

Num mundo onde o dinheiro é imaginário, e onde a partir dessa aritmética cada vez mais abstrata se define a quota de poder que cada um detém, fácil é de entender que a especulação seja a grande proeza circense que os aventureiros de hoje escolhem cometer. O grande modo de brincar ao dinheiro. Mais interessante do que caçar a fórmula da Coca Cola, tem de ser comprar produtos financeiros que, por humores e ratings, possam multiplicar o seu valor da noite para o dia. Não há melhor para se enriquecer. Não são precisas matérias-primas, não se cria emprego, não se oferece nada ao público, não se mandam fazer embalagens, não há e não interessa haver publicidade, não se distribui. O cidadão, a esfolar os dedos, nem percebe quem manda em quê, quem ganha com o quê. Pode ser tudo assim já uma palavra de honra muito relativa. Ou a honra vai buscar-se à Moody’s, que é detida por privados e tem uma mentalidade de guerra, e que anuncia o que vale e o que não vale com a mesma perversão com que outrora se falava da castidade das senhoras.

A falta de efetividade no sistema financeiro vai sempre deixar de fora a maior parte da população. Porque a maior parte da população nunca saberá participar proveitosamente nem se saberá defender da teia kafkiana em que se tornou tudo isto. A maioria da população, como eu, não se licenciou em economia e espera simplesmente que trabalhar e viver do seu vencimento seja digno o suficiente para não ser enganada nem explorada.

O livro de Francisco Louçã e Mariana Mortágua é um livro tese. Explica-nos como a história desembocou no momento em que estamos. Ao pé de nos hipotecarmos, no mínimo por por duas décadas, a um aparente socorro que nos usurpa. Gostei de saber que a Bíblia proíbe os juros, e que promete que todos voltaremos a ser donos do que perdemos, assim como impõe o perdão de qualquer dívida ao sétimo ano. Até o nosso querido José Saramago ia gostar que a Bíblia deixasse pistas tão claras para uma ética financeira. E já não gostei de perceber as contas a fazer para pagarmos a sagrada ajuda da Troika, entalados numa Europa que pode ver o Banco Central Europeu a emprestar dinheiro a Estados não membros da União Europeia, mas não que o pode fazer aos Estados membros em dificuldades.

Recorremos ao FMI para aplicação de uma austeridade com palas, isto é, uma austeridade chapa cinco, cuja aplicação é indiferenciada no tempo e no lugar, indiferente a culpas e a sacrifícios. Ou seja, mais valia que nos aplicassem a Bíblia, que entre conceitos e preconceitos, se respeitada, nos poupava a este roubo.

Acredito na tese fundamental de A Dividadura, na medida em que pretende impor uma ética nisto de se ajudar um país chamado Portugal. É tão simples quanto isto: a ajuda não pode acarretar a usurpação, não pode ser o pretexto para que paguemos mais do que aquilo que efetivamente nos emprestam. Ao menos a este nível, a porcaria da ganância havia de estar ausente, disciplinada e a ter vergonha.

Se não tiverem paciência, tempo, ou se já souberem tudo acerca da história da dívida, não deixem de ler ao menos os capítulos finais, sobretudo ali a partir da página 221 onde se propõe uma estratégia para o momento atual da economia portuguesa. Em cinco pontos, Louçã e Mortágua propõem um modo diverso de dignificar o que devemos, antes que sejamos todos “chinezados”, ou seja, antes que a austeridade cega da Troika nos imponha, sem fim à vista, “um novo regime social assente em salários baixos e em trabalho precário generalizado”. Toda a construção de proteção social vai aluindo, e está em causa regredirmos ao tempo de um abandono tal em que se abdica de ter governantes pelo povo para os termos contra o povo e a favor da escravatura económica. É fundamental perceber que parte da dívida de que nos acusam é ilegítima. É fundamental perceber quem enriqueceu de modo ilícito e agir judicialmente, recuperando o que se puder recuperar. É importante perceber quem decidiu dolosamente. É fundamental perceber que estamos dispostos a um esforço, mas que não podemos ser conduzidos à miséria pela exigência de um pagamento excessivo, abusivo, indecente.

Quando eu dizia que preciso de ser defendido de mim mesmo, dizia-o porque tenho o sonho de ser outra coisa que não fiscal de tudo, polícia de tudo, mas o que vivemos hoje é um saque contínuo aos nossos atrapalhados vencimentos e, daí, um saque contínuo à possibilidade de sonharmos com qualquer confiança, com qualquer segurança. Passamos a escrever poemas desconfiados da carteira porque nos parece sempre que alguém nos tira de lá o dinheiro. Gostava de acreditar que não me virão mais roubar a pureza com que as minhas moedas foram ganhas e, sobretudo, o ofício simples que têm, o de pagarem a sobrevivência até nada de especial que tenho. Fico, pois, enervado com suspeitar e ter de suspeitar, porque me seria mais natural acreditar, falar como entre amigos e levar a vida sem olhar para trás e sem ter de ser tramado uma e outra vez. Percebo, claro está, que entre os poemas tem de existir a formação de uma voz coletiva. Um ruído aumentando que chegue aos ouvidos dos aventureiros lá muito em cima, e que faça uma infinidade de gente real valer mais do que a decisão fria e puramente financeira dos poderes já desumanos, mais e mais virtuais, que controlam o mundo.

 

Valter Hugo Mãe

[6 de Abril de 2012]

publicado por Elisabete às 19:43
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